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Uma vida pela África com a ACN

13 de outubro de 2020

Durante quase 30 anos, Christine du Coudray dedicou sua vida à Igreja na África. “Cada continente tem sua própria vocação; a vocação da África é a família”.

Durante 28 anos, Christine du Coudray trabalhou na sede internacional da ACN como diretora de projetos para a África. Assim, em uma entrevista, ela recordou seus anos de serviço e missão com a ACN.

Christine du Coudray, depois de 28 anos de serviço, estes são seus últimos dias com a ACN. Isso não a faz se sentir um pouco nostálgica?

Há um tempo para servir e um tempo para sair. Depois de 28 anos, estou pronta para sair. Nos últimos dez anos, uma nova geração de jovens membros se juntou à nossa organização, uma equipe muito dedicada, que continuará a missão. Quando comecei a trabalhar, há 28 anos, mal conseguia localizar os países africanos no mapa. Aceitei o desafio e comecei a construir meu conhecimento a partir do zero.

O que aprendeu com seu trabalho?

Aprendi que cada continente tem sua própria vocação. Mesmo antes do primeiro sínodo africano, em 1994, eu já havia descoberto que a África é o continente da família. Isso é surpreendente, mas apesar dos danos causados à família e ainda que existam problemas, como existem em todos os lugares, a família, futuro da humanidade, parece ser a vocação da África. Ela tem aí um papel muito especial. Quando o Papa Bento XVI visitou o Benin em 2011, ele apontou essa realidade, que já havia se mostrado para São João Paulo II. O apoio à família tem sido meu lema durante todos esses anos. Fizemos um grande trabalho nesse sentido e continuamos a fazê-lo agora.

Há pessoas que foram particularmente influentes para você ao longo do caminho?

Sim, a mais importante foi São João Paulo II, que ao longo dos anos se tornou e permaneceu como o que você poderia chamar de meu “pai espiritual”. Sempre tentei entender e pôr em prática seu ponto de vista para a Igreja na África. Foi um privilégio poder participar do primeiro sínodo africano, em 1994. Eu era a única mulher da Europa. Havia cerca de 350 participantes: cardeais, bispos e padres, especialistas e ouvintes. Eu estava entre os ouvintes e passei um mês em Roma, para poder participar do sínodo. Um ano depois de começar a trabalhar para ACN; eu não poderia ter sonhado com um treinamento melhor.

Nesta ocasião, pude compartilhar um almoço com o Papa. Trocamos ideias, e foi algo muito especial.
O sínodo deu frutos e, dez anos depois, em 2004, organizei uma reunião em Roma com bispos da África e da Europa, buscando construir uma ponte entre os dois continentes. Nesta ocasião, o Papa João Paulo II proclamou o segundo sínodo africano. Eu também considero isso um presente.

Quais foram para você os melhores momentos?

Viajar definitivamente faz parte dos meus momentos mais maravilhosos. Minha primeira viagem levou-me à Tanzânia em 1994, a última para o Sudão, em março de 2020, pouco antes da pandemia de COVID-19 estourar. A situação lá mudou drasticamente: antes, você encontraria uma cabana iluminada por uma única vela; agora a eletricidade é fornecida por painéis solares. Conservei todos os diários com minhas anotações.

Por que viajar era importante para o seu trabalho?

Você não pode saber se um veículo ou reformas para um centro de catequese são necessários apenas lendo a proposta do projeto. Temos que ir lá e dar uma olhada ao redor para determinar o que é necessário. Posso dar um exemplo: há um ano, viajei para a Arquidiocese de Kananga, na província de Kasai, na República Democrática do Congo. La chegando descobri que as condições sanitárias nas instalações do banheiro do principal seminário eram inacreditáveis. Era horrível. Pensei comigo mesma: “Como pode ser que esses futuros padres tenham que viver em tais condições?”

Recebemos a proposta do projeto em março passado, mas, infelizmente, tivemos que recusar o projeto naquele momento porque não havia dinheiro disponível devido à crise do COVID-19. Há alguns dias, entretanto, concluí que tínhamos que rever nossa decisão. Isso só aconteceu porque fizemos uma visita ao local. Talvez eu nunca tivesse tomado essa decisão se não tivesse visto a situação com meus próprios olhos.

Você tem um “país favorito”?

Sim, eu diria que meu “país favorito” é a República Democrática do Congo. Pessoalmente, estou convencida de que este país tem um papel importante a desempenhar por causa de sua localização no coração do continente e por causa da alta porcentagem de católicos. As mulheres, por exemplo, têm um papel importante. Infelizmente, o país enfrenta o caos total por causa de seus recursos naturais. Há muito mais recursos de mineração aqui do que qualquer outro lugar do mundo e, por isso, muitos países, seus vizinhos e o Ocidente, estão muito interessados. Onde há recursos naturais, a guerra é infelizmente inevitável. Mas as pessoas de lá têm uma reserva inacreditável de coragem e energia.

Sua fé a ajudou a cumprir sua missão?

Certamente, porque senti profundamente que tudo o que propus, todas as iniciativas, não vieram de mim, mas do Espírito Santo, como por exemplo o encontro entre os bispos da África e da Europa. Isso não veio de mim. Na ACN, temos notado que os próprios bispos precisam de nossos cuidados. É fundamental ajudar os bispos para que eles possam ser melhores líderes para suas dioceses. Para fazer isso, temos que cuidar deles. Fizemos isso ao organizar alguns dias de retiro para toda a Conferência dos Bispos. Todos os que fizeram essa experiência ficaram entusiasmados com essa proposta. Como exemplo, todos os bispos do Magreb (Marrocos, Tunísia, Líbia) passaram um tempo juntos num mosteiro no Senegal. Esta foi a primeira vez para todos eles, e eles gostaram imensamente.

Do que você vai sentir mais falta quando se aposentar?

Mais do que tudo, de viajar aos locais para entender melhor a situação predominante e conhecer os projetos. Cada projeto é único. Nossos irmãos e irmãs de fé envolvem seu coração e alma ao escrever as propostas e esperam receber nossa ajuda. É por isso que eu sempre disse a eles: se você quer apresentar um pedido de projeto e convencer nossos benfeitores, imagine-se em uma sala com cem ou mais pessoas prontas para apoiá-lo. Você tem que explicar a eles suas expectativas, com todo o seu coração. É importante que os projetos realmente venham do coração para que possamos fortalecer constantemente essa ponte entre nós e nossos irmãos e irmãs na fé.

Considera seu trabalho uma “missão”?

Sim, com certeza! Claro, cada situação é única. Cada país tem sua própria realidade e necessidades especiais. Em princípio não estamos lá para dar apoio financeiro, mas para ouvir os bispos, os padres e as religiosas, para compartilhar a vida diária e descobrir exatamente o que precisam. Há, é claro, o momento em que temos que fornecer ajuda financeira, é claro que esse momento chega! Mas seria danoso para eles se falássemos apenas sobre aspectos financeiros. Há uma profunda comunhão entre nós e nossos irmãos e irmãs na fé. O que realizamos não é apenas trabalho, mas uma missão que o Senhor nos confiou para o crescimento da Igreja em todo o mundo.

A ACN e a ajuda na África

A África continua como um dos continentes prioritários para a ACN. Recentemente foi lançada uma campanha para ajudar religiosas que acolhem crianças subnutridas na República Democrática do Congo. Faça sua doação e ajude você também o continente da esperança!

Assista também ao testemunho da Irmã Anna Maria Wabenga, uma das religiosas que recebe auxílio da ACN para continuar sua missão na África.

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