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Cristãos na Terra Santa: presença diminui e futuro preocupa

Publicado em: maio 20th, 2026|Categorias: Notícias|Views: 19|

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Em um discurso dirigido a representantes da ACN, o abade beneditino Nikodemus Schnabel apresentou um relato direto sobre a realidade do povo cristão na Terra Santa, hoje frágil e em rápido declínio. Logo no início, ele destacou que a presença cristão na região contrasta com a imagem tradicional da Terra Santa como centro vibrante do cristianismo.

Além disso, ao falar aos diretores e representantes da ACN, Schnabel descreveu os cristãos como uma minoria “minúscula”, marcada pela guerra, por dificuldades econômicas, pela incerteza e por um êxodo constante. “Se você pensa que este é um Eldorado do cristianismo, a realidade é diferente”, afirmou.

“Todos os cristãos juntos são menos de 2%. Para nós, sonhar em chegar a 5% ou 6% já seria muito. Se você pensar nas regiões mais secularizadas da Europa, como a República Tcheca ou a antiga Alemanha Oriental, mesmo lá os cristãos são muitas vezes mais numerosos do que aqui”, disse. O abade também explicou que sua missão envolve locais ligados à Páscoa, como o Cenáculo e Tabgha, e usou esse contexto para mostrar uma Igreja rica espiritualmente, porém extremamente vulnerável.

Diversidade em Jerusalém e a fragilidade do povo cristão

O abade Nikodemus destacou que a realidade cristã em Jerusalém é profundamente plural. Atualmente, existem 13 Igrejas históricas, sendo seis católicas e sete não católicas. “É muito, muito colorida”, afirmou, ressaltando a variedade de tradições.

No entanto, essa diversidade pode enganar. Por trás dessa riqueza litúrgica e histórica, existe uma comunidade pequena e em constante redução. Por isso, o contraste entre tradição e realidade se torna cada vez mais evidente.

Além disso, a conferência episcopal da região, que inclui Chipre, Israel, Palestina e Jordânia, reúne 24 membros, o que mostra uma estrutura complexa. Mesmo assim, a presença cristã continua a diminuir. “O paradoxo é claro”, explicou. “O lugar onde ocorreram os acontecimentos mais importantes da nossa fé corre o risco de perder seus cristãos originários.”

Grupos que sustentam a presença cristã na região

Ao analisar a Igreja Latina, o abade identificou três grupos principais. O primeiro reúne católicos palestinos de língua árabe, presentes há séculos. Esse grupo inclui cidadãos israelenses, residentes de Jerusalém sem direitos políticos, cristãos da Cisjordânia com restrições de mobilidade e a pequena comunidade em Gaza.

Nesse contexto, ele descreveu Gaza como especialmente vulnerável, vivendo sob uma “dupla ocupação”: a pressão externa da guerra e do bloqueio, além da opressão interna do Hamas. Assim, a vida dos cristãos nesse território enfrenta desafios extremos.

O segundo grupo inclui católicos de língua hebraica, uma comunidade pequena, mas em crescimento. Já o terceiro grupo, o maior, reúne migrantes e solicitantes de asilo, que somam mais de 100 mil católicos. “Eles são, em muitos aspectos, os mais vulneráveis”, afirmou, ao descrever situações que classificou como “uma forma de escravidão moderna”.

Crise econômica acelera o êxodo cristão

Enquanto os migrantes lutam por dignidade, os cristãos locais enfrentam outro desafio: a sobrevivência econômica. Segundo o abade, cerca de 60% dos cristãos de língua árabe dependem do turismo.

No entanto, desde 2019, crises sucessivas afetaram o setor. Primeiro veio a pandemia; depois, conflitos e instabilidade reduziram drasticamente as peregrinações. Como resultado, muitas famílias perderam sua principal fonte de renda.

“Esse é o maior desafio”, afirmou. “As pessoas vão embora porque não veem futuro.” Diante disso, ele apontou duas prioridades: moradia e geração de empregos. Sem essas condições, o êxodo tende a continuar.

Igreja e a missão cristã em meio ao conflito

Em meio à crescente polarização, o abade reforçou uma posição clara: “Não somos nem pró-Israel nem pró-Palestina, mas pró-humano.” Segundo ele, essa postura reflete a realidade de uma Igreja presente em todos os lados.

Além disso, ele recordou os eventos de 7 de outubro de 2023, destacando cuidadores católicos que morreram ao se recusarem a abandonar idosos. “Eles se recusaram a fugir”, disse. “Permaneceram com aqueles que lhes foram confiados.”

Ele também mencionou uma missa fúnebre em que os fiéis rezaram primeiro pelas vítimas em Gaza e depois pela conversão dos responsáveis pela violência. “Rezar pelos seus inimigos — isso é o que significa ser cristão aqui”, afirmou.

Aumento de ataques e críticas ao extremismo

O abade também alertou para o aumento da hostilidade contra cristãos por parte de grupos extremistas. Entre os casos relatados, estão cusparadas, vandalismo, incêndios criminosos e pichações de ódio.

Segundo ele, esse fenômeno deixou de ser marginal. Por isso, Schnabel criticou setores ultranacionalistas e a atuação de figuras políticas que, segundo ele, permitem esse tipo de comportamento.

Ao mesmo tempo, ele destacou que essa postura não representa todos os judeus israelenses. Pelo contrário, existem grupos que defendem os cristãos e denunciam abusos. Além disso, ele criticou o chamado “sionismo cristão” quando usado para justificar violência ou ignorar o sofrimento palestino.

Risco de desaparecimento da presença cristã

Por fim, o testemunho do abade deixa um alerta forte. Embora pequena em número, a Igreja na Terra Santa possui grande relevância espiritual e social, sustentando escolas, hospitais e comunidades.

No entanto, sem a presença cristã viva em cidades como Jerusalém, Belém e Nazaré, os lugares santos correm o risco de se tornarem apenas símbolos vazios.

E, como ele mesmo recordou: “Não há Anunciação sem Nazaré, não há Natal sem Belém, não há Páscoa sem Jerusalém.”

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