Bernadette Soubirous

4852 palavras18.4 minutos de leitura

Bernadette Soubirous

A Verdadeira Fisionomia dos Santos

Baixe o Livro completo
Compartilhe:
Se não fosse…

a pobreza, talvez nada disso teria acontecido. Na França do século XIX, no ano de 1858, em Lourdes, uma família precisava de lenha para cozinhar o pouco de alimento que possuía, e para se aquecer. A primogênita da família Soubirous, Bernada Maria, chamada de Bernadette devido a sua estatura pequenina para os seus 14 anos, foi encarregada de ir buscar galhos caídos, juntamente com sua irmã Toinette.

A amiga Jeanne Abadie foi junto com elas, e desceram então pela Ponte Velha, que dava no rio Gave. Chegando lá, o atravessaram para chegar até a outra margem, a fim de recolher alguns gravetos, mas Bernadette não atravessou com elas, ela sofria de asma e há dois anos havia sido vítima da cólera, que quase lhe tirou a vida. De tanto as amigas insistirem, a pequena desamarrou seus sapatos para então ir junto delas.

Era a manhã do dia 11 de fevereiro, inverno na França, sobretudo naquela região onde ficava a gruta de Massabielle – chamada de “Rocha Velha” pelos moradores locais – quase na fronteira com a Espanha.

Enquanto Bernadette tirava seus sapatos, sentiu um vento forte que chegou a sacudir seu corpo. Para seu espanto quando ela olhou para a natureza ao seu redor, percebeu que as árvores estavam paradas, como se o vento forte, que até fazia ruído, só chegasse até ela. Não deu importância e voltou a tirar as meias, mas o ruído e o vento voltaram e ela então olhou para a gruta.

Na entrada da gruta, estava uma Senhora com um vestido todo branco, um cinto azul e uma rosa amarela sobre cada pé descalço. As rosas eram da mesma cor que a corrente do terço que a Senhora segurava em suas mãos, as contas eram brancas. A mulher estava sorrindo de um jeito doce, e com um gesto através das mãos, chamou Bernadette para chegar mais perto dela.

Bernadette, que neste momento já não podia mais confiar no que seus olhos insistiam em dizer que era verdade, abaixou o rosto, esfregou seus olhos com as mãos e tentou olhar novamente para ver se a alucinação tinha ido embora.

Bernadette ficou assustada com aquela visão. Quem era aquela senhora tão bonita? O que ela queria? Quando a senhora olhou para ela e sorriu com muita bondade, todo o medo da menina desapareceu. A senhora fez um sinal para ela se aproximar. Bernadette deu alguns passos em direção à senhora, tirou o rosário do bolso e caiu de joelhos diante daquela visão lindíssima. Em seguida, a menina começou a rezar o terço em voz alta. A senhora a acompanhava com as contas do rosário, mas em silêncio; ela só dizia o Pai Nosso e o Glória. Quando a reza do terço terminou, a senhora desapareceu.

Logo depois, sua irmã e sua amiga chegaram, com uns galhos e gravetos. Bernadette ainda estava atônita. Pegou um feixe de gravetos e mal sentia seu peso, sua mente e coração estavam ainda tentando entender o que ocorrera. No meio do caminho ia perguntando às duas meninas se elas não tinham visto nada.

Elas responderam que não, mas ao mesmo tempo ficaram curiosas. O quê Bernadette teria visto? A questionaram durante toda a volta, pressionando-a para que contasse. A vidente então, na sua inocência de criança, resolveu contar com a condição de que as duas meninas não contassem a mais ninguém. Feita a promessa, ela revelou o que tinha visto.

O moinho dos Soubirous, casa da jovem Bernadette.

Bernadette e sua irmã voltaram ao Calabouço, a casa onde a humilde família morava. Na verdade, nem casa era. Calabouço, que ficava na viela das Pequenas Fossas, era uma antiga prisão desativada, pois nem aos prisioneiros tinha condições de abrigar. Suas paredes eram úmidas, tinha grades ao invés de janelas, o teto era baixo e o piso de laje com palha espalhada, para ajudar a conter o frio, e também para servir de cama. De fato, eles não moravam na prisão, seria um luxo ter o Calabouço só para eles. A família de Bernadette morava em uma cela de 15 metros quadrados. Dentro do quartinho tinha apenas duas cadeiras e três camas, foi o que sobrou do tempo em que a família tinha um moinho no povoado de Boly. Ao pai, Francisco Soubirous, que tinha problema com o álcool, restava apenas recolher lixo e fazer pequenos trabalhos esporádicos para conseguir algum dinheiro. A mãe, Luísa Soubirous, lavava roupas para as famílias mais prósperas da região. Era tudo o que o casal podia fazer para tentar sustentar seus quatro filhos. Em outros tempos, a família era maior, mas os outros filhos não sobreviveram.

A família Soubirous inteira era analfabeta, por isso mesmo, já com 14 anos, Bernadette ainda não havia feito a Primeira Comunhão, o que nunca a impediu de ter uma fé admirável e uma confiança cega em Deus. Confiança que a ajudou no capítulo que agora estava iniciando em sua vida, logo após retornar da gruta.

Sua irmã, Toinette, não resistiu ao segredo confiado e logo foi contando à sua mãe o que Bernadette disse ter visto. Dona Luísa e o senhor Francisco, pais de Bernadette, ficaram preocupados e a proibiram de retornar à gruta.

A menina, muito obediente, não voltou mais à gruta. No entanto, a imagem da bela Senhora não lhe saía da mente e nem do coração, ela queria muito poder vê-la novamente. Suas amigas também insistiam para ir lá de novo. Dona Luísa, vendo que sua filha estava triste, quase não comia, resolveu deixá-la voltar à gruta, mas, desta vez, com uma condição: além de ir acompanhada de suas amigas, levaria também um frasco de água benta. A recomendação era de que quando a Senhora aparecesse, jogasse a água; se acaso fosse alguma aparição do demônio, a visão certamente desapareceria.

Isso aconteceu na manhã do dia 14 de fevereiro, num domingo. Bernadette e suas amigas chegaram na gruta, e começaram a rezar o terço. Ainda na primeira dezena, a Senhora apareceu novamente a Bernadette, as amigas não conseguiam ver nada, apenas pedras. Bernadette seguiu as recomendações de sua mãe, dizendo: “se a Senhora for de Deus, fique; se for do demônio, vá embora”, e jogou toda a água benta na Senhora, que apenas sorri ao ver o gesto da menina. A vidente se tranquilizou, afinal, não era obra do demônio.

As crianças que estavam junto com Bernadette não entendiam nada, apenas ficavam maravilhadas com o seu rosto, que mais parecia de um anjo. Neste dia, a Senhora também não disse nada.

No dia 18 de fevereiro, ela voltou à gruta acompanhada por duas senhoras da vila que achavam que a tal senhora devia ser a alma de uma moça amiga delas, falecida alguns meses antes. De novo a bela Senhora apareceu sorrindo e Bernadette, a pedido das duas senhoras, levou papel e caneta e pediu que a Senhora escrevesse quem ela era e o que ela queria. A isto, a Senhora sorriu docemente e, pela primeira vez, disse algo diretamente para a menina:

– Eu não preciso escrever aquilo que quero dizer.

Continuou ainda e fez um pedido a Bernadette: que ela voltasse na gruta nos próximos 15 dias. A menina prometeu que voltaria se seus pais deixassem. A senhora, vendo a menina com medo, lhe disse: “Eu não prometo fazê-la feliz nesse mundo. Mas no próximo, eu garanto”. E disse que gostaria de ver muita gente rezando ali.

Apesar da fragilidade e da obediência, Bernadette tinha uma independência de espírito e uma obstinação muito forte. Naquele dia, logo que chegou em casa, disse à sua família a promessa que fizera à Senhora. Os pais consultaram o padre Pomian, que já acompanhava o caso desde o início, e a madrinha de Bernadette. Ambos acharam que deveriam deixar a menina voltar à gruta nos próximos 15 dias.

Representação da Aparição. Igreja do Sagrado Coração de Jesus, cidade de São Paulo

No dia seguinte, a mãe e uma tia foram com a menina até à gruta. A vidente levou uma vela acesa. Ao chegar, começaram a rezar o rosário. Logo na terceira Ave-Maria, a Senhora apareceu de novo, sempre do mesmo modo e no mesmo lugar da gruta. No dia seguinte cerca de 30 pessoas a acompanharam. Novamente a aparição acontece, e a Senhora lhe sorri, mas não diz nada, enquanto os demais rezam. No domingo, dia 21, já são milhares de pessoas que a acompanham. Ninguém vê a Senhora, mas todos percebem como a menina fica imóvel, olhando fixo para um ponto, como se estivesse fora de si. As pessoas que a acompanharam começaram a dizer que na gruta alguém está tendo uma visão do Paraíso, e que a Senhora só pode ser a Virgem.

Ao retornar à vila, a polícia estava atrás de Bernadette para interrogá-la sobre o que estava acontecendo. Os pais ficaram muito aflitos e assustados. Os policiais estavam irritados, querendo que ela confessasse que era tudo invenção. A única pessoa calma era a própria Bernadette. Com toda a tranqüilidade, contou tudo aos policiais, reafirmando que era tudo verdade.

No dia 24, a Virgem pediu que fizessem penitência pelos pecadores. O fato de a menina se voltar chorando para a multidão e gritar “penitência, penitência, penitência” assustou a todos. A polícia e algumas autoridades locais fizeram de tudo para que a menina negasse as aparições. Inclusive ameaçaram que algo de mal iria acontecer a ela e à sua família se ela não negasse tudo. Como sempre, ela se manteve firme e calma. A essa altura, depois de várias conversas com seus pais e com o padre Pomian, estes começaram a acreditar que as aparições eram verdadeiras. A menina não tinha medo de nada, nem de ninguém, e todas as vezes que contava as aparições nunca caía em contradição. A história era sempre a mesma em seus mínimos detalhes.

A polícia, então, mudou de tática e tentou desacreditar a família. Começou a espalhar o rumor que era tudo invenção da família e que, muito pobre, queria se aproveitar da crendice popular para ganhar algum dinheiro. Mas esse rumor não tinha credibilidade, pois todos viam que o comportamento de toda a família era o contrário disso. Algumas pessoas piedosas, vendo a grande pobreza da família, lhe ofereciam dinheiro, roupas ou comida. Eles sempre recusavam qualquer presente e instruíram as crianças para nunca aceitar nada de estranhos. A própria Bernadette nunca aceitou nem dinheiro e nem presentes de quem quer que fosse. A polícia investigou se eles estavam recebendo algo e comprovou que, na realidade, recusavam tudo que se lhes queria dar, apesar de sua grande pobreza.

Na manhã do dia 25, a multidão que acompanhava Bernadette já estava apreensiva para saber se neste dia haveria alguma mensagem, algum pedido, ou ainda algum sinal. Neste dia, a senhora disse a Bernadette para que bebesse água da fonte. Mas não havia nenhuma fonte ali, apenas uma terra enlameada. Assim, Bernadette se arrastou para perto da gruta onde estava a senhora e começou a cavar aquela terra enlameada com as próprias mãos. Logo um filete de água barrenta surgiu no fundo do pequeno buraco e Bernadette lavou o rosto e as mãos com aquela água, ficando toda suja de barro. Muitos começaram a zombar dela e a desacreditar das aparições, acharam que estava louca, ainda mais depois que a visão acabou e que ela explicou que a Senhora pediu que ela bebesse da água da fonte. Todos viam que lá não havia fonte nenhuma, apenas um pequeno filete de água e por isso não deram ouvidos a vidente.

Eis que no dia seguinte, aquele filete de água estava realmente se transformando em uma fonte que logo desembocaria no rio Gave. Já neste dia, muitos doentes beberam daquela água e ficaram curados. Hoje se conhece esta fonte como “a nascente dos milagres”, e é estudada por um centro de médicos especialistas de Lourdes.

Depois dessa aparição, as pressões sobre Bernadette se intensificaram. Dois dias depois ela foi interrogada e ameaçada pelo chefe de polícia local, pelo procurador da república da região e pelo diretor da escola pública. Mas ela, apesar de assustada, se manteve firme e confirmou tudo. O diretor da escola era uma pessoa cética, não acreditava em nenhuma religião. Depois deste interrogatório, ele teve certeza que Bernadette dizia a verdade. O chefe de polícia também mudou de opinião e passou a acreditar nas aparições.

Mas é em 27 de fevereiro que Bernadette receberia sua mais difícil missão: a Senhora lhe incumbiu de pedir aos sacerdotes que construíssem ali uma capela. A maior dificuldade era o pároco de Lourdes, o abade Peyramale, um sacerdote muito sério, a quem muitos temiam em Lourdes. Mesmo com medo, a menina obstinada foi ao encontro do sacerdote. O diálogo entre os dois foi reproduzido por um historiador da época, G.B. Estrade:

O abade Peyramale passeava no jardim, rezando o Breviário. Timidamente, Bernadette apareceu na porta. A voz potente do pároco a sacudiu:

– Quem é você? O que quer aqui?
– Sou Bernadette Soubirous – responde.
– Ah, é você! – exclama o sacerdote, com cara de bravo. – Estão falando tanta coisa de você por aí minha filha. Venha comigo.

Entram então na casa paroquial.

– Vamos lá. O que você deseja minha menina?
Em pé, com o rosto vermelho de tanta vergonha, Bernadette responde:
– A Senhora da gruta me mandou dar um recado aos padres. Ela quer uma capela em Massabielle. É por isso que eu vim aqui.
– E quem é essa Senhora?
– É uma Senhora muito linda, que me aparece sobre a rocha de Massabielle.

O padre suspira impaciente e continua com as perguntas:

– Está bem, isso eu entendi. Mas quem é ela? É de Lourdes? Você a conhece?
– Não. Não é de Lourdes e eu não a conheço.
– E agora você recebe ordens de quem não conhece?
– Mas a Senhora não se parece com as outras pessoas.
– O que você quer dizer com isso?

Bernadette olha fixamente para o sacerdote e não se inibe ao responder:

– Quero dizer que é tão linda, tão linda, que parece com aqueles que estão no Céu.
– E você perguntou o seu nome?
– Sim, mas quando eu perguntei, ela inclinou a cabeça, sorriu e não respondeu.
– Por quê? Ela é muda?
– Não! Se ela fosse muda, não me pediria para vir aqui falar com o senhor.

O abade Peyramale ouviu o último comentário e ficou em silêncio. Com certeza estava diante de uma menina humilde, mas inteligente. E pergunta curioso:

– Como você se encontrou com ela pela primeira vez?

Bernadette se entusiasma. Com os olhos brilhando, conta ao pároco como aconteceu a primeira visão e em seguida todas as outras.

O abade Peyramale ouve desatento. Já conhecia a história através de outras pessoas com quem conversara. Mas ele não deu o braço a torcer. E no final da narração de Bernadette, ele diz:

– Mas será possível que você não percebeu ainda que essa Senhora quer colocá-la em ridículo? Uma mulher sem nome, que não se sabe de onde vem, que habita numa gruta, descalça… você acha que ela é digna de se levar a sério?

O padre se levanta e, por fim, fala:

– Você voltará à gruta com minha resposta. Diga à sua Senhora que o pároco de Lourdes não tem o costume de falar com pessoas que não conhece. Eu exijo que ela diga o seu nome. Quero também uma prova de que esse nome é o dela, e de mais ninguém. Se ela tem direito a uma capela, compreenderá bem o sentido de minhas palavras. Se não entender, então diga a ela que pare de me mandar mensagens.

Berndette ouviu, contrariada. Cumprimentou o padre e saiu.

Trinta mil pessoas estavam à espera de Bernadette no dia 25 de março daquele ano. Muitas pessoas já haviam sido curadas pela água da fonte. O abade Peyramale continuava firme em sua posição e exigia saber o nome dessa Senhora, além de dizer a Bernadette que, já que o desejo dela era uma capela, que então arranjasse o dinheiro.

Nesse dia a Senhora apareceu novamente e então Bernadette perguntou três vezes o nome da Senhora, que sorrindo e unindo suas mãos sobre o peito respondeu:

– Eu sou a Imaculada Conceição.

Depois da visão, Bernadette se virou para uma amiga, perguntando o que queria dizer Imaculada Conceição. A pequena Bernadette não sabia que há quatro anos, em dezembro de 1854, o Papa Pio IX havia proclamado o dogma da Imaculada Conceição de Nossa Senhora. A Igreja reconhecia oficialmente que Maria nunca havia sido manchada pelo pecado original, desde o nascimento até a morte.

Bernadette voltou até a casa do abade Peyramale e disse finalmente o nome da Senhora. Alguns dias depois, três médicos chegaram a Lourdes com a missão de provar que Bernadette estava louca. Pensaram como primeiro aliado o abade Peyramale, que sempre desacreditou das aparições. Mas ao conversaram com ele, o abade apenas respondeu com voz firme:

– Bernadette não tem nenhum problema mental. É sã de mente mais do que vocês e do que eu. E tem mais uma coisa, podem dizer ao prefeito de Tarbes que seus guardas podem me encontrar na porta da casinha de Bernadette. Antes de tocar em um único fio de cabelo daquela menina, vão ter de passar sobre o meu cadáver.

Para o abade, acabaram-se todas as dúvidas, Bernadette realmente falava com a Virgem. O nome Imaculada Conceição ainda era pouco conhecido e apenas o clero sabia sobre o dogma.

Como a cada aparição as multidões aumentavam, as autoridades ergueram tapumes e barricadas em torno da gruta e ficou proibido a qualquer pessoa se aproximar do local. Algum tempo depois, a 16 de julho, Bernadette sentiu uma vontade interior muito grande de retornar à gruta. Uma tia a acompanhou às 8 horas da manhã. Ela ficou do outro lado do córrego devido aos tapumes fechando a gruta. A Virgem aparece uma última vez, com um largo sorriso para a vidente, não diz nada e desaparece. Era um adeus.

Vários artistas tentaram reproduzir a face da Virgem. Mas Bernadette não gostou de nenhuma imagem ou quadro feito. Ela criticou a imagem feita para ser posta na gruta, que ficou sendo a reprodução clássica de Nossa Senhora de Lourdes. Ela dizia que Nossa Senhora era muito, mas muito mais bonita que aquelas imagens. Exatamente a mesma reação teve a vidente de Fátima, a Irmã Lúcia.

As aparições cessaram, mas as investigações continuaram, sobretudo por parte da Igreja, pois a maioria dos fiéis acreditava na veracidade das aparições. Vários doentes diziam ter sido curados, ateus se converteram e milhares de pessoas iam rezar perto da gruta – que continuava interditada. A fama das aparições fez a vida da vidente difícil. Ela não gostava de aparecer em público, nem de ficar famosa. Procurava se esconder do povo e só atendia a pessoas da Igreja ou autoridades. Mas mesmo assim, muita gente conseguia furar o cerco para lhe fazer perguntas.

Sua vida estava muito difícil. E sentindo o chamado, ela decidiu entrar no convento das Irmãs da Caridade, na cidade de Nevers, próxima a Lourdes. Logo ao entrar no convento, a madre superiora reuniu todas as irmãs e pediu a Bernadette para contar todas as aparições. Depois dessa reunião, a superiora lhe disse para nunca mais falar com as irmãs sobre isso, e as irmãs foram proibidas de falar ou perguntar qualquer coisa sobre esse assunto.

Ao fazer os votos, a irmã Bernadette tomou o nome religioso de irmã Marie Bernard. Ela viveu anonimamente a vida de uma simples e humilde religiosa no convento de Nevers, escondida do mundo por 13 anos. Quase sempre com doenças e saúde precária que lhe traziam muitos sofrimentos. Uma vez ela comentou com outras irmãs que sua principal função no convento era sofrer e oferecer este sofrimento a Deus. Ela foi sempre uma religiosa exemplar, que fazia bem a todos que se aproximavam dela. Muitas irmãs notaram que quando estava em oração, parecia que sua face ficava brilhante, reluzente.

Em várias ocasiões sacerdotes pediam autorização à madre superiora para falar com Bernadette sobre as aparições de Lourdes. Apesar de Bernadette não gostar de repetir continuamente as mesmas respostas para as mesmas perguntas, atendia a todos com paciência e resignação.

Em 1879 sua saúde piorou muito. Ficava de cama o tempo todo com muitas dores. Ela estava com apenas 35 anos de idade. Em seu leito de morte, a pedido do Papa Pio IX, foi lhe pedido para fazer um juramento solene de que as aparições haviam sido verdadeiras. Ela o fez sem pestanejar. Enquanto isso, em Lourdes, os milagres de cura de doentes se multiplicavam aos que se banhavam na fonte surgida milagrosamente na gruta. Então, uma irmã do convento perguntou à irmã Bernadette porque ela não pedia para ser levada a Lourdes para ser curada. Ela respondeu: “isto não é para mim”.

No dia 16 de abril ficou claro que a irmã estava morrendo. Várias irmãs se ajoelharam ao redor de sua cama para rezar. A irmã havia pedido orações. Numa das orações, as irmãs disseram a frase da Ave Maria “Santa Maria, Mãe de Deus”, ela respondeu com voz forte: “Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por mim pobre pecadora”. Ela então fez um lento sinal da cruz e morreu em paz.

As coisas mais extraordinárias começaram a acontecer depois da morte de Bernadette. As irmãs notaram com espanto que o corpo da irmã estava flexível, como se ela estivesse em vida. Seu rosto ficou mais jovem e mais bonito, irradiando paz e pureza. No dia seguinte o corpo continuava como se ela estivesse viva, com cor e flexibilidade. Sua cabeça recebeu uma coroa de rosas brancas e em suas mãos foi posto o rosário que ela sempre trouxe consigo, e o papel assinado por ela contendo os votos. Parecia que ela estava dormindo em profunda paz.

Apesar de não se falar dela nos anos em que esteve reclusa no convento, a notícia de sua morte correu célere por toda a região. Multidões apareceram na capela do convento para se despedir dela, para rezar, para vê-la. O enterro teve de ser adiado duas vezes para que todos pudessem vê-la. As filas não diminuíam, o povo todo já a proclamava santa e todos queriam que algum objeto fosse tocado em seu corpo, as mães traziam bebês e crianças. Os trens para Lourdes iam lotados de fiéis que desejavam prestar sua última homenagem. Na missa de corpo presente, no dia do enterro, todas as ruas em volta do convento ficaram lotadas de fiéis rezando. Finalmente, no terceiro dia, as irmãs conseguiram fechar o caixão e a irmã foi enterrada no próprio convento.

Em Lourdes, o governo manteve a gruta fechada e interditada. Algum tempo depois, como as investigações da Igreja concluíram pela veracidade das aparições e as do estado não encontraram nada negativo, o bispo de Tarbes, diocese à qual Lourdes pertencia, pediu ao governo que desinterditasse a gruta. O prefeito respondeu que a ordem de fechar a gruta tinha vindo do próprio chefe de governo, Napoleão III. E em tom provocativo concluiu: vamos ver quem é mais forte, Napoleão ou Nossa Senhora!

A capela que a “Senhora” pediu para Bernadette, hoje é o Santuário de Nossa Senhora de Lourdes.

Os pedidos para abrir a gruta chegavam de todos os lados. Quando a própria esposa de Napoleão III fez o pedido, ela foi reaberta. As peregrinações começaram, muitos doentes eram levados até lá para se banhar nas águas da fonte milagrosa. As curas começaram a acontecer em grande quantidade.

A Igreja é muito rigorosa e estrita em matéria de milagres. A diocese onde está Lourdes organizou uma comissão médica formada por especialistas famosos para examinar cada caso em que se dizia que tinha havido um milagre. Essa comissão estabeleceu regras muito rigorosas para que uma cura pudesse ser considerada um milagre: a doença tem de ser grave e incurável, provada por exames médicos anteriores e posteriores à cura, que deve ser imediata e total, sem intervenções médicas. E a regra que mais elimina curas como sendo milagres é a que estabelece que a pessoa não podia estar sob tratamento médico para aquela doença, pois senão como se pode ter certeza que não foi o tratamento que curou a doença? Só esta regra eliminou mais de 7.000 casos de curas inexplicáveis em Lourdes.

A Comissão Médica de Lourdes é composta por 20 médicos especialistas, a maioria professores de faculdades de medicina vindos de vários países. E dessa comissão fazem parte médicos católicos, de outras religiões e ateus. A cada ano há milhares de pessoas que se dizem curadas em Lourdes, mas só uns poucos casos conseguem passar por toda essa bateria de provas. Lourdes é hoje um dos santuários mais visitados do mundo.

Mas a história de Santa Bernadette ainda não acabou. Uma nova maravilha ainda iria acontecer: em 1908 o caixão no qual ela foi enterrada, foi aberto pela comissão que levava adiante seu processo de beatificação. Várias outras testemunhas e autoridades estavam presentes. Estupor geral: quase 30 anos depois de sua morte, seu corpo estava perfeito, tal como fora enterrado. Ela parecia estar dormindo e seu corpo continuava flexível, como o de uma pessoa viva. Em vista deste milagre incrível, seu corpo foi depositado numa urna de cristal, colocada na capela do convento sob uma bela imagem de Nossa Senhora, onde todos os fiéis podem vê-la e venerá-la. É um milagre contínuo, que qualquer um pode comprovar na cidade de Nevers, na França.

Em 1913, o Papa Pio X, ele mesmo um santo, proclamou-a venerável. Em 1925 ela foi declarada beata e no dia 8 de dezembro de 1933 foi proclamada santa pelo Papa Pio XI numa solene cerimônia na basílica de São Pedro em Roma perante imensa multidão. Vários milagres foram comprovados como tendo ocorrido por sua intercessão. Sua canonização foi feita não por causa das aparições, mas sim devido à vida santa que levou, e que foi testemunhada por centenas de pessoas que a conheceram.

Em sua viagem à Lourdes, o Papa Bento XVI orientou os fiéis sobre o que os peregrinos devem buscar na gruta de Massabielle: “Naturalmente não vamos para encontrar milagres. Vou encontrar o amor da Mãe, que é a verdadeira cura para todas as dores e para ser solidário com todos os que sofrem, no amor da Mãe. Este me parece um sinal muito importante para nossa época”. Continuou ainda, dizendo que a mensagem de Lourdes mostra que: “O poder do amor é mais forte que o mal que nos ameaça”.

Santa Bernadette Soubirous é padroeira dos doentes e dos pobres. Sua festa se comemora a 16 de abril.

Já se passaram mais de um século do seu falecimento, e o corpo de Santa Bernadette permanece incorrupto, como se estivesse num sono profundo.

GAUDETE ET EXSULTATE

A ACN recomenda a leitura da Exortação Apostólica Gaudete et Exultate, do Papa Francisco, como forma de aprofundar o tema “santidade”.

GAUDETE ET EXSULTATE

Um comentário

  1. Guiherme José de Amarante 2 de abril de 2021 at 19:58 - Responder

    Um escritor judeu, Franz Werfel, fugindo do nazismo, chegou a Lourdes, conheceu a história de Santa Bernadete e fez uma promessa: se conseguisse sair da França em segurança, escreveria a história da Santa. Alcançou a graça, escreveu um livro famoso “A Canção de Bernadete”, terminado em Hollywood, Los Angeles, Califórnia, EUA. Outro “milagre” de Lourdes,

Deixe um comentário

Outros Santos …

Ir ao Topo