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Crise na Venezuela: estado de alerta

3 de setembro de 2020

A crise continua se agravando na Venezuela. Segundo o último estudo publicado pela plataforma independente de estudos estatísticos EANCOVI, os níveis de pobreza e desigualdade teriam colocado a Venezuela em posições anteriormente inimagináveis para o contexto latino-americano. A Venezuela está em estado de alerta. O país está se distanciando consideravelmente de seus pares sul-americanos e se aproximando da situação de alguns países do continente africano.

De acordo com os dados coletados pela ENCOVI, 96% das famílias venezuelanas estão na pobreza e muitos na extrema pobreza, o que significa que a renda recebida é insuficiente para compra de uma cesta básica. A tudo isso soma-se a crise do COVID-19. O impacto na economia do país é brutal: 70% das famílias declararam o aumento dos preços dos alimentos como o principal problema.

Bispo descreve crise na Venezuela

Dom Polito Rodríguez Méndez, Bispo da Diocese de San Carlos, no estado de Cojedes, descreve a situação atual do país em uma entrevista exclusiva para a ACN: “A Venezuela entrou em um período de fome. Todos os dias as coisas pioram. A economia está paralisada, não há indústria nem trabalho na agricultura. O Produto Interno Bruto está abaixo de zero. Os mais afetados são os mais pobres que não têm nada para comer e não têm chance de levar uma vida decente. Precisamos de ajuda do exterior para lhes dar algo para comer pelo menos uma vez por semana”, disse o prelado. Ele acabou de completar seu quarto ano à frente da Diocese, que fica a 250 quilômetros a sudoeste da capital Caracas.

“Tudo é dolarizado. Uma família ganha cerca de três ou quatro dólares por mês. Uma caixa de ovos custa dois dólares e um quilo de queijo, três dólares. Antes as pessoas eram pobres, agora elas nem isso conseguem ser. O estado de Cojedes é conhecido por suas mangas, e muitas pessoas têm mangas no café da manhã, almoço e jantar. Em outros lugares, não sei o que elas podem fazer. Estamos em quarentena há meses e tudo ficou muito caro. Não podemos continuar assim.”

Pandemia vai piorar ainda mais a crise

Outro problema sério que ele mencionou em sua conversa com a ACN é que muitas pessoas viveram graças às remessas de aproximadamente cinco milhões de venezuelanos que trabalham fora do país. Devido à pandemia, muitos deles têm perdido seus empregos e as remessas caíram 25%. “Outro dia, conheci um seminarista que estava chorando. Seus pais foram demitidos. Eles não têm nada para viver e não podem enviar nada ao filho. Estamos vivendo da providência de Deus ”, disse Dom Rodriguez.
Teme-se que os milhares de migrantes venezuelanos que perderam seus empregos na Colômbia, Peru, Chile e Argentina possam tentar voltar para casa e incluindo pessoas com COVID-19.

Por esse motivo, as regiões fronteiriças de Zulia, Apure e Táchira foram fechadas e isoladas. “Muitos migrantes estão tentando voltar por rotas ilegais, alguns caminhando 22 dias por trilhas (trilhas nas montanhas). Os chamados “centros sentinelas” foram criados para aqueles que retornaram, mas muitos pensam que não é seguro devido à superlotação, falta de banheiros e falta de higiene. Na opinião deles, esses centros não são adequados e eles não querem ir para lá, e então se escondem. Tudo isso está começando a ter sérias consequências.”

Além disso tudo, uma infestação de vermes

Além disso, nas últimas semanas, grande parte dos estados de Cojedes, Portuguesa e Barinas, entre outros, experimentaram uma infestação de vermes que varreram bananeiras e pastagens para o gado. “As pragas do Egito não são nada comparadas com o que estamos sofrendo aqui, nada”, disse o Bispo. Diante de todas essas dificuldades, a última coisa que o Bispo de San Carlos quer fazer é voltar atrás. “Essa situação toda é muito deprimente; o número de suicídios é alto. Temos que superar as dificuldades para oferecer assistência espiritual; isso é fundamental. Nossa emissora transmite a Missa aos domingos e continuamos nosso trabalho pastoral nas mídias sociais. Não podemos desanimar.”

Admitindo que, quando ele ora, ele “discute com Deus”, acrescentou: “Acima de tudo, peço misericórdia, só que sozinhos não podemos fazê-lo. Nossa força vem dEle. Deus ama o seu povo, Ele não vai nos deixar sozinhos. E a Igreja também não deixará o povo por si próprio, insistiu.”

“O resto do planeta está agora em crise, enquanto estamos sofrendo há décadas. Como Igreja, fomos capazes de ajudar muitas pessoas nos últimos anos. Apesar das limitações individuais, não vamos deixar as pessoas sozinhas na terrível situação em que nos encontramos. E não estou me referindo apenas à questão da ajuda humanitária. Mas também ao que podemos fazer para empoderar totalmente as pessoas e combater a corrupção, a apatia, a falta de senso de responsabilidade… Tudo isso também empobrece a população”, observou o prelado durante sua conversa com a ACN.

Venezuela precisa de ajuda

Dom Rodríguez Méndez tem pouca esperança de que certas forças políticas do país deem uma resposta. Para ele, a ajuda que pode aliviar a crise agora só pode vir de fora. “Temos que buscar apoio internacional; só por nós mesmos não podemos fazer isso. Não há suprimentos, funcionários motivados, comida. O país está desmoronando. Não desejamos intervenções, menos ainda as armadas, mas devemos pedir ajuda humanitária e médica à comunidade internacional. Porque, se não o fizermos, não teremos outra alternativa: a COVID-19 ou a fome nos matará.”

A ACN tem ajudado o povo da Venezuela por meio da Igreja, que cria cozinhas comunitárias para aliviar o sofrimento das famílias mais carentes. Clique aqui e faça a sua doação para também ajudá-los.

 

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