O Cardeal vietnamita Van Thuân, que passou treze anos nas cadeias do regime comunista e suportou até ao fim dos seus dias uma terrível doença, é um “grande modelo para todos nós e, de forma muito específica, para os cristãos perseguidos”. Esta é a declaração do Padre Marco Luís, nomeado em fevereiro como vice-postulador da Causa de Beatificação e Canonização de Francisco Van Thuân.

Para o Padre Marco Luís é importante que todos conheçam a vida e o pensamento deste Cardeal declarado venerável pelo Papa Francisco em 2017. Para isso, uma equipe da vice-postulação entrevistou a antiga secretária do Cardeal e uma das responsáveis também pela causa de beatificação e canonização.

Nessa entrevista, Luísa Melo fala da sua experiência de trabalho e de vida junto do cardeal vietnamita, que teve início no ano de 1994 e se prolongou até o seu falecimento na clínica Pio XI, em Roma, em 16 de setembro de 2002.

Quem foi Van Thuân?

Van Thuân foi, nas palavras de Luísa Melo, um modelo pela forma como enfrentou todas as dificuldades da sua vida, desde a perseguição e prisão no Vietnã, até a expulsão do seu país e, por fim, a luta contra a doença.

“O venerável Van Thuân é para nós um exemplo em quem se inspirar. Desde jovem aceitou o sofrimento pela perda de alguns dos seus familiares; suportou a privação da liberdade por longo tempo; a tuberculose e outras doenças. Aguentou o duro e longo período da guerra no seu país; o exílio e, por fim, a terrível doença que o levou à morte.”

Luísa Melo lembrou ainda que o cardeal vietnamita “era amado por todos”, destacando o acolhimento que dispensava aos que o rodeavam e a capacidade em “escutar todos”.

A vida do Cardeal na prisão

O período de prisão a que esteve sujeito no Vietnã foi marcante para a sua vida. Ajuda, também, a perceber melhor a forma intensa e única como viveu a sua fé, mesmo nos momentos mais adversos. “O seu maior tormento interior era não poder celebrar a Eucaristia, mas Deus iluminou a sua mente, lhe concedendo esta graça, partilhada com os companheiros de prisão”, lembrou a antiga secretária de Van Thuân.

A chilena Luísa Melo conheceu, sobretudo, a luta de Van Thuân contra a doença. A memória que tem desses anos ajuda, agora, a iluminar o perfil deste cardeal cujo processo de beatificação está sendo analisado.

“O período dos últimos cinco meses da sua vida foi marcado por um sofrimento indescritível devido ao tipo de tumor tão insidioso como o coronavírus”, afirma a sua antiga secretária. Ela acrescenta que o cardeal foi sempre um paciente extraordinário, que “jamais se lamentava do seu sofrimento, porque afirmava que havia duas possibilidades, isto é: em primeiro lugar, se morresse, para ele seria um ganho, porque se sentia preparado. Se continuasse a viver, teria de continuar sofrendo, no entanto, teria continuado a trabalhar para a Igreja. Viveu todo o período da sua doença com a oração e, sobretudo, com a celebração eucarística diária, até que as suas forças o permitiram. No final, concelebrava e recebia a comunhão.”

Uma história de fé

O cardeal vietnamita Francisco Xavier Van Thuân nasceu a 17 de abril de 1928 no Vietnã e foi ordenado sacerdote em 1953. Após os estudos em Roma, foi reitor do Seminário Menor e depois Vigário-Geral na Diocese de Hué.

Em 24 de junho de 1967 foi sagrado bispo, tendo sido nomeado, em 23 de abril de 1975, Arcebispo Coadjutor de Saigon pelo Papa Paulo VI. Em 15 de agosto do mesmo ano foi preso, vindo a ser libertado apenas em 21 de novembro de 1988.

O processo de beatificação de Van Thuân

Após ser expulso do seu país, foi para Roma, onde foi nomeado vice-presidente e depois presidente do Conselho Pontifício Justiça e Paz, entre 1994 e 2002. No ano jubilar de 2000, por vontade do Papa João Paulo II, pregou os exercícios espirituais da Quaresma à Cúria Romana. Foi o primeiro bispo asiático a fazê-lo.

Em 2001, Francisco Xavier Van Thuân foi nomeado cardeal juntamente com o Cardeal Jorge Bergoglio. Após sofrer imensamente com um tumor, morreu na clínica Pio XI em Roma, às 18 horas do dia 16 de setembro de 2002, uma segunda-feira.

O processo para a sua beatificação foi aberto em Roma, em 2010, e o Papa Francisco o declarou venerável em maio de 2017.