//Síria vive situação dramática após 8 anos de conflitos

Síria vive situação dramática após 8 anos de conflitos

2018-09-21T17:03:21+00:00setembro 20th, 2018|Notícias|

Guerra da Síria: “a tragédia mais cruel da história desde a Segunda Guerra Mundial”.

Sob a liderança do arcebispo maronita Samir Nassar, de Damasco, e com o apoio da Fundação Pontifícia ACN, uma delegação da Comissão da Família da Conferência Episcopal da Síria (1)  pôde participar do Encontro Mundial das Famílias, em Dublin, de 21 a 26 de agosto.

Aproveitando a ocasião, Maria Lozano e Pierre Macqueron entrevistaram membros da delegação sobre a situação do país. Os participantes descrevem as dificuldades enfrentadas pelas famílias sírias; dispersas, abatidas e traumatizadas após oito anos de conflitos. Eles também afirmam que a guerra da Síria é “a tragédia mais cruel da história desde a Segunda Guerra Mundial”.

Qual é a situação na Síria no presente momento?

Arcebispo Samir Nassar: O que está acontecendo na Síria é uma guerra internacional, não é apenas um conflito local; na verdade 85 países estão envolvidos nesta guerra! É a crise mais brutal da história desde a Segunda Guerra Mundial. Desde abril, entretanto, começamos a observar um certo retorno à paz. Bombas não estão mais caindo em Damasco. O problema? Nossos jovens estão fugindo do país desde 2015, e agora esperamos que eles voltem. Estamos fazendo tudo o que podemos para ajudar aqueles que ficaram, inclusive as famílias, cuja maioria foi separada. De fato, nossa missão é auxiliar as pessoas a permanecerem e apoiar aquelas que saíram do país a voltarem para junto de suas famílias. No entanto, ainda há muito a ser feito para reconstruir o país após oito anos de guerra.

Irmã Jihane Elaoudatallah: Nós passamos por alguns momentos extremamente difíceis. Há alguns meses, caiu uma bomba na escola que coordeno em Damasco, matando uma de nossas professoras. Outra bomba caiu nos terrenos da escola, mas felizmente não feriu ninguém. Mais tarde, uma bomba matou uma das crianças e feriu outra gravemente – com o acidente, sua perna teve de ser amputada. Além disso, as crianças ficaram profundamente traumatizadas e não queriam mais ir à escola. Para eles, ir à escola significava morrer.

Tivemos que passar por um longo processo de reconciliação para superar essa barreira psicológica. Assim, organizamos exercícios espirituais em um lugar remoto e tranquilo para aquelas famílias que passaram por situações realmente traumáticas. Ademais, um padre jesuíta falou-lhes sobre a vida cristã, sobre como viver o medo com as crianças. Além disso, estudamos a Encíclica Laudato Si. Por fim, as famílias que participaram do encontro nos pediram para organizar essas reuniões regularmente; temos assim uma reunião todos os meses para rezar, refletir e também comer e relaxar juntos.

Jean-Pierre Bingly: Todas as famílias, sejam elas muçulmanas, drusas ou cristãs, foram igualmente afetadas pela guerra e têm que enfrentar os mesmos problemas. Seus filhos morreram na guerra ou emigraram. Desse modo, temos agora que reconstruir nossas famílias e fazer o que pudermos para melhorar as coisas.

Padre Raymond Girgis: Acho que podemos dizer que a situação agora é de normalidade e paz em Damasco. A Igreja reestabeleceu seu trabalho pastoral cotidiano. Em nosso próprio mosteiro, temos 230 crianças recebendo catequese; além disso, temos a casa de repouso para idosos e a Igreja continua auxiliando material e espiritualmente. Ao longo de todo esse tempo de guerra, além de ajudar os doentes e os pobres, continuamos apoiando o povo; sobretudo por meio de nosso trabalho no apostolado da família e da orientação espiritual.

Encontro Mundial das Famílias em Dublin (2018)

Membros da delegação da Comissão da Família da Conferência Episcopal da Síria são convidados pela ACN a participar do Encontro Mundial das Famílias (WMOF), em Dublin.

Há possibilidade de retorno para os refugiados sírios?

Arcebispo Samir Nassar: Durante anos, a Síria foi um local de refúgio; sobretudo para os armênios na década de 1920, os assírios, curdos, libaneses e iraquianos. No entanto, refugiados sírios não foram bem recebidos em muitas partes do mundo. Afinal são muitos, numerosos. Ninguém quer recebê-los. No entanto agora, retornar à Síria também é complicado, sobretudo por razões econômicas.

Padre Raymond Girgis: Muitas famílias estão pensando em voltar, especialmente as famílias cristãs. O modo como essas famílias foram separadas é uma ferida na Igreja. Isso para não falar de todos os problemas psicológicos que a guerra deixou e que nós; mas como Igreja, teremos a tarefa de curar.

Irmã Jihane Elaoudatallah: Além disso, com suas casas demolidas, para onde elas podem voltar? Como você volta para uma casa bombardeada? O desejo de retornar não é suficiente por si só.

Marie Nasrallah: E ainda mais agora, que com a desvalorização da moeda é ainda mais difícil voltar para a Síria. Os gastos básicos tornaram-se muito altos.

O bloqueio econômico na Síria dificulta o retorno do povo sírio?

Arcebispo Samir Nassar: Estamos enfrentando graves problemas econômicos, porque o valor de nossa moeda caiu. Antes da guerra, um dólar americano equivalia a 50 libras sírias; porém agora é equivalente a 515! Embora os salários das pessoas sejam os mesmos de antes, os sírios que vivem no exterior poderiam nos ajudar; no entanto, isso não é possível devido às sanções ocidentais. Essas medidas foram tomadas contra o governo sírio, porém só causam sofrimento aos pobres; ou seja, enquanto os membros do governo têm outras fontes de renda, aqueles que estão realmente pagando as consequências são os mais pobres.

Irmã Jihane Elaoudatallah: Essa situação só agrava o sofrimento do povo, que já foi disperso e humilhado. E humilhado justamente por ter que pedir ajuda; sobretudo agora que as sanções tornaram ainda mais difícil consegui-la. Portanto, especialmente para as famílias, o peso que isso lhes impõe na criação de seus filhos é enorme.

Padre Raymond Girgis: As sanções não estão trazendo nenhum resultado positivo. Afinal, faltam medicamentos na Síria, sendo quase impossível obtê-los. De fato, essas medidas não visam salvar as pessoas; simplesmente as condenam a continuar vivendo como em uma prisão.

Uma última palavra?

Arcebispo Samir Nassar: Quando o Papa Francisco fala sobre o nosso país, ele fala de “nossa amada Síria”. Ele conhece a Síria, porque existe uma grande comunidade de emigrantes sírios na Argentina. Portanto, a Comissão da Família da Conferência Episcopal Síria gostaria de agradecer à Fundação Pontifícia ACN; nos ajudaram muito nos últimos anos – apoiando as famílias necessitadas, fornecendo remédios aos doentes e auxiliando o nosso trabalho pastoral. No entanto, precisamos ainda de recursos financeiros para reformar nossas casas bombardeadas. A finalidade é  de que possamos reconstruir nosso país.

Desde o início do conflito, a ACN apoia projetos de emergência para famílias cristãs na Síria. Atualmente, a fundação está preparando uma nova campanha para ajudar a reconstrução do país e o retorno dos refugiados nos próximos meses.

Encontro Mundial das Famílias em Dublin (2018)

Membros da delegação da Comissão da Família da Conferência Episcopal da Síria: à esquerda Arcebispo Samir Nassar, arcebispo maronita de Damasco; no centro o Padre Raymond Girgis, franciscano superior do Mosteiro da Conversão de São Paulo em Tabbaleh, em Damasco; à direita Irmã Jihane Elaoudatallah, da Congregação das Irmãs da Caridade

(1) Membros da delegação da Comissão da Família da Conferência Episcopal da Síria: Arcebispo Samir Nassar, arcebispo maronita de Damasco; Padre Raymond Girgis, franciscano superior do Mosteiro da Conversão de São Paulo em Tabbaleh, em Damasco; Irmã Jihane Elaoudatallah, da Congregação das Irmãs da Caridade; e o casal, Jean-Pierre Bingly e Marie Nasrallah, que com 24 de matrimônio também são membros da Comissão da Família.

 

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