O Paquistão é um país com quase 200 milhões de habitantes, sendo 95% muçulmanos. Os cristãos são apenas 2% da população. Nesta minoria, encontra-se o Cardeal Joseph Coutts, Arcebispo de Carachi, que visita o Brasil pela primeira vez a convite da ACN (Ajuda à Igreja que Sofre). O Cardeal Coutts participou nesta terça-feira, 7 de maio, da Assembleia Geral da CNBB, onde falou sobre a realidade dos cristãos no Paquistão, abordando aspectos sobre preconceito e intolerância religiosa.

LEI DA BLASFÊMIA

O maior problema enfrentado pelas minorias é a chamada Lei da Blasfêmia, introduzida no Paquistão em 1986. De acordo com a lei, aquele que falar contra o profeta Maomé, ou manchar seu nome por escrito ou de qualquer outra forma, será sentenciado à morte. Esta lei também diz que se alguém corromper o Alcorão, ele deverá ser condenado à prisão perpétua.

“O problema da Lei da Blasfêmia é inerente a nossa sociedade, que ainda não está preparada para administrar adequadamente o fator religioso. Embora esta lei tenha a intenção de proteger a honra do Profeta Maomé e do Livro Sagrado, ela pode ser facilmente usada de maneira imprópria. É muito fácil para um muçulmano acusar alguém de blasfêmia. Em muitos casos, trata-se de uma acusação infundada, mas o acusador usa a Lei da Blasfêmia como meio de vingança por motivos pessoais”, diz o Cardeal Joseph Coutts.

Muitos erros aconteceram por conta da má interpretação da lei, como o massacre de Gojra, em 2009, quando crianças fizeram confetes com páginas de jornais onde havia versos do Alcorão. Por conta disso, uma multidão atacou um bairro cristão e incendiou cerca de 100 casas, deixando oito pessoas mortas.

Até Salmaan Taseer, governador de Punjab, a província mais poderosa do Paquistão, foi morto como consequencia da Lei da Blasfêmia. Ele visitou Asia Bibi na prisão – uma mulher cristã acusada por extremistas de contaminar um copo de água ao beber nele – e orientou a escrever ao presidente do país pedindo que lhe concedesse o perdão. O governador foi assassinado na capital Islamabad, porque os fanáticos o acusaram de ser um muçulmano ruim, pois ninguém pode perdoar um insulto ao Profeta.

DISCRIMINAÇÃO

De acordo com a constituição paquistanesa, a liberdade religiosa é reconhecida, embora os altos cargos do Estado só estão disponíveis aos muçulmanos. Segundo o Cardeal Coutts, “sempre houve discriminação contra os não muçulmanos, especialmente quando se trata de encontrar um emprego ou obter promoções. Além disso, os não muçulmanos são descritos negativamente em livros didáticos nas escolas. Os alunos não muçulmanos sofrem assédio de campanhas escolares com o tema: ‘‘Convide um amigo seu não muçulmano para se converter ao Islã”, e completa “no sistema islâmico tradicional, um não muçulmano deve pagar um imposto especial ao estado e se tornar uma pessoa protegida pelo estado e isto influencia a forma como um muçulmano olha para um não muçulmano”, diz.

CONVERSÕES E CASAMENTOS FORÇADOS

Outro problema que o governo é incapaz de impedir é o sequestro e conversões forçadas ao Islã de meninas cristãs e hindus que são forçadas a se casar com seus captores. “É muito difícil fazer algo contra esse crime, porque os muçulmanos têm permissão para ter até quatro esposas e assim, uma vez raptada, a pobre garota é obrigada a se casar. Quando a família relata seu sequestro a polícia, a garota é convocada a um juiz. Mas seu sequestrador a obriga a declarar que se converteu e casou espontaneamente, sob a ameaça de prejudicar sua família”, informa Dom Joseph Coutts.

O PERIGO DO EXTREMISMO

Para lutar contra o comunismo depois que o exército da União Soviética entrou no Afeganistão, em 1979, muitos jovens muçulmanos foram treinados para combater uma guerra jihad (santa) contra os kefir (infiéis) que haviam ocupado suas terras. Esta política foi apoiada e financiada pelos Estados Unidos e a Arábia Saudita. Quando o exército soviético foi finalmente derrotado e expulso com ajuda americana, os próprios combatentes se voltaram contra as forças da Otan, que também foram consideradas infiéis. Como as forças da Otan vêm principalmente do Ocidente, eles são vistos como cristãos atacando um país muçulmano, o Afeganistão, e também o Iraque.

“Os extremistas querem que o Paquistão se torne um estado puramente islâmico e não hesitam em usar homens-bomba para atacar e matar quem quiserem. Eles repesentam uma ameaça real para os cristãos, pois consideram infiéis, que compartilham a mesma fé que as forças que ocuparam o Afeganistão, um país puramente muçulmano. Diversos Imãs em seus sermões afirmam que o tempo das cruzadas ainda não chegou ao fim e que hoje o Ocidente encontrou apenas uma maneira diferente de atacar nações islâmicas”, relata o Cardeal Joseph Coutts.

Tudo isso dá uma imagem negativa e sombria do Paquistão à luz do aumento da intolerância e da violência. “Somos uma pequena minoria, mas não somos uma Igreja oculta ou silenciosa. A própria absolvição de Asia Bibi e a maneira como o governo conseguiu lidar com os numerosos protestos que se seguiram à decisão da Suprema Corte são fatores positivos. Nossa Igreja administra muitas escolas, hospitais e iniciativas de caridade. Somos uma minoria, mas muito ativa, que está contribuindo para o desenvolvimento do Paquistão”, enfatiza o Cardeal.