Aproveitemos esta prova como uma oportunidade para preparar o amanhã de todos, sem descartar ninguém. De todos. Porque, sem uma visão de conjunto, não haverá futuro para ninguém. – Papa Francisco, Domingo da Misericórdia, 19 de abril de 2020

Desde o surto da pandemia do coronavírus, estamos presenciando uma crise existencial no mundo inteiro. Ainda não existe vacina e vamos continuar sofrendo as consequências econômicas e sociais desta crise ainda por muito tempo. Mas a humanidade tem uma capacidade espantosa de lidar com situações difíceis – se for sustentada pela fé de que há uma razão em tudo isso. Porque se, em última instância, tudo isso não fizer sentido, a quem poderia importar o fato de que pessoas morram miseravelmente de um vírus em um lugar qualquer de um pequeno planeta? Que sentido podemos nós contrapor ao vírus e à morte em massa?

Já se vislumbra um sentido diante da grande solidariedade e adesão com que as pessoas cumprem as medidas de proteção, se preocupam com os mais fracos, apoiam os profissionais da saúde e cultivam um intenso contato com a família e os amigos. No entanto, quanto mais tempo durar a situação de emergência e sentirmos os seus efeitos, tanto mais profundamente teremos de chegar à razão desse sentido. É em tempos de crise que se revela a verdadeira face da humanidade, que é o amor ao próximo. O homem pode tanto ser um santo como um mau-caráter.

“Sem lugar na hospedaria”

Também a ACN surgiu em uma situação de necessidade mundial. Após a Segunda Guerra Mundial, cujo preço foi de mais de 50 milhões de vítimas e que arruinou completamente a economia de muitos países, contudo, o Padre Werenfried teve a coragem de conclamar as pessoas ao amor heroico pelo próximo e pelo inimigo. Ele teve a coragem de pedir das pessoas grandes sacrifícios, na convicção de que “o homem é melhor do que a gente pensa”. Ele falou do “sofrimento de Cristo”, que tomou sobre si as nossas dores e agora continua sofrendo a sua paixão redentora nos necessitados, nos sofredores e nos perseguidos.

No seu famoso artigo de jornal “Sem lugar na hospedaria”, que é considerado o nascimento da nossa Obra, ele alertava para o endurecimento do coração. “Vocês ainda se lembram (…) como, durante a guerra, o amável empregado de escritório e o pequeno burguês, se transformavam em bestas? Como já não havia mais decência e se lutava impiedosamente apenas pelo próprio eu? Era: cada um por si! (…) Muitos de nós têm agora um certo conforto; estamos passando bem (…) e, apesar da escassez devida ao período do pós-guerra, não nos falta realmente muita coisa. Mas recordemos que lá fora Cristo chora em todos aqueles a quem Ele chamou de ‘o menor dos seus’, e em cuja miséria ele esconde o seu rosto divino-humano.”

Caros amigos, com a mesma fé que marcou o início da nossa Obra e apesar de todas as dificuldades, ousamos continuar pedindo ajuda para todos aqueles que já sofriam, mesmo antes do coronavírus.

Pe. Martin M. Barta
Assistente Eclesiástico Internacional