A situação na Síria continua instável quase dois anos após a queda de Bashar al-Assad e a chegada ao poder do presidente Ahmed al-Sharaa. Durante uma recente visita à Espanha, o padre Fadi Azar, franciscano da Custódia da Terra Santa, natural da Síria e atualmente em missão em Aleppo, falou à ACN sobre a realidade que a comunidade cristã enfrenta no país.
Qual é a situação atual na Síria? Como é o cotidiano da comunidade cristã, das famílias e dos jovens?
A pobreza generalizada, provocada pela grave situação econômica e pela inflação, levou ao aumento da criminalidade. Muitas pessoas perderam seus empregos porque o atual governo demitiu todos os funcionários públicos e membros das forças armadas que serviram sob Assad. Por isso, muitos jovens, incluindo pais e mães de família, estão desempregados.
A insegurança aumentou muito, e temos visto um crescimento dos sequestros e dos saques cometidos por grupos criminosos. Um exemplo disso é que as pessoas costumavam deixar as portas de suas casas destrancadas. Agora, porém, reforçaram a segurança de suas residências, porque até os medidores de eletricidade e de água estão sendo roubados.
Além disso, registramos alguns casos de agressão contra a comunidade cristã, como o ataque de 2025 à Igreja Ortodoxa de Santo Elias, em Damasco. Isso provocou um aumento do medo entre os cristãos.
Qual é a situação dos cristãos? A que tipo de pressão eles estão submetidos?
Houve outros episódios de ataques e agressões, embora não tão graves quanto o ocorrido na Igreja de Santo Elias. Temos visto, porém, a vandalização de cemitérios cristãos e pichações contra os cristãos nas paredes de várias igrejas.
Também temos registrado casos de grupos muçulmanos radicais que enviam carros com alto-falantes para diferentes regiões, convocando os cristãos a se converterem ao islamismo.
Como esse tipo de discriminação afeta os jovens?
Algumas pessoas perderam seus empregos simplesmente por serem cristãs ou não conseguiram avançar profissionalmente por motivos de discriminação. Elas também são profundamente afetadas pela insegurança, pela situação econômica e pelo aumento da discriminação, porque isso faz com que o futuro pareça muito sombrio.
Quando os jovens e as famílias se sentem inseguros, começam novamente a pensar em emigrar. Os sírios são um povo trabalhador. Alguns chegam a pensar em se mudar para a África, embora lá não existam tantas oportunidades quanto em outras partes do mundo, simplesmente porque estão em busca de paz e estabilidade.
Qual é o papel que a Igreja pode desempenhar nesse contexto de instabilidade e sofrimento? E que apoio a Igreja recebe da ACN?
A Igreja permanece ao lado do povo, apoiando, oferecendo esperança, ouvindo e tentando atender às muitas necessidades. As igrejas estão sempre abertas e acolhem a todos.
Muitas paróquias mantêm dispensários e distribuem medicamentos, alimentos, roupas e materiais educativos, além de oferecer apoio pastoral e sacramental. Grande parte desse trabalho só é possível graças a instituições como a ACN.
Uma das iniciativas apoiadas pela ACN, e que é muito necessária, é o projeto “Uma Gota de Leite”. Também somos muito gratos pelo apoio que recebemos para as escolas cristãs, incluindo bolsas de estudo, para que elas possam continuar funcionando.
Por fim, eu diria que o apoio aos sacerdotes em todo o país, por meio dos subsídios para missa, é fundamental. Sem essa ajuda, seria impossível continuar vivendo e realizando a missão da Igreja na Síria.
Como está a fé dos cristãos sírios?
Nossa fé é nossa vida. A comunidade cristã, especialmente em Aleppo, onde estou agora, está profundamente inserida na vida paroquial e no ambiente das escolas católicas.
Os cristãos vivem muito ligados às suas paróquias, onde temos centros esportivos e de arte, grupos de oração, catequese etc. Mais tarde, os terroristas atacaram a Igreja de Santo Elias, em Damasco, porque sabiam que ela era central para a vida dos cristãos.
Eles queriam semear o medo, mas o testemunho dos cristãos foi muito forte. No dia seguinte, todas as igrejas estavam cheias, e todos os cristãos se reuniram para rezar pelas vítimas e por seus perseguidores.
Nossa fé é forte porque temos a experiência de que Deus está sempre conosco. Nossas raízes são as raízes do cristianismo; foi aqui que nossa fé nasceu. São Paulo se converteu em Damasco. Fazemos parte da Síria desde antes da chegada do islamismo.
Como manter a esperança em uma situação como essa?
Nossa esperança está somente em Deus. Não nos cansamos de dar testemunho e mostrar nossa realidade ao mundo. Esperamos que a comunidade internacional possa fazer algo pelas minorias na Síria, não apenas pelos cristãos; mas muitos já não acreditam nisso.
Há exemplos concretos de como essa esperança dá frutos?
Temos o caso de um pai que agora está se preparando para ser batizado. Ele não era cristão, embora tenha permitido que seus filhos fossem batizados e seguissem a religião da mãe.
Graças ao testemunho dos filhos, ao vê-los rezar e participar da Eucaristia, ele começou a mudar. Recentemente, ele me disse: “Padre Fadi, agora vejo que é Jesus quem protege minha família. Consigo entender o que meus filhos me disseram sobre Jesus, que ele é uma pessoa que é amor, que é alegria. Quando penso nisso, sinto força para seguir em frente, apesar da pobreza. Quero seguir Jesus”.
Em meio a tantas dificuldades, são histórias como essa, além do testemunho de tantas outras pessoas e famílias, que me dão força para perseverar.
Há alguma mensagem final que gostaria de deixar em nome dos cristãos da Síria?
Primeiramente, peço orações. Por favor, rezem pela Síria e não se esqueçam de nós. O Papa Francisco costumava falar da “minha amada Síria”.
A Síria é um país onde nossa fé cristã foi formada. Por isso, por favor, rezem por nós. Também incentivo todos a continuarem nos apoiando por meio da ACN, que nos ajuda e nos permite seguir em frente.
Sem o apoio de tantos de vocês, sem os subsídios para missa, não conseguiríamos sobreviver. Por isso, acima de tudo, sou grato a vocês.
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