Dom Bosco

3170 palavras12.1 minutos de leitura

Dom Bosco

A Verdadeira Fisionomia dos Santos

Baixe o Livro completo
Compartilhe:
Um lugarejo…

chamado Becchi, há alguns quilômetros de Castelnuono, no Piemonte, norte da Itália. Início do século XIX, época de grandes mudanças, a Revolução Industrial transformava o mundo. Neste tempo, mais precisamente em 16 de agosto de 1815, nasceu João Melchior Bosco, filho dos camponeses e cristãos exemplares Francisco Bosco e Margarida Occhiena. Uma família de origem humilde e muito pobre. Tudo se agravou depois que o pai de João Bosco faleceu de pneumonia, quando ele tinha apenas dois anos.

Apesar da infância sofrida, a vida de João Bosco foi iluminada. Sua mãe Margarida, que era analfabeta, mas rica de sabedoria, com a palavra e com o exemplo animava-o no seu desejo de crescer virtuoso aos olhos de Deus e dos homens. Quando ainda era criança, aos nove anos, teve um sonho profético que o marcou profundamente:

“Dormindo, pareceu-me estar perto de casa, num terreno espaçoso onde estava reunida uma multidão de meninos. Alguns riam, alguns brincavam; muitos blasfemavam. Atirei-me no meio deles, e com gritos e socos, tentava acabar com as blasfêmias e os palavrões. Naquele instante apareceu um homem respeitável, muito bem vestido. Um manto lhe cobria o corpo todo; tinha um rosto tão luminoso que eu nem podia fixá-lo no olhar. Aí, Ele me chamou pelo nome e me mandou chefiar aquela turma. E disse: ‘Não é com pancadas, mas com mansidão que você deve conquistar esses seus amigos. Comece então a ensinar para eles sobre a feiúra do pecado e a preciosidade da virtude’”.

João Bosco ficou confuso e com medo, respondeu ao Homem que ele não passava de um menino pobre e ignorante, incapaz de falar de religião àquelas crianças. Nesse momento, acabando a briga, a gritaria e as blasfêmias, o pessoal todo se reuniu ao redor do Homem que estava falando. Então João Bosco perguntou:

“Quem é o Senhor, que está me pedindo coisas impossíveis? E o homem respondeu: ‘Justamente porque essas coisas lhe parecem impossíveis é que você tem de torná-las possíveis com a obediência e com a aquisição da ciência’. Onde, de que jeito eu vou poder conseguir ciência? ‘Eu vou lhe dar a Mestra: com o ensinamento d’Ela você pode tornar-se sábio; sem Ela, toda a sabedoria se torna bobagem’. Ao final o Homem disse quem era: ‘Eu sou o filho d’Aquela que sua mãe lhe ensinou a saudar três vezes ao dia.’ Nesse momento, vi ao lado d’Ele uma Senhora de aspecto majestoso, revestida de um manto todo resplandecente, como se cada ponto fosse uma estrela brilhantíssima… Fez sinal para que eu me aproximasse e, me tomando pela mão, disse amavelmente: ‘Olhe!’”.

João Bosco percebeu que os meninos tinham desaparecido. No lugar deles viu uma multidão de cabritos, cães, gatos e vários outros animais, A Senhora continuou:

O primeiro sonho de Dom Bosco

‘Aí está seu campo, é aí que você deve trabalhar. Torne-se forte, humilde e robusto, e o que você agora está vendo acontecer com esses animais, você tem que fazer para meus filhos’. Voltei então os olhos, e eis que, em vez de animais ferozes, apareceram outros tantos cordeirinhos mansos que, saltitando e balindo, rodeavam aquele Homem e aquela Senhora, como a lhes fazer festa. Nesse ponto, ainda em sonho, comecei a chorar e pedi à Senhora que me falasse de modo que eu pudesse compreender, porque eu não estava entendendo o que aquilo queria significar. Aí ela me pôs a mão sobre a cabeça dizendo: ‘A seu tempo você vai compreender tudo.’ Um barulho me acordou, e tudo desapareceu”.

Na manhã do dia seguinte, o futuro santo contou o sonho para sua mãe, que lhe disse: “Quem sabe você vai ser padre?!”.

Mas o jovem João Bosco ainda teria que superar muitas dificuldades para se tornar padre. Estudar exigiria um dinheiro que a família não tinha, e Antônio, o irmão mais velho, não gostava nada da idéia de João se tornar sacerdote, afinal de contas, a família que já não tinha o pai, e ficaria com um homem a menos para ajudar no sustento da casa.

João Bosco era inteligente, se esforçava em seus estudos e sempre queria ir além. A oportunidade lhe veio quando, com 11 anos, conheceu o Padre Calosso. Ele um dia lhe perguntara sobre os últimos sermões da Missa, e João Bosco lhe repetiu palavra por palavra dois sermões quaresmais inteiros. Padre Calosso, impressionado com a memória do menino, se prontificou, após conversar com a mãe de João Bosco, a lhe dar aulas. O Padre ficou mais feliz ainda ao saber do motivo pelo qual João queria tanto estudar: se tornar sacerdote um dia.

Mesmo diante de todas as dificuldades e da pobreza, João Bosco nunca desistia. Durante um tempo contou com a ajuda de amigos da família para continuar os estudos. Foi costureiro, sapateiro, ferreiro, carpinteiro e ainda, nos tempos livres, estudava música. Tudo isso para conseguir se sustentar.

Aos 19 anos pensou em ser franciscano. Seu pároco ao saber disso, visitou sua mãe, pedindo que ela o fizesse desistir dessa idéia, pois na velhice ela iria precisar da ajuda dele. A mãe foi falar com seu filho: “Quero que tu penses bem nisso. Quando tiveres decidido, segue o teu caminho e mais nada. O mais importante é que tu faças a vontade do Senhor. O pároco queria que eu te fizesse mudar de idéia, porque no futuro iria precisar de ti. Mas eu te digo: nestas coisas tua mãe não entra, Deus está acima de tudo! De ti não quero nada. Nasci pobre, vivi pobre e quero morrer pobre. Aliás, se te fizeres padre e por desgraça te tornares rico, não porei mais os pés em tua casa. Lembre-te bem disso!” Dom Bosco nunca esqueceu essas palavras. Rezou muito, falou com seus amigos e com seu confessor. Ele dizia: “Quero ser sacerdote para tomar conta dos jovens. Eles são bons, se há jovens maus é porque não há quem cuide deles”. Em 1835 entrou para o seminário de Chieri.

Ordenado sacerdote em 1841, em Turim, era chamado de Dom Bosco. Logo começou a dar provas do seu zelo apostólico, sob a direção de São José Cafasso, seu confessor. Nessa ocasião, decidiu tomar três propósitos para o resto de sua vida: ocupar rigorosamente todo o seu tempo; sofrer, humilhar-se em tudo e fazer todo o possível para salvar as pessoas; deixar que a caridade e a doçura de São Francisco de Sales o guiassem em tudo.

Em dezembro desse mesmo ano, no dia 8, dia da Imaculada Conceição, Dom Bosco estava na sacristia preparando-se para celebrar a Missa. Viu entrar um menino bem tímido, humilde e pobrezinho. O sacristão pediu que o menino ajudasse na Missa, ele respondeu que não sabia. Então o sacristão bateu no jovem com o cabo de um espanador, expulsando o garoto da sacristia. Dom Bosco ao ver a cena ficou muito chateado e pediu ao sacristão que o chamasse de volta. O menino voltou e participou da Missa. Depois da Celebração, Dom Bosco conversou com o menino e descobriu que este se chamava Bartolomeu Garelli, tinha 16 anos, não sabia ler nem escrever, era órfão, não tinha mais ninguém no mundo e trabalhava como assistente de pedreiro.

Dom Bosco perguntou então ao Bartolomeu se ele não queria aprender sobre o catecismo. O jovem Garelli respondeu prontamente:

-Sim, contanto que não me batam!

Dom Bosco o tranqüilizou, dizendo que agora eles seriam amigos e ninguém o maltrataria. O convidou então para se ajoelhar e rezarem juntos uma Ave-Maria. Esta oração foi a inspiração e o início da Obra dos Oratórios Festivos, local onde os jovens encontrariam um bom ambiente, aprenderiam sobre a fé e teriam um rumo para a vida com sacerdotes e orientadores. Uma obra destinada, sobretudo, aos jovens mais carentes. Dizia: “Basta que sejam jovens para que eu ame vocês”. Ao Oratório juntou um orfanato, uma escola profissional, depois um ginásio e um internato. Tudo acompanhado de perto por Dom Bosco e sua “Mamãe Margarida”, como era chamada.

Margarida Occhiena, a mãe de Dom Bosco.

O carisma de Dom Bosco era tão forte que, de sua obra, brotaram muitos santos, como São Domingos Sávio, que faleceu com 15 anos. Algo que certamente ajudou os que estavam perto de Dom Bosco a alcançarem a santidade, foi a importância e o modo como ele os aconselhava a rezar: “Quando rezares observa uma ordem nos pedidos. Pede em primeiro lugar os bens espirituais, o perdão dos pecados, a luz para conhecer a vontade de Deus, a força para te manteres na sua graça; depois pede a saúde física, a bênção para a tua família, o afastamento das desgraças e a segurança de um trabalho. Em cada manhã entregai a Deus as ocupações do dia”.

É útil conhecer o inovador sistema educacional criado por Dom Bosco que tanto bem fez e tem feito a milhões de jovens de todo o mundo. Ele o chamou de Sistema Preventivo, no sentido de prevenir a queda dos jovens no mundo do crime, dos vícios e da ociosidade. Eis como o próprio Dom Bosco resumiu o sistema preventivo: “São dois os sistemas usados desde sempre na educação da juventude: preventivo ou repressivo. O sistema repressivo consiste no fazer conhecer a lei aos jovens, vigiar para conhecer os transgressores e lhes infligir o merecido castigo… Diferente, e direi oposto, é o sistema preventivo. Ele consiste em fazer conhecer as prescrições e regulamentos de uma escola e garantir que os alunos tenham sempre o olhar vigilante do diretor e dos assistentes, que como pais amorosos falem, sirvam de guia em cada acontecimento, dêem conselhos e corrijam amorosamente. Ou seja: colocar os alunos na impossibilidade de cometer faltas. Este sistema apóia-se todo sobre a razão, a religião e o carinho; por isso exclui qualquer castigo violento e procura manter afastados até os castigos ligeiros”.

Dom Bosco fez vários milagres em vida, principalmente multiplicação de alimentos e cura. Em novembro de 1849, cerca de seiscentos garotos estavam voltando de uma visita ao cemitério e Dom Bosco tinha apenas um saco com castanhas cozidas. Pediu que os garotos fizessem uma fila, e foi distribuindo fartamente as castanhas. Após distribuir para mais de duzentos garotos, só havia para mais dois ou três meninos. Para surpresa de todos, Dom Bosco continuou distribuindo e aquelas poucas castanhas jamais acabavam. Todos viam um milagre acontecer diante dos olhos, e ficavam na expectativa para saber se daria para todos. Ao final da larga distribuição, todos os meninos gritavam: “Dom Bosco é um Santo!”.

Grande devoto de Nossa Senhora Auxiliadora costumava dizer: “Maria é mãe de Deus e nossa mãe; mãe poderosa e piedosa que deseja ardentemente encher-nos dos favores do Céu. Estamos neste mundo como num mar tempestuoso, como num exílio, num vale de lágrimas. Maria é a estrela do mar, o conforto do nosso exílio, a luz que nos indica o caminho do céu enxugando as nossas lágrimas. Maria Santíssima protege os seus devotos em todas as necessidades, mas especialmente na hora da morte. As mães da terra nunca abandonam os seus filhos. O mesmo faz Maria que tanto ama seus filhos ao longo da vida; com que ternura, com que bondade não irá ela protegê-los nos últimos instantes, quando a necessidade é maior”.

Essa devoção trouxe frutos em suas viagens pela Europa, para arrecadar fundos para sua Obra. Nossa Senhora o abençoou, permitindo que cegos voltassem a enxergar e surdos tivessem sua audição reconstituída, através das mãos de Dom Bosco.

Um caso significativo foi o de uma menina de 12 anos que era cega. Dom Bosco pediu que a menina rezasse uma Ave-Maria e uma Salve-Rainha. Depois de conceder uma bênção à menina, tirou uma medalha do bolso e perguntou a menina o que era aquilo. A pequena, com a visão já restabelecida disse com grande alegria: “É a medalha de Nossa Senhora, e do outro lado São José com um bastão florido na mão!” Dom Bosco ainda deixou a medalha cair no chão, e a menina, sem hesitação alguma, pegou a medalha. Ficou conhecido por todo o continente europeu como “o padre que faz milagres”.

Dom Bosco também teve muitos sonhos proféticos. No início, não dava muita importância a eles, mas o Papa Pio IX, do qual se tornou amigo, mandou que ele anotasse todos os sonhos. Várias vezes ele previu a morte de pessoas, e em 1883 teve um sonho curioso, que parece se referir ao futuro do Brasil. Ele sonhou que foi levado por anjos, voando para a América do Sul (onde de fato nunca havia estado). Foi assim, nas palavras do próprio santo: “Por muitas milhas percorremos uma enorme floresta virgem e inexplorada. Não só descortinava, ao longo das cordilheiras, mas via até as cadeias de montanhas isoladas existentes naquelas planícies imensuráveis, e as contemplava em seus menores acidentes… Tinha sob os olhos as riquezas incomparáveis desses países, as quais um dia serão descobertas. Via numerosas minas de metais preciosos e de carvão, depósitos de petróleo abundantes como jamais se viram em outros lugares. Mas isso não era tudo. Entre os paralelos 15 e 20 graus, havia um leito muito largo e muito extenso, que partia de um ponto onde se formava um lago. Então, uma voz dizia repetidamente ‘quando escavarem as terras escondidas no meio destes montes, aparecerá aqui a terra Prometida, onde correrá leite e mel. Será uma riqueza inconcebível. E essas coisas acontecerão na terceira geração’”.

A região onde se construiu Brasília, cerca de 60 anos depois, fica justamente entre os dois paralelos mencionados pelo santo. E a construção de Brasília começou no que seria a terceira geração depois de Dom Bosco, na década de 50. Uma objeção à profecia do sonho era que ele previa quantidades imensas de petróleo, que até há pouco não se conhecia. Agora, com as descobertas de jazidas gigantes na costa brasileira, mais este aspecto do sonho parece se cumprir. Por causa deste sonho, Dom Bosco foi escolhido como um dos padroeiros de Brasília. Um santuário de Dom Bosco foi construído exatamente sobre o paralelo 15, de onde se tem uma linda vista da cidade.

Grigio defende Dom Bosco dos dois bandidos.

Há um fato curioso na vida de Dom Bosco que muitos consideram uma proteção divina. Um cachorro, ao qual chamavam de Grigio (que em português quer dizer cinzento) teve uma importância especial para o santo. Era um cão misterioso, que nunca aceitava comida de ninguém, nem do próprio Dom Bosco. Aparecia sempre quando Dom Bosco corria algum perigo. Em 1854, Dom Bosco foi assaltado por dois bandidos, que o amordaçaram e iriam colocá-lo numa espécie de saco. Eis que de repente surge o Grigio e ataca ferozmente os mal-feitores. Ele só parou o ataque aos bandidos quando Dom Bosco o chamou. O próprio santo testemunhou a grande importância de Grigio: “Esse animal foi minha salvação em muitos perigos em que me encontrei”.

Em 1859, fundou com os seus jovens a Congregação Salesiana. Rapidamente se multiplicaram os Oratórios, as escolas profissionalizantes, os colégios, as paróquias, as missões, tudo acontecendo conforme a Providência dispunha. Repetia sempre a frase: “Dai-me almas e tire o resto”.

Com a ajuda de Santa Maria Mazzarello, fundou em 1872 o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora para a educação da juventude feminina. Em 1875 enviou a primeira turma de seus missionários para a América do Sul. Foi ele quem enviou os salesianos para fundar o Colégio Santa Rosa, em Niterói, primeira casa salesiana do Brasil, e o Liceu Coração de Jesus em São Paulo. Criou ainda a Associação dos Cooperadores Salesianos para agrupar e coordenar os leigos. Prodígio da providência divina, a obra de Dom Bosco é toda ela um poema de fé e caridade. Consumido pelo trabalho, o vigoroso italiano fechou o ciclo de sua vida terrena aos 72 anos de idade, em 31 de janeiro de 1888, deixando a Congregação Salesiana disseminada pela Europa e América.

Se em vida Dom Bosco foi honrado e admirado, muito mais o foi depois da morte. Seu nome de taumaturgo, de renovador da educação da juventude, de defensor da Igreja Católica e de apóstolo da Virgem Auxiliadora espalhou-se pelo mundo e ganhou o coração dos povos. Pio XI, que o conheceu e gozou da sua amizade, canonizou-o na Páscoa de 1934.

Apesar dos anos que separam os dias de hoje do tempo em que viveu Dom Bosco, seu amor pelos jovens, sua dedicação e sua herança pedagógica vêm sendo transmitidos por seus seguidores no mundo inteiro. Embora tenha feito repercutir pelo mundo o seu carisma e o sistema preventivo, que é baseado na Razão, na Religião e na Bondade, Dom Bosco permaneceu durante toda a sua vida em Turim, na Itália, fazia apenas algumas poucas viagens pela Europa para tratar assuntos de sua obra. Dedicou-se como ninguém pelo bem-estar de muitos jovens, em sua maioria, órfãos, que vinham do campo para a cidade em busca de emprego e acabavam sendo explorados por empregadores interessados em mão-de-obra barata, ou na rua passando fome e convivendo com o crime.

Pela sua longa atividade em favor dos jovens, por lhes ter dado todo o seu tempo, a sua inteligência e criatividade, Dom Bosco foi sempre indicado pelo povo como o “santo dos jovens”. Cem anos depois da sua morte, em 1988, a Igreja, através de João Paulo II declarou oficialmente São João Bosco como “Pai e Mestre da Juventude” na carta Pai dos Jovens.

Dom Bosco em meio a amigos e aos jovens que tanto amou.

GAUDETE ET EXSULTATE

A ACN recomenda a leitura da Exortação Apostólica Gaudete et Exultate, do Papa Francisco, como forma de aprofundar o tema “santidade”.

GAUDETE ET EXSULTATE

Deixe um comentário

Outros Santos …

Ir ao Topo