Maximiliano Kolbe

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Maximiliano Kolbe

A Verdadeira Fisionomia dos Santos

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Um dia…

meu filho não chegou para o jantar. Sentado à mesa, com uma cara muito feia, o pai estava visivelmente aborrecido. Os dois irmãozinhos, Francisco e José, comiam sem fazer qualquer barulho, porque o temporal estava armado. Dava pra sentir no ar. Quando acabou o jantar, de repente, a porta se abre. É Raimundo, todo esbaforido. Parecia um moleque de rua.

E o temporal desabou.

– Isso é hora de chegar em casa? – explode o pai. Nem parece que tem família! É desse jeito que agradece à sua mãe, que cuida de você? Ela trabalha que nem uma condenada para você andar limpo e arrumado…

A bronca não para nisso. O pai está mesmo enfezado. Raimundo se mantém o tempo todo de cabeça baixa e depois sai de fininho para o quarto. Ficou sem jantar nessa noite.

No dia seguinte, enquanto eu remendava mais uma vez a camisa dele, meu pequeno Raimundo não saía de perto de mim. Ele continuava de cabeça baixa, todo humilde.

– Meu filho, o que é que a gente vai fazer com você? – deixei escapar num suspiro.

Raimundo desanda a soluçar e foge para o quarto.

Depois eu percebi que ele estava de joelhos em frente ao oratório de Nossa Senhora de Czestochova.

Alguns minutos depois, ele se levanta. Parecia muito preocupado.

Passou vários dias assim, pensativo e calado. De vez em quando eu o escutava chorar, trancafiado em seu quarto. Eu me perguntava o que será que estaria acontecendo. Não podia ser normal aquilo, principalmente na idade dele.

Tive de chamá-lo para uma conversa.

– Escute aqui, meu filho, me conte, por favor, o que está havendo. Você ainda está emburrado por causa da bronca que levou do seu pai naquela noite, não é mesmo?

Ele nega com a cabeça.

– Então o que é? Por que você anda pelos cantos com essa cara amarrada?

– Mamãe, lembra quando você perguntou o que você e o papai iam fazer comigo? Eu fui perguntar isso pra Nossa Senhora. E sabe o que foi que Ela me disse?

Raimundo contou que Nossa Senhora abriu as mãos e mostrou a ele duas coroas de flores, uma branca e outra vermelha. Com um sorriso nos lábios, Ela perguntou qual das duas ele queria. A coroa branca indicava a pureza e a vermelha a entrega da própria vida. Era assim que ele tinha entendido o sentido das duas coroas.

Raimundo continuou:

– Eu não sabia escolher, mamãe. Então, resolvi ficar com as duas. Nossa Senhora me sorriu de novo e voltou para o quadro. Foi isso, mamãe. Não estou inventando nadinha.

Depois dessa conversa, Raimundo voltou a ser o meu menino de antes, alegre e tranquilo. Tinha arrancado esse peso do seu coraçãozinho.

Eu nunca contei essas coisas para ninguém, nem mesmo para meu marido. Guardei, no segredo do meu coração, essas palavras do meu filho. Agora que eu sei que ele está morto e como foi que ele morreu, achei que devia contá-las a vocês, seus confrades e amigos.

Essa carta foi enviada para os frades franciscanos por Maria Dobrowska, a mãe de Raimundo, que um dia seria chamado de São Maximiliano Kolbe, o prisioneiro 16670 do campo de Auschwuitz. O acontecimento narrado na carta aconteceu quando o pequeno Raimundo tinha cerca de 9 anos. Seu pai lhe chamou a atenção porque ele havia pegado algumas moedinhas escondido da família para comprar um ovo de galinha. Ele comprou o ovo, o entregou a uma vizinha que tinha uma criação de galinhas, para que o ovo pudesse chocar e assim ele teria um animalzinho de estimação. Desde sempre Raimundo se sobressaiu com relação aos seus outros irmãos, Francisco, o primogênito e José, o mais novo.

Nascido no dia 8 de janeiro de 1894, em uma pequena cidade da Polônia, Zdunska Wola, Raimundo, que foi batizado no dia de seu nascimento, era filho de Julio Kolbe e Maria Dobrowska, membros da Ordem Terceira Franciscana. Seus pais eram tecelões e seus salários mal davam para cobrir os gastos da família.

Moravam e trabalhavam em um quarto alugado. O dormitório era divido por uma cortina, que separava a casa do local de trabalho, onde ficavam os dois teares. No espaço reservado para o lar, tinham as camas e um oratório com o quadro da Virgem Negra de Czestochova, a família inteira era muito devota de Nossa Senhora.

Raimundo desde criança queria imitar os santos. Quando ficou sabendo que São Francisco pregava para os pássaros, tentou fazer o mesmo. Separou uma pouco de comida para atrair as aves e ficou escondido esperando. Quando as aves chegaram, ele saiu correndo na direção delas, que por sua vez, saíram voando com medo do garoto. Ele teria de ser santo de outra forma.

Até quando sua mãe lhe chamava a atenção ele imitava algum santo. Certa vez ele ficou sabendo que Dom Bosco, quando criança, ao quebrar um vaso de sua casa, pegou uma vara de marmelo para que sua mãe batesse nele, a mãe ao ver o gesto do filho, achou engraçado e não bateu. Oras, Raimundo copiou a tática e também sempre que quebrava alguma coisa, já aparecia com a varinha esperando o castigo, contando sempre com a piedade da mãe.

Maria Dobrowska e Raimundo, seu filho do meio, que mais tarde receberia o nome de Maximiliano.

Como a família não tinha recursos, apenas poderiam auxiliar um dos filhos para os estudos, e o escolhido foi Francisco, o irmão mais velho. A família sonhava que ele se tornasse sacerdote e então o encaminharam para o estudo secundário. Raimundo e José ficaram sem estudar.
Um dia Raimundo foi à farmácia para sua mãe, e lá o farmacêutico, o senhor Kotowski, perguntou ao pequeno Raimundo como iam os estudos. O senhor Kotowski ficou desolado ao descobrir que aquele menino tão inteligente não estava estudando, e se propõe a dar aulas gratuitamente para ele. Ao final dos estudos, ele estaria apto a entrar para a escola secundária. A família Kolbe também gostou muito da ideia e ficaram agradecidos ao farmacêutico.

Quando Raimundo tinha 13 anos, finalmente viajou para Leopoli – onde hoje é a cidade de Lviv na Ucrânia, e que na época pertencia a Áustria – a fim de entrar para o colégio aberto pelos franciscanos. Foi a primeira vez em sua vida que ficou distante da família.

No colégio, se destacou como um dos melhores alunos, principalmente em ciências exatas. Um dos professores até brincou, dizendo que seria uma pena que alguém tão inteligente se tornasse frade.

Seus estudos no seminário menor haviam terminado e ele precisava se decidir se entrava ou não no noviciado da ordem, para ser um novo discípulo de São Francisco de Assis. Afinal, Raimundo se decidiu: iria se alistar no exército para lutar pela independência de seu país, tal como seu pai já estava fazendo, era o tempo da Primeira Guerra Mundial. Quando se dirigia para falar com o superior para comunicar sua decisão, a Divina Providência interveio. Vieram chamá-lo, pois havia uma visita para ele. Era sua mãe, para comunicar que seu pai havia falecido na guerra, que em vista disso ela havia decidido entrar na vida religiosa e que seu irmão mais novo, José, também queria entrar no seminário. A mãe estava muito contente que deste modo, toda a família se consagrava a Deus. Raimundo engoliu em seco, pois percebeu que aquela inesperada visita na hora H era um claro sinal de Deus para que ele perseverasse no seminário. Agora estava claro qual era a vontade de Deus para ele. Acabaram as dúvidas e angústias. Com tranquilidade e decisão entra no noviciado. Só então ele entendeu que fora chamado a ser soldado sim, mas da Virgem Imaculada, não para matar inimigos, mas para salvar pessoas.

Primeira Guerra Mundial – A Europa começa a viver seu pior pesadelo até então.

Então, aos 17 anos, Raimundo entra para a ordem dos Franciscanos Conventuais, vestindo sua túnica pela primeira vez, disposto a seguir firmemente a pobreza e confiança de São Francisco, assumindo o nome de Maximiliano Kolbe. Logo foi enviado para o Colégio Internacional dos Franciscanos em Roma, na Itália, onde ele passou a morar. Fez seus estudos na famosa Universidade Gregoriana de Roma, e inclusive recebeu dois doutorados. Seus superiores tiveram visão: vendo que o jovem Maximiliano era bastante inteligente, quiseram que ele tivesse a melhor formação possível.

Nesta época, em meados de 1917, o mundo ainda estava imerso na Primeira Guerra Mundial. O Papa Bento XV havia feito, sem sucesso, um apelo pedindo o fim dos Conflitos. A Itália e vários outros países europeus viviam uma verdadeira onda de ataques e provocações de outras entidades, principalmente da maçonaria, contra a Igreja Católica. Foi ainda o ano da Revolução Russa. Mas, como em todos os momentos difíceis da história, vale lembrar que também era uma época de grandes esperanças: três pastorzinhos em Portugal afirmavam ver e ouvir mensagens de amor e esperança da Mãe de Deus. Muitos duvidavam ainda, mas as mensagens de Nossa Senhora de Fátima eram impressionantes demais para terem sido inventadas por três inocentes crianças que não sabiam o que estava acontecendo no mundo.

Os ataques que a Igreja sofria, a Guerra, e em contrapartida a mensagem de esperança dada em Fátima despertaram no jovem frade seminarista, Maximiliano, a vontade de criar um exército para a Virgem Maria, uma milícia. Ele se reuniu com mais seis colegas para discutir o que fazer. A reunião foi feita numa cela, diante de uma pequena imagem de Nossa Senhora, com duas velas acesas ao seu lado. Ali, o grupo de amigos decide pela fundação de um movimento que se chamaria a Milícia da Imaculada. Maximiliano foi encarregado de redigir uma ata da reunião.

Em palavras simples e sintéticas, ele resume a obra: “Finalidade: procurar a conversão dos pecadores, dos hereges, dos judeus, etc. e especialmente dos maçons; e a santificação de todos pela proteção da Virgem Imaculada. Condições: Oferecimento total de si mesmo à Imaculada, como instrumento em suas mãos imaculadas. Levar a Medalha Milagrosa a todos”. O lema do movimento ficou sendo: “Conquistar o mundo inteiro para Cristo pela Imaculada”. Inicialmente, como estavam muito ocupados com os estudos do seminário, a Milícia ficou só entre os sete.

Finalmente, Kolbe foi ordenado sacerdote em 28 de abril de 1918, em Roma. Seu nome agora era Maximiliano Maria Kolbe, mas o chamavam sempre de Padre Kolbe. Neste mesmo ano, o Papa Bento XV aprova a Milícia da Imaculada. É o momento de levá-la ao mundo. Ele voltou à sua pátria, a Polônia, que se tornou um país livre após a guerra. Nesta época também, Padre Kolbe começa a sofrer de um mal comum naquele tempo: a tuberculose.

Tornou-se professor no seminário e, mesmo entre as idas e vindas ao hospital, conseguia espalhar a Milícia da Imaculada, seja no seminário, seja em seu leito, no hospital, onde convertia judeus e protestantes.

Cada vez que Padre Kolbe saía do hospital, uma nova ideia brotava em sua mente e no coração. A primeira delas foi a revista “O Cavaleiro da Imaculada”. Os superiores lhe deram a autorização para publicá-la, mas deixam claro que os franciscanos não poderiam lhe auxiliar com um centavo sequer, e isso não era má vontade dos franciscanos, é que a congregação realmente não tinha um centavo para oferecer.

O sacerdote foi então de casa em casa pedindo donativos, mas o que conseguiu ainda era insuficiente para iniciar a revista. Então Padre Kolbe recorreu Àquela que jamais o abandonou, se prostrou aos pés de Nossa Senhora e pediu ajuda, argumentando a importância da publicação. Quando ele se levanta, encontra um envelope em frente a imagem de Nossa Senhora, e no envelope estava escrito: “para ser empregado numa boa obra”. Dentro do envelope havia a quantia suficiente para a impressão da revista.

“O Cavaleiro da Imaculada” foi um sucesso retumbante e inesperado. Todo mundo queria ler a nova revista mensal. Os donativos começaram a chegar. E através da revista, a Milícia começou a ser difundida por toda a Polônia. Em pouco tempo a revista chegou a uma tiragem inacreditável para a Polônia da época: um milhão de exemplares. Fundou depois uma revista para crianças, uma só para sacerdotes e, depois, um jornal diário que chegou a ter uma tiragem de 200.000 exemplares. Os artigos do Padre Kolbe eram muito lidos e comentados. Ele tinha um verdadeiro carisma para o apostolado da imprensa, motivo pelo qual é considerado o patrono da imprensa.

Como todas estas publicações cresciam, era preciso uma organização melhor do que os locais improvisados em conventos. Em 1927, Frei Maximiliano obteve permissão para fundar um grande convento especializado na imprensa. Ele o chamou de Niepokalanow, que em polonês quer dizer “Cidade da Imaculada”. Vários outros franciscanos foram colocados a serviço da nova obra e ali trabalhavam muitos leigos entusiasmados.

Mas tudo que é verdadeiramente grande começa pequeno e vai crescendo. A primeira construção de Niepokalanow foi uma capelinha de madeira muito simples e ao seu lado Frei Maximiliano ergueu uma barraca para ele e seus frades viverem. Subdividiram a pobre barraca em um espaço comum para os frades, uma cozinha e minúsculas celas individuais para Frei Maximiliano e seus companheiros. Viviam ali o Padre Kolbe, que fora designado superior do novo convento, dois frades e 18 irmãos.

Com o tempo e com a chegada dos donativos, um edifício bem maior foi erguido para abrigar as impressoras e serviços técnicos. Enquanto a barraca para si e para os frades era pobre, pequena e simples, os prédios para as máquinas e para a redação eram grandes. Frei Maximiliano queria o melhor e o mais eficiente para que o apostolado produzisse frutos para sociedade.

“O Cavaleiro da Imaculada” era produzida e impressa pelos próprios religiosos.

Nada menos que mil pessoas trabalhavam ali, todas consagradas à Imaculada. E tudo feito do modo mais eficiente possível. Com todas suas publicações e com a difusão da Milícia da Imaculada, Frei Maximiliano cumpria com o seu lema de “levar o mundo inteiro para Cristo através da Imaculada”.

Em 1931, o Papa Pio XI pediu aos franciscanos poloneses para ajudar na evangelização do Japão. Padre Kolbe, apesar de ocupadíssimo com suas publicações, estava entre os primeiros que se apresentaram para partir. Ele e mais quatro frades foram designados para trabalhar no apostolado no país do sol nascente. Eles se instalam em Nagasaki, onde já havia uma comunidade católica e até uma diocese.

Frei Maximiliano começou a lecionar no seminário e logo fundou uma versão japonesa da revista “O Cavaleiro da Imaculada”. A revista alcançou a tiragem de 30.000 exemplares, mas a obra não pôde crescer muito no Japão por falta de fundos. Os católicos japoneses eram em geral muito pobres, e em consequência, a Igreja era também pobre. Mas Frei Maximiliano conseguiu, com grande dificuldade e muito trabalho, construir um convento que chamou de Mugenzai-no-Sono, Jardim da Imaculada. Algum tempo depois, Frei Maximiliano, que como sempre trabalhava com os jovens, abriu um seminário anexo ao convento, para receber as primeiras vocações japonesas para os Franciscanos.

Em 1936, Frei Maximiliano ficou com sua saúde muito debilitada mais uma vez. Os médicos japoneses o aconselharam a voltar para a sua terra, a Polônia, pois ele só tinha, no máximo, mais três meses de vida.

Chegando na Polônia, ficou aos cuidados de sua mãe e em pouco tempo se restabeleceu, sua previsão de vida não podia mais ser contada em meses, ele ainda teria anos pelo frente. Reassumiu a direção de Niepokalanow, a Cidade da Imaculada. Neste tempo, iniciou um apostolado por correspondência, em que pedia às pessoas necessitadas, que escrevessem dizendo seus problemas, dúvidas ou simplesmente pedindo ajuda, prometeu que as cartas não ficariam sem resposta. A cidade passou a receber quase 2 mil cartas por dia.

Padre Kolbe ajudava espiritualmente todos que escreviam para Niepokalanow.

Em 1939, o líder político da Alemanha, Adolf Hitler, pregava que a ocupação da Polônia era de “fundamental importância para a expansão da privilegiada raça germânica”. Ninguém deu muita importância a este homem que discursava freneticamente. Mas em agosto deste ano, Hitler assinou um tratado com Stalin, em que eles invadiriam a Polônia e a dividiriam entre os dois.

No primeiro dia do mês seguinte, os nazistas invadiram a Polônia, tomando conta de tudo, principalmente da imprensa. Padre Kolbe, ao ficar sabendo da invasão, avisa sua equipe sobre o momento de provação e pede que todos voltem para a casa. Muitos foram mandados para conventos franciscanos mais seguros. Em Niepokalanow, apenas ficaram Frei Maximiliano e mais 50 irmãos franciscanos.

Logo a guerra chegou à Cidade da Imaculada, prédios foram bombardeados, religiosos foram presos. Hitler anunciou que a Polônia não mais existia enquanto nação. Niepokalanow foi transformada em hospital e Frei Maximiliano em enfermeiro, juntamente com outros frades.

Os nazistas logo perceberam a inteligência do Padre Kolbe, e pensaram que ele os poderia ajudar. Permitiram que ele retomasse a publicação de “O Cavaleiro da Imaculada”, e queriam lhe dar cidadania alemã, mas ele soube recusar o “privilégio”. Mas assim que o primeiro número da revista foi impresso, os soldados de Hitler se decepcionaram com o conteúdo, pois nada tinha a ver com o que eles esperavam, ou seja, a revista não tinha uma orientação nazista. A publicação foi decididamente vetada.

Em 1941 Hitler declarou o povo polonês como um povo de escravos. A primeira diretriz para executar seu plano foi dizimar a classe intelectual e as lideranças capazes de oferecer resistência, logo, Maximiliano Kolbe estava na mira.

No dia 17 de fevereiro, a Gestapo – polícia nazista – leva Padre Kolbe para a Prisão de Pawiak, uma espécie de triagem de onde saiam os prisioneiros para os campos de trabalho forçado.

Frei Maximiliano, que sempre esteve acostumado a obediência, ficou serenamente preso, com seu hábito franciscano e seu grande rosário preso a cintura, o qual ele estava sempre rezando. Este gesto, a oração do rosário, deixou um dos guardas furioso. O oficial nazista segurou o crucifixo do rosário e perguntou enfurecido se o Padre Kolbe acreditava naquilo. O futuro santo responde que sim. O guarda então lhe dá um tapa e repete a pergunta.

– Sim, eu creio.

Esta foi sempre a reposta do inocente Frei.

O oficial, sem acreditar no que estava vendo, começou a lhe esmurrar cada vez mais forte. E indignado com a resposta, perde a paciência e parte para os pontapés e socos. O espanca até quase a morte, e deixa seu corpo estirado no chão.

Seus colegas de cela o levantaram e Padre Kolbe, com o rosto quase desfigurado, sorri e diz que está tudo bem. A partir deste dia, o guarda ordenou que lhe dessem um macacão e levassem sua veste franciscana, a qual ele jamais voltaria a vestir.

Em maio de 1941, Padre Kolbe foi transferido para o campo de Auschwitz, onde passou a ser chamado apenas de 16670, o número que tatuaram em seu braço esquerdo. Auschwitz era um campo de horrores infernais, como o mundo ainda não tinha visto igual. Quatro milhões de seres humanos inocentes foram assassinados ali. Os nazistas montaram neste lugar uma eficiente máquina da morte, onde massas de prisioneiros eram mortas asfixiadas por gases letais. Os restos mortais daquela multidão de vítimas eram cremados em enormes fornos, tudo feito da maneira mais eficiente possível. Muitos católicos, inclusive sacerdotes, foram mortos ali. Não havia julgamentos, os prisioneiros eram simplesmente mandados para lá para serem mortos sumariamente.

O trabalho do Padre Kolbe era transportar brita, cortar árvores e levar lenha de um canto a outro. Certa vez, não conseguiu levar um tronco grande demais e caiu, levou então cinquenta bastonadas de um guarda que depois deixou seu corpo jogado no chão. Os outros prisioneiros cobriram seu corpo com ramos, como faziam com outros que iam caindo mortos durante o trabalho. Mas ao cair da noite ele aparece na cela, ainda não foi desta vez que conseguiriam matá-lo.

Nos dias que se seguiram ele estava com muita febre por causa da tortura empregada, foi transferido então para a ala dos infectos. Lá ele não reclamava de nada, simplesmente conversava com Deus, algo que logo chamou a atenção dos outros prisioneiros, que vinham até seu leito de palha para pedir palavras de esperança. Nesse tempo ele repetia sempre: “O ódio não constrói nada. É o amor que salva”. Sua febre passou e suas feridas se fecharam, foi então levado para o Bloco 14.

No dia 20 de julho, um dos prisioneiros do Bloco fugiu. E como era regra lá, se um fugisse, dez morreriam.

Daqui em diante segue o testemunho deixado pelo senhor Borgowiec, colega de campo do Padre Kolbe, em Auschwitz:

Desde o dia 29 de julho até a noite do dia 30 ficamos no pátio de pé, sem comer, sem água, sem dormir; a noite foi muito fria e de dia fez calor. Os soldados colocavam comida na nossa frente e a jogavam no chão. Alguns, mais fracos, não tendo mais força, morreram ali mesmo. Eu, o padre Kolbe e o Franciszek estávamos na mesma fila, a 5a ou a 6a. Fritz, o oficial alemão, andava entre as filas e quando parava diante de um prisioneiro, significava que era o seu fim, estava condenado. Ele estava escolhendo dessa forma os dez prisioneiros que iriam morrer em represália pela fuga da véspera. Quando Fritz se aproximou de mim, minhas pernas tremiam, a visão sumiu, meu único desejo era viver. Eu rezava continuamente: “Deus, não deixa ele me escolher!” Naquele momento não podíamos ter nenhum tipo de reação, não podíamos nem mesmo mudar a expressão do rosto, porque isso já seria suficiente para morrer.

Quando os dez foram escolhidos e tudo acabou, foi um alívio. Um dos escolhidos para morrer, o jovem sargento Franciszek Gajowniczek, gritou lamentando que nunca mais veria sua mulher e os filhos. De repente, alguém sai da fileira. Todos ficaram horrorizados, era o padre Maximiliano Kolbe! O silêncio era absoluto, só se ouviam os seus passos em direção a Fritz. Ele estava muito calmo e disse para o oficial alemão: “eu quero morrer no lugar desse homem”. O alemão, pego de surpresa, lhe perguntou: “quem é o senhor?”. Isso foi notável, era a primeira vez que ouvíamos um oficial alemão chamar um prisioneiro de senhor. Eles só nos chamavam com insultos. Frei Maximiliano respondeu: “Sou um polonês, sacerdote católico. Este homem tem mulher e filhos”. Fritz aceitou a troca.

Os nazistas escolheram uma morte terrível para os dez prisioneiros escolhidos para morrer: a fome. Eles seriam mortos pela fome. Os dez foram despidos, e foram fechados numa pequena cela totalmente escura no porão de um dos blocos. Na cela, Frei Maximiliano liderou o grupo com orações e cânticos. Nas duas semanas que se seguiram, os presos iam morrendo um a um, sempre consolados pelo frade. Na terceira semana ainda havia quatro vivos, entre eles o frágil Padre Kolbe. Os nazistas perderam a paciência e decidiram matar os sobreviventes com uma injeção de ácido fênico. O Padre Kolbe calmamente estendeu seu braço para o carrasco. Um prisioneiro que foi mandado ao pavilhão onde estavam os agonizantes, viu os últimos momentos de frei Maximiliano: “Encontrei o padre Maximiliano Kolbe sentado no chão, apoiado na parede, com os olhos abertos e a cabeça inclinada. A sua face era radiante e serena”.

Cela na qual morreram os 10 condenados, pela tentativa de fuga de um prisioneiro. Entre os condenados estava Padre Kolbe, que trocou de lugar com um pai de família.

E assim ele faleceu santamente no dia 14 de agosto de 1941, às 12h50, vigília da festa da Assunção de Nossa Senhora. Finalmente concretizou sua visão da Imaculada, vestiu a coroa do martírio oferecida pela Mãe de Deus quando ele ainda era uma criança.

Seus restos mortais foram cremados ali mesmo em Auschwitz, e suas cinzas foram jogadas ao vento. Profeticamente, numa carta, anos antes, o Padre Kolbe escrevera: “Quero ser reduzido a pó pela Imaculada e espalhado pelo vento do mundo”.

Depois da guerra foi iniciado na Polônia um movimento por sua beatificação. Todos que o conheceram o tinham por santo. Ele irradiava bondade e o amor de Deus ao próximo. Em 1971, trinta anos após sua morte, o Papa Paulo VI proclamou a heroicidade de suas virtudes, e o declara então beato confessor da fé.

No ano de 1982 o Papa João Paulo II o canoniza solenemente no Vaticano, reconhecendo os milagres atribuídos à sua intercessão e o proclamando Mártir da Caridade. Franciszek Gajowniczek, o homem salvo pelo padre Kolbe, estava presente na cerimônia. Na homilia da Missa de canonização, o Papa assim se expressou: “… Um grande amor por Cristo e um desejo de martírio acompanhavam-no no caminho da vocação franciscana e sacerdotal. Maximiliano não morreu, ele deu sua vida pelo irmão. É por isto que sua morte tornou-se sinal de vitória. Vitória sobre todo o sistema de desprezo e ódio do homem e daquilo que no homem há de divino, vitória semelhante àquela que levou Jesus Cristo ao Calvário”. Disse ainda com voz forte: “Olhai, olhai do que é capaz o homem que se dedica a Cristo por meio de Maria Imaculada”.

A entrada para Auschwitz, onde Maximiliano viveu seus piores momentos, mas que também o ajudaram a chegar mais perto do Céu.

GAUDETE ET EXSULTATE

A ACN recomenda a leitura da Exortação Apostólica Gaudete et Exultate, do Papa Francisco, como forma de aprofundar o tema “santidade”.

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