República Centro-Africana

LIBERDADE RELIGIOSA NO MUNDO RELATÓRIO 2021

POPULAÇÃO

4.920.889

ÁREA

622.984 km2

PIB PER CAPITA

661 US$

ÍNDICE GINI

56.2

POPULAÇÃO

4.920.889

ÁREA

622.984 km2

PIB PER CAPITA

661 US$

ÍNDICE GINI

56.2

RELIGIÕES

versão para impressão

DISPOSIÇÕES LEGAIS EM RELAÇÃO À LIBERDADE RELIGIOSA E APLICAÇÃO EFETIVA

A Constituição da República Centro-Africana (RCA),1 que substitui a carta transitória2 adotada em 2013, foi aprovada através de um referendo a 13 de dezembro de 2015 e promulgada a 30 de março de 2016. A Constituição marca o fim da transição política que se seguiu à crise causada pela tomada do poder por rebeldes Seleka em março de 2013.3

O preâmbulo da nova Constituição reconhece a “diversidade étnica, cultural e religiosa” do povo centro-africano, “que contribui para o enriquecimento da sua personalidade”. O artigo 10.º garante “a liberdade de consciência, de reunião, [e] de religião e de crenças […] nas condições estabelecidas pela lei”. É proibida qualquer forma de fundamentalismo religioso […] e de intolerância”. O artigo 24.º afirma que “A República Centro-Africana é um Estado de direito, unitário, soberano, indivisível, laico e democrático”.

Todas as denominações religiosas têm o direito de transmitir um programa semanal na rádio estatal (Radio Centrafrique), e de operar as suas próprias estações de rádio. As principais estações de rádio confessionais são a Radio Nôtre Dame católica com sede em Bangui e a Radio Voix de l’Évangile protestante (antiga Radio Nehemie). Outras estações católicas estão de volta ao ar após o violento domínio dos seleka. Em abril de 2018, a Plataforma Inter-religiosa para a Paz (liderada pelo Cardeal católico Dieudonné Nzapalainga, presidente da Aliança Evangélica da RCA, pelo Pastor Nicolas Guerekoyame-Gbangou e pelo Presidente do Conselho Islâmico da África Central, Imam Kobine Layama) fez planos para a criação de uma estação de rádio inter-religiosa, mas os seus apoiadores financeiros não chegaram a um acordo na época.4

A República Centro-Africana assinou um Acordo-Quadro com a Santa Sé no dia 6 de setembro de 2016.5 O documento estabelece um quadro jurídico para as relações entre a Igreja e o Estado em que ambas as partes, salvaguardando a respectiva autonomia, se comprometem a trabalhar em conjunto para o bem comum, bem como para o “bem-estar moral, social, cultural e material” dos cidadãos do país.6 Contudo, de acordo com alguns prelados católicos de topo, a plena implementação do acordo ainda está a aguardar, com as autoridades governamentais a argumentar que falta um documento. Durante a sua assembleia plenária em janeiro de 2020, a Conferência Episcopal da África Central (Conférence Episcopale Centrafricaine, CECA) apresentou uma lista de questões prioritárias ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, incluindo o Acordo-Quadro, mas em meados de 2020 ainda não tinha sido recebida qualquer resposta.7

Os grupos religiosos, exceto os seguidores de religiões autóctones, são obrigados a registrar-se no Ministério do Interior, Segurança Pública e Administração do Território. Estes grupos devem ter pelo menos mil membros e os seus líderes devem ter tido uma formação religiosa adequada, a contento do Ministério. O registro pode ser recusado por razões de moral pública, saúde pública e/ou perturbação da paz social. O procedimento é gratuito e confere benefícios fiscais, mas não há penalizações se um grupo não se registrar.8

O pessoal estrangeiro que trabalha com organizações religiosas pode obter autorizações de residência, enquanto os missionários estrangeiros e o pessoal escolar que trabalha com a Igreja Católica local podem receber autorizações de residência renováveis (carte de séjour) válidas por um ano, um procedimento que consideram mais eficiente.9 Novos grupos religiosos, particularmente igrejas cristãs pentecostais ou “renascidas”, têm vindo a crescer no país nos últimos anos, alguns deles com apoio governamental através da utilização de edifícios públicos para cerimônias religiosas públicas.10

A educação religiosa não é obrigatória, mas está disponível na maioria das escolas. A Igreja Católica tem uma rede de escolas em todas as nove dioceses do país, coordenada pela organização Escolas Católicas Associadas da África Central (Écoles Catholiques Associées en Centrafrique, ECAC), com um memorando de entendimento assinado com o Ministério da Educação. A Universidade estatal de Bangui tem uma capelania católica ao lado do seu campus, gerida pelos Jesuítas, com um vasto leque de atividades pastorais e culturais.

As principais festas cristãs são feriados públicos: Sexta-feira Santa, Páscoa, Ascensão, Assunção de Nossa Senhora, Todos-os-Santos e Natal. Desde 2017, as festas islâmicas do Eid al-Fitr e Eid al-Kebir são também feriados públicos.

INCIDENTES E EVOLUÇÃO

Apesar do Acordo Político para a Paz e Reconciliação na República Centro-Africana11 negociado em Cartum (Sudão), mediado pela União Africana e assinado em Bangui a 6 de fevereiro de 2019 pelo Governo da RCA e 14 grupos armados, a violência continuou afetando grandes partes do país durante o período abrangido por este relatório.12

Uma descrição feita pela La Croix International descreve sucintamente os desenvolvimentos históricos: “Desde o derrube do Presidente François Bozizé em 2013, houve confrontos entre inúmeros grupos armados na República Centro-Africana. O antigo presidente foi deposto num golpe orquestrado pela Seleka, uma coligação de grupos armados muçulmanos do norte do país e de mercenários do Chade e do Sudão. Em resposta à Seleka, foram formadas milícias de autodefesa constituídas por cristãos e animistas. Conhecidos como os Anti-Balaka, estes grupos atacaram os muçulmanos, conferindo uma dimensão religiosa ao conflito. Segundo muitos observadores, estes grupos armados estão a lutar, sobretudo, pelo controle dos depósitos de diamantes, ouro e urânio”.13

O ano de 2018 foi particularmente difícil para a Igreja Católica, com cinco dos seus sacerdotes assassinados, todos eles no que pareciam ser, pelo menos em parte, ataques com um preconceito religioso. O P. Joseph Désiré Angbabata, da diocese de Bambari, foi morto a tiro em 21 de março durante um ataque contra a sua paróquia em Seko, onde muitas pessoas se tinham refugiado, tendo sido aparentemente mortas por rebeldes da União para a Paz na África Central (Union pour la Paix en Centrafrique, UPC).14

No dia 1º de maio de 2018, uma milícia muçulmana armada de “autodefesa” com sede no Kilometre Cinq de Bangui (também conhecido como PK5), uma área majoritariamente muçulmana, cercou o complexo da Igreja Católica de Nossa Senhora de Fátima durante a missa e abriu fogo durante mais de uma hora, matando 30 pessoas e ferindo pelo menos 185 fiéis.15 O Padre Albert Tungumale Baba, um sacerdote muito respeitado que tinha trabalhado incansavelmente pela reconciliação de cristãos e muçulmanos na região, estava entre os mortos.16

No dia 25 de maio de 2018 foi publicado um memorando assinado pelo Cardeal Dieudonné Nzapalainga de Bangui, pelo Imã Omar Kobine Layama, líder da comunidade muçulmana, e pelo Pastor Nicolas Guerekoyame-Gbangou, presidente da Associação das Igrejas Evangélicas da República Centro-Africana, declarando que “a crise que tem dominado o país desde 2013 não se deve apenas a fatores internos, mas também é instigada e exacerbada por interferências externas”.17 Os três líderes religiosos declararam “que alguns centro-africanos, gananciosos por despojos fáceis e pelo poder, ‘estão a aliar-se aos mercenários estrangeiros do Chade e do Sudão a fim de desestabilizar a República Centro-Africana’”.18 “Alguns países vizinhos também ‘têm uma agenda escondida para desestabilizar e ocupar o país, através de grupos armados apoiados por eles, a fim de ganharem o controle dos nossos recursos’”.19 Além disso, declararam “que estes grupos estão a utilizar a religião para criar divisões”.20 Finalmente, os três líderes acusaram “alguns contingentes da Missão Multidimensional de Estabilização Integrada das Nações Unidas na República Centro-Africana (MINUSCA), de ‘conspirarem com os grupos armados para cometerem crimes baseados na fé’”.21

Em 29 de junho de 2018, o vigário-geral da diocese de Bambari, Padre Firmin Gbagoua, foi também morto a sangue-frio por homens supostamente associados à UPC, que invadiram a sua residência à noite.22 A Conferência Episcopal da África Central declarou: “Apelamos veementemente ao Governo e à MINUSCA que coordenem os seus esforços para que os responsáveis por estes assassinatos sejam detidos e levados perante a justiça”.23 Além disso, os Bispos declararam: “Instamos toda a comunidade cristã a permanecer calma e em oração para não cair na armadilha daqueles que querem mostrar que cristãos e muçulmanos já não podem viver juntos a fim de dividir a nação centro-africana”.24

Em 31 de agosto de 2018, o Bispo Nestor-Désiré Nongo-Aziagbia de Bossangoa, no noroeste da República Centro-Africana, declarou: “Atualmente, 70 a 80% do país está nas mãos de grupos rebeldes armados, pelo que a maioria do país já não está sob o controle do Estado”.25 O bispo descreveu como a Igreja Católica estava a tentar ajudar: “A Igreja tem estado na vanguarda dos esforços de reconciliação… Damos abrigo aos refugiados e ajudamos aqueles que estão em necessidade, sem ter em conta a sua religião”.26

Em 15 de novembro de 2018, rebeldes da UPC juntamente com uma milícia de jovens muçulmanos atacaram um campo de deslocados internos localizado na sede da diocese católica de Alindao, matando 70 civis. Entre os mortos encontravam-se dois sacerdotes católicos, o Padre Celestin Ngoumbango e o vigário-geral Padre Blaise Mada, que foram mortos a tiro.27

Durante o ataque, os rebeldes entraram na catedral, foram atingidos a tiro dentro do edifício da igreja e profanaram o tabernáculo no que parecia ser um plano bem calculado para humilhar a comunidade católica. Além disso, a casa dos sacerdotes, a sede da Cáritas diocesana e vários outros edifícios da Igreja foram completamente incendiados. O armazém da Cáritas, utilizado para armazenar reservas alimentares de emergência para alimentar os deslocados internos, foi pilhado, deixando as pessoas deslocadas sem qualquer alimento.28

Em 8 de abril de 2019, o Bispo Juan José Aguirre Muñoz de Bangassou, insistindo que a religião não era a única raiz do conflito entre os grupos militantes ex-Seleka e Anti-Balaka, disse que muitas milícias ativas no país estavam a serviço de potências estrangeiras dos Estados do Golfo.29 Recebendo armas, munições, veículos e logística, o bispo declarou que os ataques das milícias “tinham por objetivo expulsar os não muçulmanos das áreas conquistadas [pelos mercenários], e que, em última análise, procuravam a divisão do país”. “O seu objetivo é dividir o país e estão eles próprios a servir-se como predadores impiedosos da sua riqueza mineral”.30

Desde meados de 2009, tem havido uma série intermitente de ataques contra a Igreja na comunicação social aparentemente com motivação política. Em junho de 2019, no final da sua assembleia plenária em Bossangoa, a CECA emitiu uma carta pastoral questionando quem estava a financiar uma milícia emergente conhecida como os “Tubarões” (Requins).31 Na mesma mensagem, os bispos também condenaram “a exploração anárquica dos recursos naturais do país sem qualquer resultado positivo para as populações locais”.32 Em resposta, um certo Julien Bela publicou uma série de mensagens no Facebook com ameaças e insultos contra a Igreja Católica, acusando os bispos de serem “os defensores do diabo” e “extraterrestres”.33

No início de março de 2020, o arcebispo de Bangui, Cardeal Dieudonné Nzapalainga, advertiu contra a má gestão dos fundos públicos e pronunciou-se contra a falta de serviços públicos que deixou a população pobre.34 Esta declaração atraiu uma resposta irada de Didacien Kossimatchi, um alto quadro do partido no poder, o Mouvement Coeurs Unis (MCU). Numa declaração amplamente divulgada na comunicação social, afirmou que a Igreja não tinha o direito de expressar opiniões sobre questões políticas.35 No entanto, qualquer crítica à Igreja Católica por parte do MCU parou no segundo semestre de 2020.

Em 6 de setembro de 2020, a Conferência Episcopal publicou uma longa carta pastoral intitulada “Fais sortir mon people” (Liberta o meu povo) na qual os bispos apelaram a eleições justas, transparentes e pacíficas (marcadas para o final de 2020). Ao mesmo tempo, criticaram os grupos armados por não honrarem os seus compromissos no Acordo de Paz que assinaram em fevereiro de 2019. A carta foi geralmente bem recebida e ninguém a rejeitou publicamente.36

O Padre Aurelio Gazzera, um sacerdote carmelita muito respeitado, foi vítima de assédio e ameaças devido ao seu envolvimento de longa data em questões ambientais. Originário de Itália, veio para a RCA em 1995 e trabalhou em Bozoum (diocese de Bouar) nos últimos 15 anos. Durante os primeiros meses de 2019, o clérigo denunciou em muitos fóruns, incluindo na comunicação social, os pesados danos ambientais causados à região onde se situa a sua paróquia pela extração incontrolada de ouro por uma empresa chinesa desde dezembro de 2018.37 O Padre Gazzera documentou as consequências das atividades mineiras para a população local, tais como a perda de água potável e de terras agrícolas e os graves riscos para a saúde humana.

Embora o ministro de estado das Minas, Energia e Recursos Hídricos da República Centro-Africana tenha suspendido provisoriamente as atividades da empresa chinesa em Bozoum em 25 de março de 2019, a ordem não foi respeitada e a extração de ouro continuou. Num incidente muito discutido, o Padre Gazzera foi preso e a sua câmera fotográfica e celular foram apreendidos pelas forças de segurança em 27 de abril por ter tirado fotografias perto do rio Ouham.38 Quando o veículo da polícia com o sacerdote chegou a Bozoum, uma multidão reuniu-se e exigiu a sua libertação. Sob pressão, os agentes soltaram-no. Depois deste episódio, o primeiro-ministro falou na Assembleia Nacional, acusando o Padre Gazzera de ser um traficante de ouro.39

Em 8 de maio de 2019, o Cardeal Dieudonné Nzapalainga, o Bispo Mirosław Gucwa de Bouar e o Padre Gazzera encontraram-se com o Primeiro-Ministro Firmin Ngrebada, bem como com o ministro de estado das Minas, Energia e Recursos Hídricos, e com o ministro da Água, Florestas, Caça, Pesca e Ambiente.40 Posteriormente, as ameaças e ataques contra o Padre Gazzera cessaram. A sua defesa atraiu o interesse dos deputados do país, que nomearam uma comissão de inquérito para lidar com a questão.

Durante confrontos armados entre grupos rivais em Ndele em 3 de março de 2020, o bispo católico de Kaga-Bandoro, Thadeus Kuzy, foi assediado e roubado por homens armados de uma das facções do ex-Seleka. O Bispo Kuzy tinha parado em Ndele nesse dia por causa de um problema com o carro. Conforme o próprio relata, ele e alguns dos seus sacerdotes foram ameaçados por homens que empunhavam armas e facas antes de serem resgatados em 8 de março por soldados paquistaneses das forças da MINUSCA41 de Ndele e trazidos para Bambari.42

Enquanto as tensões e os confrontos armados continuaram durante todo os meses de março e abril de 2020, os cristãos em Ndele, tanto católicos como protestantes, queixaram-se de que a Frente Popular para o Renascimento da República Centro-Africana (FPRC), 43um grupo rebelde do Seleka dominado pela etnia Rounga, os assediou e ameaçou como não muçulmanos por estarem do lado dos seus inimigos, o povo Gula. Segundo testemunhas, homens armados não identificados atearam fogo a duas igrejas que pertenciam à Igreja Apostólica (Église Apostolique) nos bairros Sara e Gozamar II de Ndele, por volta das 4 da manhã do dia 1º de abril de 2020.44

Membros da comunidade muçulmana também relataram ataques de milícias Anti-Balaka ou de autodefesa, em diferentes partes do país. No entanto, em muitos casos, as vítimas eram pastores de etnia fulani, atacados talvez mais por causa das suas atividades de criação de gado do que da sua filiação religiosa.

Os muçulmanos continuaram a denunciar casos de discriminação rotineira, particularmente quando solicitavam serviços governamentais, como por exemplo certificados de nacionalidade, que são necessários para solicitar um passaporte. Houve também queixas de comportamento discriminatório contra muçulmanos nos postos de controle da polícia e da gendarmaria, sendo mais provável que indivíduos com nomes islâmicos sejam assediados ou que lhes fosse pedido o pagamento de subornos do que pessoas com nomes cristãos.

Numa nota mais positiva, o número de funcionários muçulmanos no Governo, incluindo ministros e membros dos gabinetes do presidente e do primeiro-ministro, aumentou progressivamente, particularmente após a assinatura do acordo de paz em fevereiro de 2016.

Em 9 de julho de 2018, a chamada Liga de Defesa da Igreja (Ligue de Defense de l’Église) emitiu um comunicado de imprensa assinado por Nzapayeke Francois, comprometendo-se “a vingar os assassinatos de muitos dignitários da Igreja e homens de Deus mortos no desempenho das suas funções”.45 A declaração também ameaçou os muçulmanos de que teriam “de praticar a sua fé num estado de dúvida e medo permanente como acontece com os cristãos”.46 A Conferência Episcopal reagiu com uma declaração em 10 de julho de 2018, assinada pelo Cardeal Nzapalainga, na qual os bispos condenaram categoricamente a mensagem da Liga.47 Na mesma comunicação, os bispos lembraram aos fiéis a importância “de estarem vigilantes para que não cedam ao ódio e às manipulações confessionais destinadas a desestabilizar o país, recordando que a crise na República Centro-Africana não é confessional, mas sim política”.48

Durante o período em análise, vários milhares de muçulmanos deslocados desde 2014 puderam regressar a casa, particularmente em cidades das regiões sul e oeste do país. Em Bossangoa, os muçulmanos puderam visitar as suas antigas propriedades, muitas delas destruídas, e fazer algum comércio, mas ainda não conseguiram voltar a instalar-se ou reconstruir as suas mesquitas.

Houve algumas melhorias em Bangui no início de 2020, depois de quase todas as mesquitas fora da área de Kilometre Cinq terem sido destruídas no início de 2014. A maior destas mesquitas, em Lakouanga, foi reconstruída e atrai regularmente muitos fiéis. Noutros locais onde as mesquitas tinham sido destruídas após 2014, a população cristã ainda está relutante em permitir a reconstrução dos locais de culto islâmicos.49

Em dezembro de 2020, grupos armados reapareceram à medida que se aproximavam as eleições gerais. Montaram bloqueios de estradas e entraram nas aldeias para roubar comida, aterrorizando a população. No entanto, não houve vítimas mortais a lamentar e as tensões diminuíram no final de fevereiro de 2021 com a súbita partida dos homens armados das aldeias.50 Uma “Coligação de Patriotas para a Mudança” foi anunciada em 21 de fevereiro de 2021 para desafiar a vitória eleitoral do Presidente Touadera, declarando “guerra” ao Governo. Continuava ativa na altura em que escrevemos.51

Após o surto mundial da pandemia da COVID-19, detectado na República Centro-Africana em 13 de março de 2020, o Governo pôs rapidamente em prática medidas de controle com a plena cooperação da Igreja. Escolas e locais de culto foram fechados durante 30 dias, mercados e supermercados foram parcialmente fechados e foi imposto um toque de recolher obrigatório em âmbito nacional das 8 da noite às 5 da manhã. As autoridades e os líderes católicos trabalharam em conjunto para controlar a pandemia, com a Igreja Católica a comunicar rapidamente as mensagens da Conferência Episcopal e do Cardeal Dieudonné Nzapalainga.52

As restrições foram atenuadas em junho, mas as máscaras continuaram a ser obrigatórias. No entanto, poucos seguiram esta exigência. A Igreja Católica reabriu os seus locais de culto impondo medidas de segurança como o distanciamento social, o uso de máscaras e a lavagem das mãos.53

A resposta na comunidade islâmica foi mais variada.54 As fases iniciais da pandemia coincidiram com o Ramadã (24 de abril a 23 de maio). Alguns imãs mantiveram as mesquitas abertas na área do Kilometre Cinq apesar dos riscos de contágio e dos pedidos do ministro da Saúde para que fossem fechadas. Noutro lugar, em Lakouanga e Ngaragba, os imãs locais decidiram respeitar o fechamento e fizeram orações associadas ao mês santo em casa. Algumas mesquitas foram forçadas a ceder a ameaças veladas de elementos armados de antigos grupos de autodefesa.

PERSPECTIVAS PARA A LIBERDADE RELIGIOSA

Durante o período em análise, grupos armados atacaram novamente as igrejas cristãs e também começaram a atacar líderes religiosos cristãos, particularmente membros do clero católico. Os muçulmanos também enfrentaram problemas. Embora tenha havido alguns progressos na capital e nas partes ocidentais e centrais do país, os muçulmanos ainda estão longe de gozar de plenos direitos à liberdade religiosa. Globalmente, as perspectivas do direito à liberdade religiosa continuam incertas. É provável que continuem enfrentando desafios consideráveis devido aos ataques das milícias extremistas e à instabilidade política.

NOTAS

1 Central African Republic 2016, Constitute Project, https://www.constituteproject.org/constitution/Central_African_Republic_2016?lang=en (acesso em 1 de março de 2021).
2 “Charte constitutionnelle du 18 juillet 2013”, República Centro-Africana, Digithèque MJP, https://mjp.univ-perp.fr/constit/cf2013.htm (acesso em 2 de março de 2021).
3 “Central African Republic country profile”, BBC News, 1 de agosto de 2018, https://www.bbc.com/news/world-africa-13150040 (acesso em 2 de março de 2021).
4 Entrevistas a vários membros de topo da Plataforma Inter-religiosa com quem o autor se reuniu várias vezes em Bangui entre dezembro de 2017 e fevereiro de 2018.
5 “Accordo Quadro tra la Santa Sede e la Repubblica Centroafricana su materie di interesse comune”, Tratados Bilaterais da Santa Sé, https://www.iuscangreg.it/accordi_santa_sede.php#SCentralAfricanRepublic (acesso em 2 de março de 2021).
6 “Communiqué: Entry into force of the Framework Agreement between the Holy See and the Central African Republic on matters of mutual interest”, Gabinete de Imprensa da Santa Sé, 5 de março de 2019, https://press.vatican.va/content/salastampa/en/bollettino/pubblico/2019/03/05/190305f.html (acesso em 2 de março de 2021).
7 Entrevista do autor a dois bispos católicos em fevereiro de 2020.
8 Gabinete para a Liberdade Religiosa Internacional, “Central African Republic”, 2019 Report on International Religious Freedom, Departamento de Estado Norte-Americano, https://www.state.gov/reports/2019-report-on-international-religious-freedom/central-african-republic/ (acesso em 2 de março de 2021).
9 Conversa, a 6 de janeiro de 2018, com um sacerdote católico estrangeiro que trabalha na República Centro-Africana desde 2011.
10 Observação pessoal do autor deste relatório, que tem vivido regularmente na República Centro-Africana desde meados de 2012.
11 “Political Agreement for Peace and Reconciliation in the Central African Republic, February 2019 (S/2019/145)”, reliefweb, 8 de março de 2019, https://reliefweb.int/report/central-african-republic/political-agreement-peace-and-reconciliation-central-african (acesso em 3 de março de 2021).
12 Elizabeth Murray e Rachel Sullivan, “Central African Republic struggles to implement peace deal”, United States Institute of Peace, 17 de outubro de 2019, https://www.usip.org/publications/2019/10/central-african-republic-struggles-implement-peace-deal (acesso em 3 de março de 2021).
13 “Central African religious leaders denounce foreign interference”, Luci Sarr, La Croix International; https://international.la-croix.com/news/politics/central-african-religious-leaders-denounce-foreign-interference/7701
14 “En Centrafrique, un prêtre tué lors de l’attaque de sa paroisse par un groupe armé”, La Croix, 26 de março de 2018, https://africa.la-croix.com/centrafrique-pretre-tue-lors-de-lattaque-de-paroisse-groupe-arme/ (acesso em 3 de março de 2021).
15 “Lettre datée du 23 juillet 2018, adressée au Président du Conseil de sécurité par le Groupe d’experts sur la République centrafricaine reconduit dans son mandat par la résolution 2399 (2018) du Conseil de sécurité”, Conselho de Segurança das Nações Unidas, 23 de julho de 2018, https://undocs.org/pdf?symbol=fr/S/2018/729 (acesso em 3 de março de 2021).
16 “Témoignage d’un missionnaire sur la figure du Père Tungumale Baba, ‘pasteur estimé pour son action en faveur de la réconciliation entre chrétiens et musulmans’”, Agenzia Fides, 8 de maio de 2018, http://www.fides.org/fr/news/64148-AFRIQUE_REPUBLIQUE_CENTRAFRICAINE_Temoignage_d_un_missionnaire_sur_la_figure_du_Pere_Tungumale_Baba_pasteur_estime_pour_son_action_en_faveur_de_la_reconciliation_entre_chretiens_et_musulmans ((acesso em 3 de março de 2021).
17 “Central African religious leaders denounce foreign interference”, op. cit.
18 Ibid.
19 Ibid.
20 Ibid.
21 Ibid.
22 “Central African Republic in mourning again as another priest killed”, World Watch Monitor, 4 de julho de 2018, https://www.worldwatchmonitor.org/2018/07/central-african-republic-in-mourning-again-as-another-priest-killed/ (acesso em 3 de março de 2021).
23 “CAR: Bishops call for peace as another priest shot dead” John Newton, Ajuda à Igreja que Sofre, 4 de julho de 2018, https://acnuk.org/news/car-bishops-call-for-peace-as-another-priest-shot-dead/
24 Ibid
25 “Despite the crisis, you have stayed with us – bishop tell Church charity”, John Newton, Ajuda à Igreja que Sofre, 31 de agosto de 2018, https://acnuk.org/news/car-despite-the-crisis-you-have-stayed-with-us-bishop-tells-church-charity/
26 Ibid.
27 “En Centrafrique, réaction de l’Église après le massacre à l’évêché d’Alindao”, La Croix, 19 de novembro de 2018, https://africa.la-croix.com/en-centrafrique-reaction-de-leglise-apres-le-massacre-a-leveche-dalindao/ (acesso em 3 de março de 2021).
28 O autor visitou Alindao entre 4 e 12 de dezembro, um mês após o massacre, no local católico do IDP.
29 “Masterplan of misery for country”, Citra Abbott e John Pontifex, Ajuda à Igreja que Sofre, 8 de abril de 2019, https://acnuk.org/news/central-african-republic-masterplan-of-misery-for-country/
30 Ibid.
31 “Les évêques de Centrafrique effectuent un état des lieux de la justice et de la paix dans le pays”, La Croix, 28 de agosto de 2019, https://www.la-croix.com/Urbi-et-Orbi/Documentation-catholique/Eglise-dans-le-Monde/eveques-Centrafrique-effectuent-etat-lieux-justice-paix-pays-2019-08-28-1201043663 (acesso em 3 de março de 2021).
32 Ibid.
33 “La Conférence épiscopale des évêques à Bossangoa perd son latin et s’apparente à des extraterrestres en escale”, 27 de junho de 2019, https://m.facebook.com/permalink.php?story_fbid=2304975222872637&id=1845032732200224 (acesso em 1 de março de 2021).
34 Édoaurd Yamale, “Centrafrique : Touadéra fait bâillonner le Cardinal Dieudonné Nzapalaïnga”, Le Tsunami.Net, 3 de março de 2020, https://letsunami.net/centrafrique-touadera-fait-baillonner-le-cardinal-dieudonne-nzapalainga/ (acesso em 3 de março de 2021).
35 “Centrafrique : La puante COD-2020 ce coronavirus centrafricain éclaboussé par ‘Talitha Koum’ de Blaise D. Kossimatchi”, Le Potentiel centrafricain, 3 de março de 2020, https://lepotentielcentrafricain.com/centrafrique-la-puante-cod-2020-ce-coronavirus-centrafricain-eclabousse-par-talitha-koum-de-blaise-d-kossimatchi/ (acesso em 3 de março de 2021).
36 “Les évêques centrafricains s’inquiètent de l’omniprésence des groupes armés”, La Croix, 7 de setembro de 2020, https://africa.la-croix.com/les-eveques-centrafricains-sinquietent-de-lomnipresence-des-groupes-armes/ (acesso em 1 de março de 2021).
37 Cyril Bensimon, “Le combat du prêtre Aurelio Gazzera contre les mines d’or chinoises en Centrafrique”, Le Monde, 25 de setembro de 2019, https://www.lemonde.fr/afrique/article/2019/09/25/en-centrafrique-le-combat-d-un-pretre-italien-contre-les-mines-d-or-chinoises_6013048_3212.html (acesso em 3 de março de 2021).
38 Ibid.
39 “Centrafrique, le désastre écologique des mines d’or chinoises”, Mondeafrique, 5 de outubro de 2019, https://mondafrique.com/centrafrique-le-desastre-ecologique-des-mines-dor-chinoises/ (acesso em 3 de março de 2021).
40 Édouard Yamale, “Bozoum : compte – rendu « supranational » de la rencontre Ngrébada, Cardinal Nzapalaïnga, évêque de Bouar Gucwa et Père Gazzera, selon la presse de la primature”, Le Tsunami.Net, 8 de maio de 2019, https://letsunami.net/bozoum-compte-rendu-supranational-de-la-rencontre-ngrebada-cardinal-nzapainga-eveque-de-bouar-gucwa-et-pere-gazzera-selon-la-presse-de-la-primature/ (acesso em 3 de março de 2021).
41 Missão Multidimensional de Estabilização Integrada das Nações Unidas na República Centro-Africana.
42 Comunicação escrita de D. Kuzi aos seus colegas bispos num e-mail datado de 10 de maio de 2020.
43 Front Populaire pour la Renaissance de la Centrafrique.
44 Comunicação escrita confidencial de uma fonte humanitária a 4 de abril de 2020.
45 “Centrafrique : la ligue de defense de l’église en centrafrique communique”, Bangui.com, 10 de julho de 2018, http://news.abangui.com/h/63677.html (acesso em 3 de março de 2021).
46 Ibid.
47 “Réactions des Évêques contre toute provocation de la part de la prétendue Ligue de Défense de l’Église”, Agenzia Fides, 12 de julho de 2018, http://www.fides.org/fr/news/64513-AFRIQUE_REPUBLIQUE_CENTRAFRICAINE_Reactions_des_Eveques_contre_toute_provocation_de_la_part_de_la_pretendue_Ligue_de_Defense_de_l_Eglise (acesso em 3 de março de 2021).
48 Ibid.
49 Informação disponibilizada ao autor por vários imãs em Bangui em dezembro de 2019.
50 A. Rolland, “Old fears and pre-election violence flare in Central African Republic”, Reuters, 23 de dezembro de 2020, https://www.reuters.com/article/centralafrica-election/old-fears-and-pre-election-violence-flare-in-central-african-republic-idINKBN28X0Q7 (acesso em 5 de março de 2021).
51 “European countries must Support the actions of CAR’s legitimately elected president Touadera”, The Olive Press, 3 de março de 2021. https://www.theolivepress.es/spain-news/2021/03/03/european-countries-must-support-the-actions-of-cars-legitimately-elected-president-touadera/ (acesso em 5 de março de 2021).
52 “Science and faith united in the fight against Covid-19″, recalls Cardinal Nzapalainga”, Agenzia Fides, 2 de outubro de 2020, http://www.fides.org/en/news/68748-AFRICA_CENTRAL_AFRICA_Science_and_faith_united_in_the_fight_against_Covid_19_recalls_Cardinal_Nzapalainga
53 O autor viu pessoalmente como é que estas medidas foram geralmente seguidas tanto pelo clero como pelos fiéis durante o mês de julho de 2020, em quatro igrejas católicas diferentes em Bangui.
54 Informação sobre a comunidade islâmica fornecida pessoalmente por várias fontes confidenciais em abril de 2020.

LISTA DE
PAÍSES

Clique em qualquer país do mapa
para ver seu relatório ou utilize o menu acima.

Religious Freedom Report [MAP] ( 2021 ) Placeholder
Religious Freedom Report [MAP] ( 2021 )
Perseguição religiosa Discriminação religiosa Sem registros
Perseguição religiosa
Discriminação religiosa
Sem registros

Calem-se as armas!

Quanto rezamos ao longo destes anos pela paz no Iraque! (…) E Deus escuta; escuta sempre! Cabe a nós ouvi-Lo, andar nos seus caminhos. Calem-se as armas! Limite-se a sua difusão, aqui e em toda a parte! (…) Chega de violências, extremismos, facções, intolerâncias!

Papa Francisco

Palácio Presidencial em Bagdá. Sexta-feira, 5 de março de 2021. Discurso do Santo Padre às autoridades, à sociedade civil e ao corpo diplomático do Iraque.

SOBRE A ACN

ACN (Ajuda à Igreja que Sofre no Brasil) é uma organização católica fundada em 1947 pelo Padre Werenfried van Straaten para ajudar os refugiados de guerra. Desde 2011 reconhecida como fundação pontifícia, a ACN dedica-se a ajudar os cristãos no mundo inteiro – através da informação, oração e ação – especialmente onde estes são perseguidos ou sofrem necessidades materiais. A ACN auxilia todos os anos uma média de 5.000 projetos em 130 países graças às doações de benfeitores, dado que a fundação não recebe financiamento público.

Conheça a ACN