Teresa de Calcutá

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Teresa de Calcutá

A Verdadeira Fisionomia dos Santos

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“Na presença…

da Madre Teresa, todos nos sentimos, com razão, um pouco humilhados e envergonhados de nós mesmos”.

Esta frase pronunciada pelo Primeiro Ministro da Índia, Indira Gandhi, em discurso oficial perante a Assembleia geral da ONU em Nova York, é muito significativa do que foi a beata Madre Teresa de Calcutá.

Agnes Gonxha Bojaxhiu, seu nome de batismo, nasceu no dia 26 de agosto de 1910, onde é hoje a Macedônia. Essa região dos montes balcânicos, com uma incrível mistura de etnias, línguas e religiões, fazia parte da Iugoslávia. Com a queda do comunismo e de sua ditadura, a Macedônia proclamou sua independência. Aí vivem povos bem diferentes. Os pais de Agnes pertenciam à minoria albanesa que vivia no sul da antiga Iugoslávia, e apesar de estarem entre muçulmanos, os pais de Agnes eram católicos fervorosos.

Seu pai faleceu quando ela tinha apenas nove anos, o que obrigou sua mãe a sustentar a família fazendo bordados. Agnes teve de ir para uma escola do estado. Desde pequena rezava muito e tinha muita devoção a Nossa Senhora e a Santa Terezinha. Ela ajudava muito em sua paróquia. Com apenas 10 anos ela já dirigia o coro da igreja. Era inteligente, aprendia tudo com facilidade e tinha uma linda voz. Foi membro ativo da Congregação Mariana da paróquia. Nas reuniões da Congregação eram lidas cartas de missionários na Índia que contavam a situação terrível daquele povo. Isso lhe causava profunda impressão. Ela era tocada tanto pela miséria material, quanto pela espiritual.

Ao completar 18 anos, em 1928, ela refletiu seriamente sobre se consagrar inteiramente a Deus na vida religiosa. Sua mãe concordou e ela entrou na Congregação das Irmãs de Nossa Senhora de Loreto, perto de Dublin, na Irlanda. Logo ao entrar no convento, Agnes não escondeu que seu grande objetivo era ser missionária na Índia. A superiora decidiu então que ela faria seu noviciado já no país onde ela se sentia chamada. Poucos meses depois de entrar na Congregação, ela foi enviada para a cidade de Darjeeling, no norte da Índia, lugar famoso por seus ótimos chás. As Irmãs de Loreto possuíam ali um colégio onde a irmã Agnes ajudava e fazia seus estudos.

No dia 24 de maio de 1931, fez sua profissão religiosa, fazendo votos temporários de pobreza, castidade e obediência. Nessa ocasião ela escolheu seu novo nome religioso: “Escolhi chamar-me Teresa, mas não foi pela grande Teresa que escolhi esse nome (referindo-se à Santa Teresa D’Ávila), mas sim pela pequena, Sta. Teresinha”. Ela passou a lecionar história e geografia num outro colégio das irmãs, em Calcutá, o colégio Saint Mary’s. Ela gostava de ensinar e se relacionava muito bem com suas alunas, que gostavam muito dela. Em maio de 1937 a Irmã Teresa fez seus votos perpétuos. Pouco tempo depois foi nomeada diretora deste colégio. Tudo ia muito bem para a jovem freira neste colégio para as filhas das famílias mais ricas de Calcutá. Mas a irmã ficava profundamente impressionada com a espantosa miséria que via nas ruas da cidade. Gente morrendo de fome, doentes deitados nas ruas sem nenhuma assistência médica, e sem receber nenhum amor ou assistência espiritual.

Madre Teresa com seu olhar que marcou a vida daqueles que se cruzaram com ele.

O dia 10 de setembro de 1946 marcou sua vida e a história da Igreja. Ela assim narrou o que aconteceu: “Eu ia de trem de Calcutá a Darjeeling, para fazer meu retiro. Nunca é fácil dormir nos trens, mas tentar fazê-lo num trem da Índia é impossível. Tudo range, há um penetrante odor de sujeira devido ao amontoado de homens e animais, todo um detrito de humanidade, de cestos e de galinhas cacarejando… naquele trem, aos meus trinta e seis anos, percebi no meu interior um chamado para renunciar a tudo e seguir a Cristo nos subúrbios, a fim de servi-Lo dentre os pobres dos mais pobres. Compreendi que Deus desejava isso de mim…”. Ela pensava, cheia de amor, nos miseráveis de Calcutá que todas as noites morriam pelas ruas e que na manhã seguinte eram recolhidos pelos carros da limpeza pública como se fossem lixo. Não conseguia se acostumar com as cenas terríveis de pessoas esqueléticas morrendo de fome e passou aquela noite no trem meditando sobre isso. Sua conclusão foi bem concreta: “o que eu posso fazer por estes miseráveis?” Ela ficou angustiada, pois amava o que fazia, gostava de lecionar, era querida na congregação, onde levava vida tranqüila de oração e trabalho no colégio. Porém, dentro dos regulamentos estritos da Congregação não podia fazer quase mais nada. Mas Deus não a chamava para dar mais? Para se dar por inteiro a fim de ajudar os milhões de infelizes que perambulavam pelas ruas sem teto, sem família, sem nada?

Foi com todas estas perguntas que a angustiavam que a irmã Teresa foi falar com o arcebispo de Calcutá, Dom Fernando Périer. Não seria o caso dela deixar tudo para ajudar aquele povo da rua? A resposta do arcebispo foi um “não” categórico. Mais tarde, a irmã escreveu sobre isso: “não podia ser outra a sua resposta. Um bispo não pode autorizar a primeira freira que lhe aparece com projetos estranhos de ajudar o povo da rua com o argumento que essa parece ser a vontade de Deus”. A irmã Teresa voltou com entusiasmo às suas tarefas diárias no colégio. Recebia a todo momento manifestações de carinho e apreço por parte das alunas e das demais freiras. Apesar de ter aceito a negativa do bispo com bom espírito, procurando esquecer a idéia de um chamado diferente, a imagem dos miseráveis morrendo voltava à sua mente.

Depois de um ano, ela decidiu voltar a falar com o bispo, mas dessa vez preparou bem sua argumentação, dando ênfase em que aceitaria a resposta qualquer que ela fosse. O arcebispo ficou impressionado com o fervor, a persistência e a simplicidade daquela irmã tão pequena e frágil. O arcebispo pensou bem no que responder e decidiu aceitar o pedido, desde que a madre superiora da Congregação também aceitasse.

Irmã Teresa escreveu logo uma carta para a superiora explicando seu plano de se dedicar sozinha a ajudar os mais miseráveis, mas mantendo sua condição de religiosa. A superiora viu no pedido a mão de Deus e autorizou. Em sua carta de resposta, concluiu: “Se essa é a vontade de Deus, autorizo-te de todo coração. De qualquer maneira, lembra-te sempre da amizade que todas nós te consagramos. Se algum dia, por qualquer razão, você quiser voltar para o meio de nós, fique sabendo que te receberemos com o amor de irmãs”. O arcebispo então pediu autorização do Vaticano para a irmã sair da Congregação “para viver só, fora do claustro, tendo Deus como único protetor e guia, no meio dos mais pobres de Calcutá”. A resposta do Papa só chegou no dia 12 de abril de 1948 e especificava que ao sair da Congregação, a irmã continuava religiosa, sob a obediência do arcebispo de Calcutá.

A saída foi muito difícil, para ela, para as demais freiras e para as alunas. Todos já a chamavam de Madre Teresa. Ela foi primeiramente fazer um curso de enfermagem, que julgava indispensável para o trabalho que iria iniciar. Ao mesmo tempo, requereu a nacionalidade indiana, que obteve em dezembro de 1948. Tendo saído da Congregação, tinha de escolher um novo hábito. Numa loja simples, encontrou um sari, roupa típica das mulheres indianas, bem simples, de tecido grosseiro branco com as bordas azuis. Colocou sobre ele um crucifixo. Era um traje de mulher simples indiana e com o símbolo cristão. Ela saiu pelas ruas, formou grupos de crianças a quem ensinava o alfabeto, noções de higiene e de moral. Os grupos iam crescendo, as crianças a amavam à primeira vista. Visitava os enfermos nas ruas, levando palavras de consolo, limpando-os, mas não tinha nada para lhes dar. Logo ela ficou conhecida e quando passava, os miseráveis gritavam, “Madre Teresa, Madre Teresa!” Eles já se contentavam só com o amor que percebiam nela.

Mas aquele início foi muito duro. Ela não tinha nada, nem dinheiro, nem remédios, nada para aqueles famintos e doentes, mas precisava urgentemente de alguma casa onde pudesse abrigar os mais necessitados. Ela, que era muito sociável, se sentia numa solidão terrível. Um dia ela decidiu se dedicar só ao mais urgente: achar alguma casa, algum prédio onde pudesse abrigar os mais doentes que jaziam pelas ruas. Passou o dia inteiro caminhando por Calcutá, sem achar nada. No final do dia, estava exausta e desanimada. Aí bateu a tentação de voltar para a vida tranqüila e confortável do colégio das freiras. Para combatê-la, compôs esta belíssima oração em forma poética:

Meu Deus,
Por livre escolha
E por teu amor,
Desejo permanecer aqui
E fazer o que a tua vontade
Exige de mim.
Não! Não voltarei atrás.
A minha comunidade são os pobres.
A sua segurança é a minha.
A sua saúde é a minha.
A minha casa é a casa dos pobres.
Não apenas dos pobres
Mas dos mais pobres dentre os pobres
Daqueles de quem as pessoas já não querem nem se aproximar
com medo do contágio e da sujeira
porque estão cobertos de micróbios e vermes.
Daqueles que não vão rezar porque não podem sair nus de casa.
Daqueles que já não comem porque já não têm força para comer.
Daqueles que se deixam cair pelas ruas,
conscientes de que vão morrer,
e ao lado dos quais
os vivos passam sem lhes prestar atenção.
Daqueles que já não choram,
Porque se lhes esgotaram as lágrimas;
dos intocáveis.

Ela estava nessa aflição, sem recursos, sem casa, rodando pelas ruas de Calcutá, quando encontrou um padre que fazia uma coleta para um jornal católico. Ela só tinha uma rúpia (moeda de pouco valor da Índia) e entregou ao padre. Continuou andando e confortando os doentes nas ruas, quando horas depois, se encontrou com o mesmo padre. Este lhe disse que um senhor acabara de lhe dar um envelope com 50 rúpias para ajudar os pobres. O padre lhe ofereceu o envelope. Ela viu nisso um primeiro sinal de que Deus não a abandonaria.

O maior sinal de Deus, porém, veio de onde ela menos esperava. Um dia, uma de suas antigas alunas, uma moça muito bonita, inteligente e bem preparada, de família muito rica, procurou a madre para lhe dizer que queria também deixar tudo para servir os mais pobres. A madre achou melhor testá-la e lhe disse que isso era algo muito difícil, que exigia uma vocação especial para aguentar a vida dura das ruas. E lhe disse: “Minha filha, pensa melhor, reze mais e daqui algum tempo, venha falar comigo”. A jovem foi, pensou, rezou e veio dizer à Madre que tinha certeza que era isso que Deus pedia a ela. Logo depois apareceu outra ex-aluna, depois outra e mais algumas. Sem nenhuma propaganda, todas queriam seguir o exemplo daquela Madre que elas amavam tanto. O notável é que elas eram das castas superiores da Índia, não só eram de famílias ricas, mas pelo rígido sistema de castas, elas eram consideradas superiores ao povo e não deviam se misturar com os demais, e muito menos com os miseráveis. A Madre assim explicou o que estava acontecendo: “Elas se despojavam com íntima satisfação de seus saris luxuosos para serem revestidas com o nosso humilde sari de algodão. Vinham sabendo que era algo difícil. Quando uma filha das velhas castas se coloca a serviço dos párias (a casta mais baixa, considerada a dos intocáveis) trata-se de uma revolução. A maior de todas. A mais difícil: a revolução do amor!”

Madre Teresa com jovens.

Madre Teresa organizou então uma vida regular religiosa para as moças que chegavam. Logo a casa ficou lotada. As moças se dedicavam neste início especialmente à educação das crianças, feitas em grupos formados nas ruas. A madre foi ensinando às jovens o amor pelos mais infelizes, pelos doentes graves encontrados nas ruas. A madre lhes dizia: “O primeiro trabalho com os doentes e moribundos recolhidos na rua era lavar-lhes o rosto e o corpo. A maior parte deles nem conhecia sabão, e a espuma lhes dava medo. Se as irmãs não vissem nestes infelizes o rosto de Cristo, este trabalho ser-lhes-ia impossível. Nós queremos que eles saibam que há pessoas que os amam de verdade. Aqui eles encontram a sua dignidade de homens e morrem num silêncio impressionante… Os pobres não merecem só que os sirvamos, merecem também alegria e as irmãs oferecem-na em abundância. O próprio espírito de nossa Congregação é de abandono total em Deus, de amor confiante, cheio de alegria…”

Cada irmã vive em extrema pobreza, tal como os miseráveis que elas ajudam. Cada uma tem como roupa apenas dois saris brancos de algodão bem simples e barato, um jogo de roupa interior, um prato de metal esmaltado, um par de sandálias, um pedaço de sabão, um travesseiro, um colchonete bem fino, dois lençóis e um balde. Ao menor sinal, as irmãs precisam estar preparadas para partir para qualquer lugar. A Madre escreveu as regras e constituições da nova Congregação que nascia. O arcebispo as aprovou e as enviou ao Vaticano, que as reconheceu em 1950.

A Madre logo abriu um lar infantil para crianças abandonadas e o famoso “Lar para Moribundos”, no qual ela passava a maior parte de seu tempo, preparando os doentes para morrer e ministrando-lhes os cuidados médicos básicos que fossem possíveis. Ao ouvir falar dessa obra incrível, muita gente queria visitá-la, as doações começaram a chegar de toda a Índia e mais tarde, com as notícias da imprensa se espalhando, elas vinham de todo o mundo. As vocações também chegavam em grande número. Parecia que o exemplo daquela pequenina e aparentemente frágil freira, era irresistível. Novas casas começaram a ser abertas em outras grandes cidades da Índia onde abundavam os muito pobres.

Mas nem tudo eram flores. O primeiro lar para moribundos ficava bem ao lado de um templo hinduísta da deusa Kali, e anexo havia uma hospedagem para os peregrinos que vinham de longe visitar esse templo. Os monges do templo pagão ficaram furiosos que uma freira católica tivesse a ousadia de se instalar a seu lado e – afronta ainda maior – para tratar de miseráveis intocáveis, de quem eles nem chegavam perto. Vendo que não havia outra saída, os monges pagãos resolveram matar aquela freira que profanava as redondezas de seu santuário levando para lá todo aquele lixo humano. A madre logo ficou sabendo do que eles planejavam e um dia foi falar com o chefe dos monges. E lhe disse: “Se vocês querem me matar, matem-me agora mesmo, mas não façam mal aos meus pobres moribundos”. O chefe dos monges fixou seu olhar naquela freirinha e ficou impressionado. Ele depois disse aos seus subordinados: “Observei com todo cuidado aquela mulher e a minha impressão foi a de que ao olhar para ela vi a própria deusa em ação. Não façam, portanto nenhum mal a essa mulher”. Pouco a pouco, os monges começaram a se tornar seus amigos. Um dia, um deles contraiu tuberculose. Na Índia, os tuberculosos são abandonados por medo de contágio. O monge doente veio pedir refúgio à Madre Teresa, que o recebeu com amor. Ele blasfemava com frequência contra Deus por causa da doença. As irmãs foram pouco a pouco mudando sua atitude. No final estava sereno e conformado. Os outros monges vinham visitá-lo e se admiravam da mudança conseguida pelas freiras. Ele morreu em paz e este fato fez com que os monges e seu público ficassem amigos da Madre Teresa e de suas freiras.

Madre Teresa, a serviço do amor e da caridade aos menores de nosso mundo.

Seu trabalho, sua personalidade e capacidade em conseguir tudo através do amor e do despojamento, ganharam fama mundial e, em 1960, o Papa Paulo VI lhe concedeu um passaporte diplomático do Vaticano para que ela fosse mediadora em questões humanitárias mundo afora.

Em 1973, abriu uma seção para leigos fazerem parte espiritualmente de sua congregação – em poucos anos já havia mais de 50.000 pessoas inscritas. A Madre passou a viajar pelo mundo abrindo novas casas e ensinando suas discípulas. Mas fazia questão absoluta de passar uma parte de seu tempo cuidando dos doentes mais graves em seu lar para os Moribundos de Calcutá. A cada dia, ela escolhia os que estavam em pior estado para cuidar pessoalmente.

A Madre fundou um ramo masculino da Congregação em 1976 e em 1979 foi fundado um ramo contemplativo dos irmãos. Em 1976 ela também fundou um ramo contemplativo feminino. Dada a expansão inacreditável de sua obra por todo o mundo, a imprensa passou a tratar deste verdadeiro fenômeno social de nossos tempos. Aonde esta humilde freirinha ia, lá estava a imprensa internacional para ouvi-la. Ela, que foi tão avessa à publicidade e a aparecer diante do público, aproveitou para fazer o bem em declarações à imprensa. O Papa João Paulo II a encorajou pessoalmente a ser uma espécie de “embaixadora” da Igreja perante o mundo, aceitando os convites que chegavam de todas partes. Até a ONU a convidou a falar. O secretário geral da ONU na época, declarou ao apresentá-la aos delegados: “Essa é a mulher mais poderosa do mundo”.

A madre recebeu o Premio Nobel da Paz em 1979 e numerosos outros prêmios. Dezenas de universidades lhe concederam o título de doutora Honoris Causa, inclusive de algumas das mais prestigiosas do mundo. Recebeu incontáveis medalhas, até da extinta União Soviética, que se considerava atéia. Personalidades a nível mundial iam visitá-la na Índia, como a princesa Diana da Grã Bretanha, que depois confessou ter sentido inveja das freiras da Madre, que haviam deixado tudo para servir os pobres.

Madre Teresa recebe o Prêmio Nobel da Paz em 1979.

Em 1990, ela pediu ao Papa João Paulo II para ser substituída na direção da Congregação, pois as irmãs a haviam reeleito apesar de seus protestos. Ela já sentia que sua saúde fraquejava. O Papa, porém, a confirmou no cargo. Na eleição, das 60 irmãs superioras votantes, o único voto contra ela foi o dela mesmo.

À primeira vista, parecia que tudo corria bem para a Madre, tal como, muito anos antes, quando era professora do colégio de freiras. Depois de sua morte, seu confessor, o padre Kolodiechuk, publicou algumas de suas cartas espirituais, por onde se vê que ela sofria de uma terrível aridez espiritual que a fazia sofrer muito. Ela não sentia consolação nenhuma, era como se Deus a tivesse abandonado. Mas ela ia em frente, como se tudo estivesse bem. Nunca se queixou, nem comentou isto com as demais irmãs e com ninguém. Só o padre que a confessava sabia de sua “noite escura” por conversas e cartas.

Seu coração dava mostras de estar cansado. Em 1989 já havia tido um enfarto e foi implantado um marca-passo. Em 1997, ao chegar de uma viagem aos EUA, ela se sentiu mal. Era o dia 5 de setembro. Às 21h30 a incansável madre Teresa morreu em grande paz, na casa sede da Congregação em Calcutá. Seu corpo foi transferido para a Igreja de São Tomás, anexa à sua primeira casa, que ela havia fundado 45 anos antes. Naquele momento, a Congregação já contava com cerca de 4.000 irmãs espalhadas em 600 fundações situadas em 123 países, sempre cuidando dos mais pobres e dos mais abandonados.

A Índia, que não é um país cristão, declarou luto oficial e seu enterro foi declarado funeral de Estado (só concedido a chefes e ex-chefes de Estado). O povo da Índia chorou sua morte, pois era muito querida por todos, cristãos e pagãos. A fila para ver seus corpo tinha quilômetros por dias a fio; nela estavam misturados ricos burgueses e suas famílias, pessoas de classe média e uma imensa multidão de pobres e miseráveis. Havia cristãos, pagãos e muçulmanos. As pessoas vinham a pé, em carros de luxo, em aviões, em trens e ônibus super lotados. Nunca na Índia se viu algo daquele gênero. A Missa de corpo presente foi celebrada no maior estádio da Índia pelo Secretário de Estado do Vaticano o Cardeal Sodano. O cortejo fúnebre pelas ruas de Calcutá reuniu a maior multidão já vista naquela enorme cidade. Numerosos chefes de Estado compareceram ao enterro, inclusive reis e rainhas. Mensagens de pêsames chegavam aos milhares de personalidades de todo o mundo. Seu enterro foi transmitido por centenas de televisões e rádios de todo o planeta. Calcula-se que cerca de um bilhão de pessoas viram ou ouviram a cerimônia.

Seu processo de beatificação foi iniciado pouco depois de seu falecimento. Sua fama de santidade era tão grande, que muitos se perguntavam se era necessário todo um processo para se verificar o óbvio. Mas o processo foi feito, e como estava tudo muito comprovado e sua santidade era evidente, foi o processo de beatificação mais rápido da história. Em apenas quatro anos estava concluído. É necessário pelo menos um milagre cientificamente comprovado para a beatificação. No caso da Madre, havia dezenas deles. Foi escolhido um caso impressionante de uma mulher indiana, Monika Besra, que tinha meningite tubercular e um tumor tão volumoso no ovário direito, que parecia estar grávida de seis meses. Sem nenhuma explicação médica, o tumor desapareceu. Sua beatificação foi feita pelo Papa João Paulo II na Praça de São Pedro a 19 de outubro de 2003.

Aquela mulher pequenina e aparentemente frágil, que havia abandonado o mundo e uma vida confortável, que havia iniciado sua obra sem um centavo, que havia levado uma vida de extrema pobreza, agora tinha o mundo a seus pés, impressionado. O que foi que a moveu? O que foi que impressionou tanto o mundo? Foi algo muito simples e – como ela mesmo dizia – algo muito difícil de se praticar: o amor, um grande amor a Deus e a todos, sobretudo aos que mais sofrem. Foi a prática bem concreta dos princípios do Evangelho de Nosso Senhor. Para levar o amor evangélico ao ponto que ela levou, era preciso ser santa. Madre Teresa de Calcutá, sem dúvida, foi uma grande santa que em breve será canonizada.

“Amai-vos uns aos outros, como Jesus vos ama. Não tenho nada a acrescentar à mensagem que Jesus nos deixou. Para realizarmos este mandato devemos ter um coração puro e rezar. O fruto da oração é o aprofundamento na fé. O fruto da fé é o amor. E o fruto do amor é o serviço ao próximo.” Teresa de Calcutá, Agosto de 1997

GAUDETE ET EXSULTATE

A ACN recomenda a leitura da Exortação Apostólica Gaudete et Exultate, do Papa Francisco, como forma de aprofundar o tema “santidade”.

GAUDETE ET EXSULTATE

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