//Nepal: uma pequena comunidade como nos tempos dos Apóstolos

Nepal: uma pequena comunidade como nos tempos dos Apóstolos

2018-05-11T17:32:02+00:00 Maio 26th, 2017|Notícias|

Johannes Heereman, presidente executivo da ACN Internacional – Ajuda à Igreja que Sofre – e Véronique Vogel, responsável pelo departamento de projetos para a Ásia, retornaram recentemente de uma viagem ao antigo Reino Hindu e falaram com a jornalista Maria Lozano sobre xamãs*, curas e o impressionante testemunho da pequena comunidade católica no Nepal.

 

Maria Lozano: Para nós europeus, o Nepal é um país bem exótico e conhecido sobretudo pelas exuberantes montanhas. Quais foram as suas impressões?

É uma terra dos extremos: Himalaia e planícies, leitos de rios secos e torrentes furiosas, distritos modernos e aldeias “medievais”, bangalôs e cabanas de palha, acadêmicos e analfabetos. Mas em todos os lugares encontramos pessoas amigas e agradáveis.

Há algumas semanas fez 1 ano do devastador terremoto no Nepal. Ainda se podem ver sinais de destruição e devastação?

Os sinais ainda são encontrados em muitos lugares, como em várias casas completamente destruídas. Nos distritos mais pobres, as pessoas estão vivendo em prédios quase abandonados que parecem que vão desmoronar com a próxima ventania. Mas, de algum modo, essas casas ainda estão sendo sustentadas pelas estruturas de janelas e portas. Algumas famílias, com crianças pequenas, estão ainda “vivendo” em tendas numa praça asfaltada no centro de Katmandu. Melhor não imaginar onde e como estão conseguindo cozinhar ou fazer suas necessidades fisiológicas.

 

Crianças na Casa de Missão de Amgachhi
Crianças na Casa de Missão de Amgachhi

 

De acordo com o Relatório de Liberdade Religiosa, publicado pela ACN em novembro de 2016, há apenas 8 mil católicos no Vicariato Apostólico do Nepal. Como foi o encontro com essa pequena minoria?

Profundamente emocionante. É uma igreja missionária. Religiosas e sacerdotes vivem geralmente em condições das mais simples possíveis, em aldeias de maioria hindu. Com sua presença, dão testemunho do amor de Deus. Os jesuítas dirigem grandes centros escolares. Os alunos chegam a andar até 2 horas por dia para frequentar as aulas, na esperança de se formarem e logo poderem participar do desenvolvimento do país. O número de fiéis é bem reduzido, mas está crescendo.

Religiosa na Casa de Missão de Amgachhi
Religiosa na Casa de Missão de Amgachhi

O que foi que mais lhes impressionou?

A vida de três religiosas que vivem em uma cabana de palha, atendem os doentes e ensinam as crianças. O testemunho de um sacerdote que estudou em Roma e hoje desempenha um cargo administrativo dentro do Vicariato Apostólico foi também muito emocionante: por três anos viveu em uma aldeia de difícil acesso – praticamente inacessível durante a época de chuvas – somente para cuidar de um pequeno número de famílias católicas que viviam ali e para libertar algumas outras pessoas dos seus medos de supostos espíritos malignos.

Para vocês, qual foi o momento mais bonito dessa visita?

O testemunho de um ex-xamã: ele explicou como se converteu ao catolicismo depois de ter sentido o poder da oração quando foi em uma celebração católica. Desde então, ele converteu sua própria aldeia, bem como várias aldeias vizinhas, ao cristianismo. Quando perguntávamos por que os antigos hindus se converteram ao catolicismo, ele respondeu como se fosse uma questão natural: por causa das muitas curas. Outros catequistas, que pregam o evangelho nas aldeias, solucionam disputas familiares e oram com o povo com relação às suas diversas dificuldades, também mencionaram as curas como uma razão das conversões. Enquanto falavam, às vezes nos sentíamos como se estivéssemos de volta nos tempos dos Atos dos Apóstolos. É incrível ver que, em meio a tanta pobreza, uma poluição atmosférica inimaginável, a situação terrível das rodovias, a difícil condição de vida para a maioria das pessoas que têm que trabalhar de forma muito pesada fisicamente, o povo é surpreendentemente amigável e receptivo.

Um pouco depois dessa viagem, no dia 18 de abril, houve um incêndio criminoso que causou danos à reitoria da Igreja da Assunção, a Catedral do Vicariato Apostólico do Nepal, situada nos arredores da capital Katmandu. Enquanto estavam lá, ouviram falar de discriminação contra cristãos no país? Tiveram a impressão de que os cristãos têm dificuldades no Nepal?

A notícia do incêndio nos chocou. A Catedral foi um centro da Igreja Católica no Nepal que nos deixou uma marca especial. Ela irradiava um profundo sentimento de paz. Anos atrás, hindus radicais tinham explodido uma bomba ali, causando seis mortes. Este ano, a igreja já estava reformada. Infelizmente, fanáticos políticos e religiosos estão espalhando medo e terror entre um povo que ama a paz. No entanto, nos disseram repetidamente, que, em geral, os cristãos, os animistas, os hindus, os budistas e os poucos muçulmanos coexistem pacificamente. Esses últimos, todavia, muito claramente se desvinculam dos outros grupos e não são receptivos às iniciativas inter-religiosas. As tribos animistas, por outro lado, são muito abertas à fé cristã.

Qual o trabalho da ACN no Nepal? Como se ajuda a minoria católica local?

Uma vez que a maioria dos católicos vivem na parte oriental do país, grande parte da nossa ajuda vai para essa região. Depois do terremoto, enviamos ajuda financeira imediata ao vicariato. Além disso, apoiamos as pequenas comunidades católicas com muitos outros pequenos projetos como, por exemplo, a compra de veículo para realizar o trabalho pastoral. O vicariato se estende por todo o país! Assim, visitas pastorais exigem muito tempo e longas viagens de carro.

 

Estrada de terra no leste do Nepal
Estrada de terra no leste do Nepal.

 

Vale a pena mencionar também que um centro de literatura cristã está sendo criado. Este centro usará um sistema de empréstimo para garantir que as famílias católicas em todo o distrito tenham acesso a Bíblias, catecismos e livros de oração. Desse modo, os católicos e outras pessoas interessadas terão a oportunidade de ter contato com os livros religiosos cristãos.

Finalmente, há os subsídios para os sacerdotes, uma importante fonte de apoio. A maioria dos católicos são muito pobres e só recentemente chegaram à fé. Eles, portanto, além de não possuírem muitos recursos, tampouco estão acostumados a ajudar financeiramente os seus sacerdotes.

Que projetos ainda gostariam de apoiar futuramente no Nepal após as impressões dessa viagem?

Como dissemos, vimos na viagem a grande importância do trabalho das religiosas para a população. Vimos também o estado deplorável de suas dependências. Como uma resposta concreta, desejamos ajudar na construção de um novo convento para uma pequena comunidade de religiosas no leste do Nepal. Também nos dará muita alegria ajudar na participação de um grupo de jovens nepaleses católicos na Jornada Asiática da Juventude (Asia Worth Day), que acontecerá entre os dias 30 de julho e 9 de agosto de 2017 em Yogyakarta (Indonésia). Uma pequena comunidade ganha força a partir de encontros como esses.


*Xamã: Indivíduo que se considera ter poderes especiais, em geral mágicos, curativos ou divinatórios, especialmente em comunidades xamanistas – Fonte: Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

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