Gianna

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Gianna

A Verdadeira Fisionomia dos Santos

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Meu amado Pietro,
Como agradecer a magnífica aliança? Querido Pietro, em sinal de reconhecimento, eu lhe dou o meu coração e sempre amarei você como o amo agora.
Acredito que na véspera de nosso noivado há de sentir-se feliz, sabendo que é para mim a pessoa mais querida, a quem sempre dirijo meus pensamentos, afetos e desejos e só espero o momento de ser sua para sempre.
Queridíssimo Pietro, você sabe que é meu desejo vê-lo feliz e saber que está feliz; diga-me como deverei ser e o que deverei fazer para fazê-lo feliz…
Com muito amor, desejo-lhe uma Santa Páscoa,
Um abraço,
Sua Gianna

Esta seria…

apenas mais uma linda carta de amor, não fosse um detalhe: é uma carta de amor escrita por uma santa.

Gianna Beretta Molla nasceu numa família profundamente católica da região de Milão. Seu pai era administrador de uma indústria. Sua mãe, professora formada, mas não trabalhava para cuidar da numerosa família. Gianna foi a 12a filha do casal, mas apenas sete deles sobreviveram à primeira infância. Ela nasceu em Magenta, na Itália, a quatro de outubro de 1922. Como seus pais eram terceiros franciscanos, juntaram ao nome de Gianna o de Francesca, em homenagem a São Francisco. Em 1925, a família transferiu-se para Bérgamo, no norte da Itália. Ali, Gianna foi preparada para a primeira comunhão. Como ela era precoce, além de se mostrar religiosa desde muito pequena, o padre da paróquia autorizou a menina a fazer a primeira comunhão aos cinco anos e meio de idade. A partir desta data, ia com a mãe todos os dias à Missa. Foi o Papa São Pio X que recomendou a primeira comunhão feita no início da idade da razão. Antes dele, era feita muito mais tarde.

A família vivia e ensinava as virtudes cristãs aos filhos. Todo domingo, o pai ia com os filhos homens visitar asilos de idosos abandonados ou muito pobres, para levar algum consolo e ajuda material. A mãe fazia economias para enviar doações para missionários em países longínquos. A atmosfera do lar da família era de calma e de paz. A mãe nunca gritava com os filhos, mas sabia adverti-los de algo errado que eles faziam. Ela não deixava passar nada errado e se a falta havia sido grave, deixava-os de castigo. Mas tudo feito com muita calma e sabedoria. Ela fazia com que todos ajudassem nos afazeres da casa e que os mais velhos ajudassem a cuidar dos mais novos – inclusive nos estudos e lições de casa.

Gianna cursou o primário numa escola das irmãs canossianas, e o curso secundário foi numa escola pública. São dessa época os primeiros escritos de Gianna. Eram cartas escritas aos pais e irmãos. Ela estava encontrando dificuldades nos estudos, por isto, teve de ficar em Bérgamo nas férias, enquanto a família foi descansar junto a um lindo lago no norte da Itália. Em suas cartas, Gianna manifestava um grande amor pela família e um cansaço com os estudos que ela achava difíceis.

Nessa ocasião, a irmã mais velha e mais próxima a Gianna, Amália, ficou gravemente doente e pouco tempo depois morreu. Foi um duro golpe para toda a família e especialmente para Gianna, que havia se apegado muito a esta irmã, que muito ajudou na sua formação cristã. Logo depois, o pai também ficou doente e impossibilitado de continuar trabalhando. Por recomendação médica, ele pediu sua aposentadoria por doença e se mudou com toda a família para uma cidadezinha à beira mar, Quinto, bem próxima do grande porto italiano de Gênova. Nesta pequena cidade, a família continuou com os hábitos anteriores: Missa diária, participação bastante ativa na vida paroquial e vida familiar intensa.

Gianna (a primeira à esquerda), sua mãe, Virgínia, Amália e seu pai. Atrás de Gianna, Francesco, Ferdinando, Zita, Enrico (padre Alberto) e Giuseppe.

Ao completar 15 anos, os pais enviaram Gianna para fazer um retiro espiritual com o pregador jesuíta Pe. Michele Avedano. Este retiro a tocou profundamente. Ela começou ali a escrever seus pensamentos e o primeiro caderno está cheio de alusões a este retiro. Ela anotou o que mais a impressionou e que ela transformou em orientação para toda sua vida: horror ao pecado, a necessidade da oração, a importância da graça de Deus e viver uma vida de imitação de Cristo. E sobretudo, ela começou a entender que o apostolado para fazer bem às pessoas é a expressão maior da caridade. Nessa ocasião, ela compôs uma fórmula de consagração a Maria: “Ó Maria, eu me entrego em tuas mãos maternas e nelas me abandono completamente, com a certeza de obter o que te peço. Tenho confiança em ti, porque tu és a minha doce Mãe e minha confiança é total, porque tu és a Mãe de Jesus. Com esta confiança eu me coloco em tuas mãos, segura de ser ouvida; e com esta confiança no coração te saúdo, minha Mãe e minha confiança, eu me consagro inteiramente a ti, rogando-te de te lembrares que eu sou tua, que te pertenço; guardai-me e defendei-me, ó doce Maria, e em todo instante de minha vida apresentai-me ao teu filho, Jesus.”Depois deste retiro, Gianna levou muito mais a sério e com maior responsabilidade a sua vida cristã. Ela havia deixado de ser criança.

Seu rendimento escolar também melhorou bastante. Passou de ano com notas muito boas. Gianna se inscreveu na Ação Católica e frequentava com prazer as reuniões. Esta associação foi bastante difundida nas paróquias italianas e foi muito importante para preservar a juventude católica das influências nefastas do fascismo que tomava conta da Itália. O lema da Ação Católica: “Ação, Oração e Sacrifício”, correspondia perfeitamente às aspirações da jovem Gianna. Tudo ia bem, menos a sua saúde. Ela se sentia fraca, cansada. Teve de parar os estudos e ficou em casa ajudando a mãe e estudando piano. Com o início da II Guerra Mundial, a família teve de se mudar às pressas de volta para Bérgamo, pois Gênova, com seu porto estratégico, estava sendo fortemente bombardeada. Gianna ficou sozinha em Gênova, apesar da guerra, para terminar os estudos que fazia com as irmãs dorotéias. Pouco depois, morreu sua mãe. Foi uma dor imensa para Gianna, que a amava profundamente. O pai, que já vivia adoentado, piorou depois da morte de sua amada esposa. Apenas quatro meses depois, ele também veio a falecer.

A maioria de seus irmãos, a esta altura, já estavam formados. Pouco depois, em junho de 1942, em plena guerra, Gianna termina os estudos secundários e entra para a Faculdade de Medicina da Universidade de Milão, uma das melhores da Itália. Mas a guerra se agravava, a Itália foi ocupada pelo exército nazista alemão. Um dos irmãos de Gianna, Francesco foi preso pelos nazistas, mas foi solto três semanas depois. Os dois irmãos médicos se recusaram a servir ao exército nazista e por isso se refugiaram na Suíça.

Durante os estudos universitários, Gianna continuou sua formação cristã na Ação Católica. Ela se dava muito bem com uma freira que era orientadora do seu grupo, a irmã Mariana. Numa carta a esta irmã, ela dizia: “o passado nós entregamos à misericórdia de Deus, o futuro, à Providência Divina. O nosso dever é viver o momento presente santamente… estou firmemente decidida a viver em cada instante a vontade de Deus e vivê-la com alegria. A senhora gosta desta minha decisão?”

Depois que a guerra terminou, Gianna continuou seus estudos. Nesse período, uma grande alegria foi a ordenação sacerdotal de um de seus irmãos, Giuseppe. Devido às dificuldades de transporte naquele período de pobreza geral do pós-guerra, Gianna conseguiu um caminhão para levá-la, junto com suas colegas e amigas da Ação Católica, até Bérgamo, onde seu irmão seria ordenado. Dois anos depois, nova alegria: um dos irmãos médicos, Enrico, também é ordenado padre (mais conhecido como padre Alberto), e decide ser missionário no Brasil, onde passou quase toda sua vida. Em 1949, Gianna se forma em medicina, tinha nessa época, 27 anos. Ela fez especialização em pediatria. Nessa mesma época, ela havia sido eleita presidente da Ação Católica de sua região.

Gianna junto com suas colegas e amigas da Ação Católica.

Gianna cuidava com muita responsabilidade das moças sob sua direção na Ação Católica. Ela as educava para a prática das virtudes, sobretudo a da pureza, que na idade adolescente é mais difícil. Ela indicava o caminho para suas dirigidas: “Como conservar a pureza? Cercando o nosso corpo com o sacrifício. A pureza é uma virtude resultante do conjunto das demais virtudes… a pureza se transforma em beleza e, além disso, ela nos dá força e liberdade. É livre aquela que é capaz de resistir, de lutar”. Em outro texto, ela escreveu: “Renuncia a ti mesmo, disse Jesus. À palavra do mundo ‘prazer’, nós respondemos com ‘dever’”. Temos de saber formar em nós mesmas uma verdadeira personalidade, um verdadeiro caráter; temos de saber mandar em nós mesmas”.

A vida de Gianna na Universidade e depois de formada era um apostolado contínuo. Das suas meditações, das orações, nasce sua ação apostólica, feita com um grande desejo de levar mais almas para Cristo. A sua ação era intensa. Ela dizia: “cada cristão não pode esconder ou conservar só para si esta novidade e riqueza recebidas da bondade divina, mas deve comunicá-la a todos os homens”.

Depois de formada, Gianna, agora doutora, estabeleceu seu consultório médico na cidadezinha de Mesero, ao lado de Magenta, onde morava. Logo, ela conquistou a simpatia e admiração dos habitantes da região. Todos admiravam o grande amor com que ela tratava as crianças e os idosos. A jovem doutora aconselhava as gestantes a terem seus filhos em casa, internando-se em maternidades e clínicas só em casos complicados ou de risco. O que mais impressionava a todos era sua profunda humanidade e a grande atenção que dava a cada pessoa. Se um doente não tinha cura, ela se esforçava para prepará-lo para a morte da melhor forma possível. Se atendia alguém que havia ficado doente devido à vida desregrada, ela argumentava fortemente para a pessoa mudar de vida. Aos doentes muito pobres, ela não só deixava de cobrar o tratamento, como algumas vezes, ofertava dinheiro do próprio bolso.

O seu êxito se deveu ao fato que considerava sua profissão de médica como um apostolado: “todo mundo trabalha de um modo ou de outro a serviço do ser humano. Nós médicos, trabalhamos diretamente no homem. O objeto da nossa ciência é o próprio homem, o qual, diante de nós diz ‘ajude-me’ e espera de nós que o façamos voltar para a plenitude de sua existência”.

Ao completar trinta anos, Gianna começou a pensar em ir para o Brasil, em ser missionária-médica onde já estavam seus irmãos Enrico e Francesco. Eles construíram um pequeno hospital numa região extremamente pobre do Maranhão. Os irmãos queriam que ela fosse. Desde pequena ela já se sentia chamada pelo ideal missionário. A atração era grande e ela escreveu para Enrico, já fazendo planos para partir.

Porém, Deus tinha outros planos para ela. Gianna foi formalmente desaconselhada a ir para o interior do Maranhão devido à sua saúde frágil. Ela não suportaria o clima tropical quente e úmido do norte do Brasil. Ela ficou perturbada com essa situação: o que Deus queria dela, então? Pouco depois ela foi à Lourdes acompanhar um trem de doentes e lá pediu luzes para entender o que Deus queria dela. Se não era para ir ao Brasil, será que era para se casar? Seu confessor insistiu que sua vocação era o matrimônio e ela, depois de muito rezar, se convenceu que este era o caminho que o Senhor desejava para sua vida.

No dia 8 de dezembro de 1954 ela se encontra pela primeira vez com o homem que viria a ser seu esposo, o engenheiro Pietro Molla. Foi na festa da primeira missa de um recém-ordenado padre capuchinho, na igreja da cidadezinha onde Gianna tinha seu consultório médico. Já de imediato, Gianna sentiu que havia encontrado a pessoa certa. Em seu diário ela escreveu sobre esse encontro: “Sinto a tranquilidade serena que me dá a certeza de haver tido ontem o encontro certo. A Virgem Imaculada me deu sua bênção”. Alguns dias depois foram a um concerto no famoso teatro de Milão, o Scala. Outros encontros se sucederam e tudo correu muito bem. Pietro também escreveu em seu diário: “Quanto mais eu conheço Gianna, mais eu estou convencido que Deus não poderia me haver feito conhecer uma pessoa melhor que ela”. Em abril do ano seguinte se tornam oficialmente noivos.

Gianna e Pietro, na Praça São Pedro, Roma

Os dois se amavam muito, nas cartas que trocavam, procuravam ajudar um ao outro com bons sentimentos e muito afeto. Numa carta, Gianna pergunta: “Pietro, será que eu serei capaz de ser aquela esposa e mãe que você tanto deseja? Eu quero ser porque você merece e porque eu te quero muito”.

No dia 24 de setembro de 1955, eles se casaram. O celebrante foi o irmão de Gianna, padre Giuseppe, que na homilia lhe disse: “Não vou lhe falar de santos, mas de nossa mãe. Você se lembra como ela estava sempre sorrindo, sempre dócil, paciente, ativa e sempre unida a Deus tanto nos momentos de alegria, como nos de sofrimento”. Gianna estava muito feliz e assim partiu para a lua de mel, que foi em Roma e Castel Gandolfo. Ela escreveu a seu irmão missionário no Brasil que foram dias maravilhosos, que “não podiam ser mais belos, mais serenos e mais alegres”.

Ela mudou-se para a casa de Pietro, que ficava numa cidade próxima, Ponte Nuovo, onde ele era diretor de uma fábrica. Seu trabalho o consumia muito e várias vezes tinha de viajar. Gianna nunca reclamou desse fato. Quando a viagem era um pouco mais longa, Pietro levava sua esposa consigo. Mas ela decidiu continuar trabalhando em seu consultório, pois amava as crianças.

Um ano depois do casamento, nasce o primeiro filho, Pierluigi. Gianna não cabia em si de alegria e felicidade. O batismo foi feito numa pequena pia de prata que pertencia à sua família. No mesmo ato do batismo, os pais consagram o bebê a Nossa Senhora do Bom Conselho.

No ano seguinte, ela ficou grávida de novo. Essa gestação foi bem mais difícil que a primeira. Com freqüência ela se sentia mal, com ânsias de vômito e náuseas. Os remédios não ajudavam. Ela oferecia todos os sacrifícios a Deus pedindo ajuda para que corresse tudo bem. Finalmente, nasce o bebê em dezembro de 1957. Era uma menina, e foi batizada com o nome de Maria Zita. Tendo de cuidar de duas crianças pequenas, Gianna diminui bastante seu trabalho no consultório. Sua alegria era ficar com as crianças.

Em 1958 engravidou pela terceira vez. Novamente foi uma gestação difícil. Gianna tinha febre com freqüência, bem como náuseas e dores diversas. No oitavo mês teve de ser internada às pressas, pois passava mal e temia perder o bebê. Mas felizmente ela resistiu e teve uma filha sadia, Laura, em julho de 1959. No batismo, os pais também a consagraram a Nossa Senhora. As crianças eram muito bonitas, quando saia na rua com elas, as pessoas comentavam.

Já desde muito pequenas, Gianna as levava à Missa. E logo que aprenderam a falar, ensinou-as a rezar. Ao invés de castigá-las por alguma arte, ela lhes ensinava a fazer um exame de consciência e a pedir perdão a Jesus. Nunca gritava com eles, mas sempre corrigia o que faziam de errado, com muita paciência e afeto.

Gianna havia rezado para ter uma outra menina, como de fato aconteceu. Achava importante que houvesse duas meninas, para uma fazer companhia para a outra. Agora ela rezava para ter um menino. Logo ficou grávida pela quarta vez, em 1961. Já no segundo mês de gravidez, notou algo estranho: um fibroma começou a se formar ao lado do seu útero. A cada dia o fibroma crescia e logo começou a ameaçar a vida do bebê ainda por nascer. Como médica, ela compreendia perfeitamente o perigo que tanto ela como seu novo filho corriam. Mas sua confiança em Deus era total. Rezava muito e pedia a seus filhos para rezar também, pois, ela dizia: “Deus ouvirá melhor a oração dos inocentes”.

Em tais casos com mães grávidas, muitos médicos simplesmente fazem a operação para retirar a massa anormal que crescia junto ao útero e aproveitavam a ocasião para fazer um aborto, matando o bebê, para que a recuperação da mãe se desse sem problemas posteriores. Sabendo disso, Gianna quis falar com o cirurgião logo antes da operação, na presença de seu marido e do irmão médico, Ferdinando. Ela disse ao cirurgião que tudo devia ser feito para preservar a vida do bebê. Ela se confessou, comungou e ofereceu sua vida a Deus, se Ele quisesse levá-la, mas pediu muito pela vida da criança. O médico prometeu respeitar seu pedido. A operação correu bem e um grande fibroma foi retirado. O médico fez uma espécie de costura no lugar que separava o útero onde estava o feto e o local da operação. O perigo era de que o feto crescendo, rompesse essa costura, provocando forte hemorragia que poderia custar a vida da mãe. Era um perigo, uma possibilidade, da qual Gianna estava plenamente consciente.

Tudo correu bem, Gianna se recuperou da operação, mas longe dos filhos que haviam sido levados para outra cidade, com parentes. Mas a recuperação foi dolorosa. Porém, ela nunca se queixava e fazia de tudo para não pesar sobre o marido. A gravidez continuou e chegou ao sétimo mês. Era o momento mais perigoso dessa gravidez de alto risco, pois o bebê já estava grande e a costura feita no útero poderia se romper. Sabendo do perigo, Gianna se mantinha muito calma e serena, colocando sua vida e a do novo filho nas mãos de Deus. Ela sempre repetia: “seja feito o que Deus quiser”. Apesar de seu estado, fazia questão de ir à Missa todos os dias e ainda atendia algumas crianças doentes, cujas famílias a chamavam. O marido escreveu sobre aqueles dias de espera: “Com uma força incrível, você continua a tua missão de mãe e de médica, até os últimos dias da gestação”.

Sabendo que o dia do parto se aproximava, ela chamou o marido para lhe dizer em tom firme: “Se deveis decidir entre mim e o filho, nenhuma hesitação: escolhei – e isto o exijo – a criança. Salvai-a”! Nessa época, ela escreveu a uma amiga: “Irei em breve para o hospital, mas não estou certa que voltarei para casa. A minha gestação é difícil: eles deverão salvar ou a mãe, ou o bebê; eu quero que o meu filho viva!”

No dia 20 de abril, sexta-feira santa, Pietro a leva ao hospital de Monza. Ao chegar, Gianna diz à enfermeira: “Aqui estou, vim aqui para morrer. O importante é que tudo corra bem para o bebê, não se importe comigo”. E ao entrar na sala de operação, ela disse ao marido: “Estou pronta para tudo o que Deus quiser”. As enfermeiras e médicos se admiram de vê-la tão tranquila e calma.

Os médicos fazem uma cesariana no dia seguinte, sábado santo. O bebê, uma menina, era grande, pesava quatro quilos e meio. O bebê estava bem. Gianna havia escolhido o nome de Emanuela, mas o marido, Pietro, juntou o nome da mãe: Gianna Emanuela. Logo após o parto as condições da mãe pioraram: tinha febre alta, o pulso estava muito fraco e sentia dores horríveis no ventre. Os médicos tentam de tudo, antibióticos, sonda, anti-inflamatórios. Ela não se queixou uma só vez das dores que sofria, mas não quis receber soníferos, pois queria estar plenamente consciente, junto a seu marido. No dia seguinte conseguiu receber a comunhão, num minúsculo pedacinho de hóstia e ficou felicíssima.

A família se reuniu no hospital. A irmã freira missionária na Índia veio às pressas. Ao lhe dar o crucifixo que portava em seu hábito, para Gianna beijar, ela disse: “Jesus, eu te amo.” E dirigindo-se à sua irmã, comenta: “Se você soubesse quanto conforto eu recebo beijando o crucifixo! Se não fosse Jesus que me consola em certos momentos… do leito de morte a gente julga as coisas de modo bem diferente, durante a vida a gente costuma dar valor a coisas que na verdade não tem nenhum valor”. Ela recebeu o sacramento dos enfermos e rezava o tempo todo. Pietro depois comentou que ela havia entrado numa espécie de diálogo com Deus. A partir daquele momento, nada deste mundo lhe importava, ela se preparava para ir de encontro ao seu Salvador. Mas ela ainda tinha um último pedido a fazer: queria morrer em casa, queria ver seus filhos uma última vez. Os médicos só a deixaram sair no dia seguinte, quando já não havia mais nenhuma esperança de cura. Ela já não podia mais falar. Ao chegar em casa e ouvir a voz das crianças estava feliz, apesar das dores que sofria.

Santa Gianna Beretta Molla, exemplo de Mãe.

Poucas horas depois, às oito da manhã de 28 de abril de 1962, Gianna deixou esta vida, morrendo em paz, dando ao mundo um exemplo tocante de amor de mãe, que chegou a abandonar a própria vida para salvar a da filha. Ela sabia perfeitamente, como médica, o risco que havia corrido, o oferecimento de sua vida foi um ato plenamente consciente. No dia seguinte ao de sua morte, com seu corpo sendo velado por uma multidão na igreja de sua cidade, a filha, Gianna Emanuela, foi batizada e consagrada a Nossa Senhora.

Uma paciente de Gianna escreveu a Pietro: “Os habitantes de Mesero nunca se esquecerão do sorriso que sua esposa tinha para todos, nem da sua simplicidade, da sua imensa bondade para com cada um e em qualquer circunstância. Cada um de nós tem uma lembrança belíssima de haver conhecido não uma médica qualquer, mas uma verdadeira mãe”.

A devoção a Gianna começou logo depois do sepultamento. Sempre vinham mulheres grávidas pedir sua intercessão. O processo de beatificação foi iniciado pelo Papa Paulo VI, a pedido por escrito de todos os bispos da Lombardia, região do norte da Itália onde Gianna viveu. Em 1986, depois de encerrado o processo de beatificação, o Papa João Paulo II proclamou as virtudes heroicas de Gianna.

Muitas graças extraordinárias foram acrescentadas ao processo, sobretudo de mães com gravidez difícil ou de alto risco que recorriam a ela e conseguiam ter um bom parto. O milagre decisivo para a beatificação aconteceu no Brasil. O Papa João Paulo II reconheceu a graça alcançada por Lúcia Cirilo em Grajaú, no Maranhão, exatamente no hospital fundado pelo padre Alberto, irmão de Gianna, e onde a santa quis, em sua juventude, ser missionária. Para a canonização, outro milagre também no Brasil, foi o escolhido pelo Vaticano. Em Franca, São Paulo, Elisabete Arcolino, estava também em sua quarta gestação. No quarto mês, Elisabete perdeu o líquido amniótico, o que significaria a morte do bebê e possivelmente também da mãe, caso o feto não fosse retirado. O bispo Dom Diógenes Matthes, orientou a mãe a pedir intercessão da então beata Gianna. A gravidez foi milagrosamente levada até o fim, e a criança, Gianna Maria Arcolino, nome escolhido em homenagem à santa, nasceu e se mantém saudável.

Gianna foi beatificada em 1994 pelo Papa João Paulo II, que a apresentou como modelo para as mulheres grávidas e para o movimento contra o aborto, em defesa da vida. A 16 de maio de 2004, foi canonizada. O marido de Gianna, bem como os filhos do casal, incluindo a pequena Gianna Emanuela, estavam presentes na Celebração. O Papa João Paulo II assim se expressou sobre Santa Gianna: “Seguindo o exemplo de Cristo, que ‘tinha amado os seus… amou-os até ao fim’ (Jo 13, 1), esta santa mãe de família manteve-se heroicamente fiel ao compromisso assumido no dia do matrimônio. O sacrifício eterno que selou a sua vida dá testemunho de que somente quem tem a coragem de se entregar totalmente a Deus e aos irmãos se realiza a si mesmo”.

Gianna, em plena lua de mel pela Itália.

GAUDETE ET EXSULTATE

A ACN recomenda a leitura da Exortação Apostólica Gaudete et Exultate, do Papa Francisco, como forma de aprofundar o tema “santidade”.

GAUDETE ET EXSULTATE

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