Padre Evaristo Debiasi:
nota de falecimento

É com muito pesar que a ACN comunica o falecimento do querido Padre Evaristo Debiasi no dia 11 de julho de 2020, aos 80 anos.

Padre Evaristo Debiasi foi o primeiro assistente eclesiástico da ACN Brasil, ajudando a moldar o que a Fundação Pontifícia é hoje no país.

Nossas orações encontram-se agora com a família, amigos e muitos que tinham tanta estima por este querido sacerdote.

Todos da ACN sentimos a dor da sua perda, mas também somos consolados, pois ele, agora, está nos braços do Pai, junto de quem ele buscou amar e demonstrar seu amor de misericórdia a vida inteira.

A ACN continuará com o legado do Padre Evaristo Debiasi, mantendo viva sua memória por meio dos artigos, vídeos e mensagens que ele gravou ao longo dos anos.

Homenagem

“Nada levamos dessa vida a não ser a vida que levamos”. Uma das frases mais faladas pelo Padre Evaristo Debiasi, que voltou para a Casa do Pai no dia 11 de julho. Os seus pensamentos e sua sabedoria nos farão muita falta, mas não mais do que a sua presença, seu afeto e seu amor que nos permitia sentir em cada atitude que Deus é amor.

O querido Padre Evaristo estava hospitalizado desde 2016, após uma complicação em uma cirurgia eletiva que o deixou em estado de consciência mínima. Ele foi cuidado com todo amor e carinho por seus familiares e amigos que, nestes mais de 4 anos de hospital e clínica, estiveram presentes todos os dias.

Diretamente ao coração de cada um

Para os que o conheceram, a falta da sua companhia alegre e brincalhona, do seu abraço apertado (muito apertado), o olhar penetrante e amoroso e a forma como escutava cada um faz uma falta irreparável. Um dos seus grandes carismas era o aconselhamento. As pessoas que tiveram a oportunidade de conversar com ele ao menos uma vez, não saíam da conversa apenas aliviadas por encontrarem soluções para seus dilemas pessoais e espirituais, saíam com a vida transformada. Mas também para aqueles que assistiam aos seus programas pela televisão sentiam como ele parecia falar diretamente ao coração de cada um.

O Padre Evaristo ajudou a brotar famílias, aproximava jovens que percebia que poderiam formar um casal, indicava com precisão quem tinha vocação para o matrimônio ou a vida religiosa; brincava com as crianças como se fosse uma delas; ouvia a todos sem nunca emitir um julgamento, de suas palavras brotavam apenas misericórdia, amor, doação e orientação.

Quando via alguém com algum problema, essa pessoa tornava-se sua prioridade imediata, adiando qualquer compromisso que houvesse. Suas conversas ajudavam uns a largar as drogas, outros a desistir do suicídio, muitos a encontrarem sua vocação e todos a encontrarem-se com Deus.

Um coração inquieto

O Padre Evaristo foi moldado por Deus em sua história. Ainda na juventude tinha um coração inquieto que o fez estudar medicina e pensar em constituir família, mas, em meio a tudo isso, passou por um grande vazio interno. Em um momento muito difícil de sua juventude foi ouvido pelo Padre João Mohana, um encontro que o encheu de sentido e despertou nele a vocação ao sacerdócio.

A mesma voz mansa e carinhosa que falava sobre como Deus nos ama se transformava em enérgica quando denunciava as injustiças do mundo e, particularmente, se alterava quando tocava no genocídio do aborto e todo o mal decorrente para uma família. Aliás, dizia sempre, “a família é a estrutura do universo”, e em seguida discorria sobre o assunto com seus estudos. Reconciliava pais e filhos lembrando que “o mínimo que nossos pais nos deram já é a vida”. Repudiava qualquer ato que pudesse tirar a vida ou ferir alguém, mas procurando sempre a raiz de um problema para vislumbrar a solução: “a violência é a expressão de um coração subnutrido”.

Ele falava com a autoridade de quem vivia o Evangelho diariamente em sua vida, sempre lendo o Palavra do dia seguinte na noite anterior, para que a Palavra de Deus pudesse “penetrar em seu sono”. Mas também falava com a autoridade de um acadêmico, licenciado em filosofia, pedagogia, teologia, psicologia, além de mestre em teologia dogmática. Talvez por isso mesmo suas palestras e retiros atraíam e encantavam não apenas católicos, mas até mesmo pessoas que não tinham crença alguma. Foi professor nas Universidades Federais de Curitiba e Florianópolis, além do Instituto Teológico Studium. Das suas salas de aulas saíram mais de 50 bispos, entre eles os cardeais Braz Aviz e Odilo Scherer.

A vida de oração

Bastava conhecê-lo por um breve momento para já sentir saudades dele no instante seguinte, tão profundo era o encontro com cada um. Ao perceber seu olhar acolhendo cada história – muitas vezes histórias de sofrimento – ele parecia sofrer mais pela dor do que o próprio interlocutor. E, ao terminar um encontro com alguém que muito provavelmente não encontraria tão cedo, confortava com seu sotaque particular de quem nasceu em Orleans, Santa Catarina: “olha, no meu próximo programa de televisão, preste atenção, darei uma piscada para ti, estou rezando por ti”. E ele rezava muito, dizia que “não existe nada mais forte que alguém de joelhos”. Quando ele não era encontrado em sua sala de trabalho ou atendendo alguém, bastava fazer uma visita à capela e lá estava ele, rezando, sempre rezando. Parecia ter alcançado aquela intimidade com Deus que tanto buscamos.

Ser um missionário

Padre Debiasi teve em seu coração a vontade de ser missionário mesmo durante os seus estudos no seminário. Mas, ao ser ordenado em 23 de julho de 1967, foi incumbido pouco tempo depois de ser reitor do seminário. Ele dizia que argumentou com o bispo na época: “eu, jovem, na casa dos meus 30 anos, dizia que queria fazer o mesmo que Jesus, sair evangelizando. Mas o bispo respondeu: ‘e o que você acha que Jesus fez a maior parte do tempo? Ficou com seus discípulos!’” Disse que a partir daí encontrou a alegria em ajudar na formação.

Deus não o deixou o Padre Debiasi sem uma resposta para o seu coração missionário. Em cada férias ele se dedicava a uma missão: foi para a Amazônia, África, Rússia, Europa…, era difícil encontrar no mapa um país que ele não tinha visitado. Se encantou pelo ser humano conseguindo enxergar os sinais de Deus em cada cultura.

Todo o conhecimento que ele adquiriu nunca o afastou da simplicidade, do olhar deslumbrado da vida. Dizia como mudou sua forma de rezar desde que encontrara com uma senhora bem simples no sertão do nordeste. Ao final da celebração essa senhora o procurou e disse: “o senhor falou tão bonito, me ensina a rezar pois eu não sei, eu tento rezar, mas as palavras não aparecerem, aí fico esperando por horas pensando em Deus”. Ele disse que olhou para ela e respondeu: “filha, eu busco rezar como você a minha vida inteira”.

Padre Evaristo Debiasi e a ACN

Foi também com o coração missionário que Deus o colocou no caminho da ACN. O Padre Evaristo Debiasi foi o primeiro assistente eclesiástico da Fundação Pontifícia no Brasil. Embora a ajuda da ACN já chegasse ao país desde a década de 60, foi em 1997 que a ACN passou a ter um escritório no país. O Padre Debiasi despertou os primeiros benfeitores e foi por intermédio dele que a grande maioria conheceu a ACN. No Brasil, ele tornou-se um porta-voz dos cristãos perseguidos ou que não podiam viver sua fé por conta da miséria. Inspirou e pregou retiros para os assistentes eclesiásticos da ACN de outros países.

Certa vez, ele estava em Roma com os assistentes eclesiásticos da ACN dos demais países. Ao final do encontro, todos eles participaram da Missa na capela pessoal do Papa João Paulo II. Pediram ao Padre Debiasi que proclamasse o Evangelho e, durante a leitura, o Papa João Paulo II – já em idade avançada – levantou o semblante e ficou olhando atentamente para ele. Ao final da proclamação o Papa João Paulo II disse em latim: “Bono vox, bono vox” (boa voz, boa voz). De fato, sua voz sempre chamou a atenção. Em um outro encontro estava o Cardeal Castrillón Hoyos que, após ouvir o Padre Debiasi, pediu o microfone gerando um silêncio apreensivo no público. Em seguida disse: “preciso lhe falar uma coisa, eu nunca ouvi uma voz masculina tão agradável em toda a minha vida”.

“Somos feitos das pessoas que conhecemos”

Foi profundamente preocupado em defender as mulheres, algo que brotava do seu amor por Maria e também do amor por seus pais (Sílvio e Dorvalina Debiasi), que ele dizia serem o exemplo para sua vida de oração. Quem pôde ouvi-lo falar sobre Maria ou se deteve sobre algum de seus textos marianos sabe bem o que é.
Ele dizia que “somos feitos das pessoas que conhecemos”. E ele pôde conhecer muita gente. Teve conversas com o Papa João XXIII, João Paulo II, Madre Teresa de Calcutá, Doutor Victor Frankl e tantos outros. Pôde conversar diversas vezes com o fundador da ACN, o Padre Werenfried van Straaten. Conheceu tantas pessoas e sempre se encantava quando conhecia um coração simples. Celebrava diariamente pelos benfeitores da ACN. Quando os encontrava em retiros ou outros eventos, ficava até o último momento, mantendo a força do abraço para cada um.

“Faça o bem e você viverá bem”

Uma vida entregue ao próximo. Um amor de misericórdia em cada gesto. Fica a saudade até a eternidade, mas também o consolo que, agora, ele encontra-se com quem ele buscou amar a vida inteira. A ACN Brasil está comprometida em manter o legado do Padre Evaristo Debiasi, seja por meio dos seus artigos, escritos e os vídeos gravados por ele.

As palavras que ele tanto usava para consolar as pessoas agora utilizamos para nos consolar: “não somos donos de ninguém, nem de quem mais amamos; ame no agora, a vida é passageira; não adie para amanhã o bem que você pode fazer hoje, para que no último momento de sua vida possa dizer: eu busquei amar, eu busquei ser amor. Enfim, faça o bem e você viverá bem”.

Nós, da ACN Brasil, agradecemos a Deus por todo o amor manifestado na vida deste sacerdote maravilhoso que nos inspirou e continuará inspirando com seu legado.

Obrigado Padre Evaristo Debiasi