versão para impressão

Testemunho de um padre no Chade: “Eu sou um filho da guerra”

24 de setembro de 2020

O Padre Léandre Mbaydeyo viveu a guerra ainda em sua infância. Ele é sacerdote da Diocese de N’Djaména, no Chade, África, e está atualmente estudando com ajuda da ACN. Na entrevista abaixo, ele fala sobre a situação de seu país, que este ano comemora 60 anos de independência.

ACN: O Chade encontra-se numa situação complicada e conflituosa, no seio da região do Sahel. Este fato tem impacto na vida cotidiana do povo chadiano?

Padre Léandre Mbaydeyo: Certamente que sim! Basta olhar para os nossos países vizinhos – Líbia, Sudão, República Centro-Africana, Camarões, Níger …. Todos eles estão passando por tempos turbulentos! Eu mesmo nasci longe da aldeia natal dos meus pais, pois eles tiveram que fugir por causa da guerra. E, portanto, sou um filho da guerra, e pode muito bem ser a guerra que acabará me matando.

O Chade é um país rico em diversidade; tem mais de 200 grupos étnicos e línguas diferentes. E há também um conflito ancestral e imemorial entre os pastores muçulmanos do Norte e os camponeses cristãos e animistas do Sul. Estes são conflitos recorrentes que o povo chadiano tem geralmente conseguido resolver na maioria dos casos. Mas, quando a política entra em cena, tudo se torna muito mais complicado e essas disputas degeneram em confrontos sangrentos. Cerca de metade do país é muçulmana, um terço é cristã e o restante professa religiões tradicionais.

No entanto, seu país parece ser mais estável do que a maioria de seus vizinhos. Como você explica isso?

Padre Léandre Mbaydeyo: Somos governados por um presidente (Idriss Deby Itno) que é um lutador. Ele governa o país há 30 anos e tem um exército poderoso. O exército chadiano, com o apoio da França, tem sido muito agressivo e eficaz contra grupos terroristas como o Boko Haram, e não hesita em atacar seus inimigos mesmo além de suas fronteiras.

O povo chadiano está muito consciente do potencial latente da violência; faz parte da nossa educação e do nosso estilo de vida. Vou dar um exemplo: quando cheguei a Paris para estudar, fui convidado a dar um passeio pela famosa Champs Elysées. Mas recusei, porque fica próximo ao palácio presidencial. No Chade, você deve evitar o palácio presidencial porque é um lugar muito perigoso, onde os guardas atirarão em qualquer coisa que se mova. Uma vez, uma freira italiana dirigiu acidentalmente com o carro em torno do muro do perímetro do palácio presidencial em d’Ndjamena. Ela percebeu e voltou rapidamente, mas os guardas ainda abriram fogo, estilhaçando seu para-brisa. Felizmente, ela teve a presença de espírito de se abaixar e, portanto, sobreviveu ao incidente…

Você teme um avanço de islâmicos radicais no Chade, como tem acontecido em outros países africanos do Sahel?

Padre Léandre Mbaydeyo: Já vimos tentativas de islamização, especialmente da Líbia de Muammar al Gaddafi. Antes de sua morte em 2011, eles estavam construindo mesquitas em todo o país, inclusive nas cidades cristãs do sul. Além disso, eles estavam incentivando os jovens muçulmanos a se casarem com mulheres cristãs para convertê-las e ter filhos que, por sua vez, se tornariam muçulmanos …. Mas, após a queda do regime líbio, esse fenômeno parou. No entanto, nos lugares onde cristãos e muçulmanos vivem lado a lado, ainda há pressão para se converter ao Islã. No mundo do trabalho, em particular, muitas vezes é mais fácil firmar contratos comerciais se você for muçulmano. Por outro lado, é muito difícil para um muçulmano se converter ao cristianismo, e aqueles que o fazem são frequentemente rejeitados por suas famílias.

Quanto ao terrorismo do tipo praticado por grupos como o Boko Haram, o governo está combatendo-o de forma eficaz em seu próprio território, com o apoio do exército francês. Consequentemente, é uma ameaça muito menos presente do que nos outros países vizinhos.
Pode-se dizer então que a situação dos cristãos no Chade é melhor do que nos países vizinhos?

Padre Léandre Mbaydeyo: Em grande parte sim, embora o governo não esteja a nosso favor e tenda a tentar minimizar a nossa importância. Por exemplo, os números oficiais para a quantidade de cristãos chadianos, publicados pelo nosso governo, se baseiam no censo de 1983. Eles querem fazer as pessoas pensarem que o Chade é um país muçulmano!

E qual é a situação da Igreja Católica no Chade?

Padre Léandre Mbaydeyo: A nossa Igreja ainda não tem 100 anos e, como o país no seu todo, é jovem e dinâmica, com muitos batismos. Por outro lado, faltam vocações sacerdotais. Para muitos rapazes, são muitos anos de estudo para pouco retorno. Os cristãos chadianos são geralmente descendentes dos animistas e existem boas relações entre os dois grupos. Para aqueles que veem o animismo com suspeita, precisamos resistir à tentação de tentar romper completamente com o passado. Muitos dos valores dos animistas são compatíveis com o Cristianismo.

A ACN e a ajuda para a África

A África é o continente mais ajudado pela ACN, não só com a formação de sacerdotes, mas também com ajuda para catequistas, para o transporte e até para manter as estruturas de ajuda da Igreja. Para que esse trabalho continue a ACN precisa da sua doação!

Leave A Comment