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Califado no norte de Moçambique preocupa bispo e amplia divisões religiosas

Publicado em: junho 2nd, 2026|Categorias: Notícias|Views: 22|

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Os jihadistas que atuam na província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, tentam estabelecer um califado inspirado no Estado Islâmico. O alerta foi feito pelo bispo António Juliasse, de Pemba, que acompanha de perto o impacto da violência sobre a população local. Além dos ataques armados, ele destaca o crescimento de tensões religiosas em comunidades que, durante muitos anos, conviveram de forma pacífica.

Em mensagem enviada à ACN, Dom Juliasse afirmou que os próprios insurgentes deixam claro o objetivo que perseguem. “Todos os sinais estão aí. Eles falam abertamente sobre um califado. Quando encontram pessoas, quando sequestram vítimas, é isso que dizem: que estão trabalhando por um califado”.

Desde o início da insurgência, em 2017, os confrontos provocaram mais de 6.300 mortes e forçaram mais de um milhão de pessoas a abandonar suas casas. Inicialmente, os militantes concentravam os ataques em instalações militares e prédios governamentais. No entanto, nos últimos anos, eles passaram a direcionar suas ações com maior intensidade contra comunidades cristãs.

Califado e o aumento da perseguição aos cristãos

A violência já deixou marcas profundas na região. Mais de 300 católicos perderam a vida, muitos deles por decapitação. Além disso, pelo menos 117 edifícios ligados à Igreja foram destruídos, incluindo capelas e templos históricos.

Entre os locais atingidos está a igreja da missão de São Luís Maria Grignion de Montfort, construída em 1946 e consumida pelo fogo no fim de abril. A destruição de espaços religiosos reforça o clima de medo e insegurança que afeta milhares de famílias.

Segundo Dom António Juliasse, a retórica anticristã dos insurgentes também começou a afetar a convivência entre diferentes grupos religiosos. “O que me preocupa é o discurso de ódio que acompanha toda essa violência. Durante muito tempo, a religião foi um dos fatores que facilitavam a convivência, mas agora está se tornando um obstáculo, está começando a dividir. Nas aldeias de Cabo Delgado, cristãos costumavam participar dos funerais muçulmanos e vice-versa, mas isso agora começa a ser questionado, e isso não acontece por causa dos cristãos.”

A ameaça à convivência entre cristãos e muçulmanos

Para o bispo, a situação exige atenção urgente das autoridades e da sociedade. “Isso é algo que deveria preocupar o Governo e toda a sociedade antes que seja tarde demais”, conclui.

Além da violência física, Dom Juliasse demonstra preocupação com o silêncio diante da crise. Segundo ele, a falta de posicionamento pode gerar interpretações equivocadas e aumentar a sensação de abandono entre as vítimas.

“O silêncio é sempre perigoso”, insiste. “É difícil de interpretar e gera confusão. Por isso sempre digo que precisamos encarar a situação, falar sobre ela, orientar as pessoas, dizer o que precisa ser feito, o que elas podem esperar e o que podem fazer juntas. Precisamos discutir isso como nação, mas não acredito que estejamos conduzindo esse debate da maneira correta.”

Califado não pode ser combatido apenas com força militar

Embora reconheça a importância das ações de segurança, o bispo afirma que Moçambique precisa buscar alternativas além da resposta armada. Por isso, a Igreja local publicou uma nota pastoral criticando a situação em Cabo Delgado e propondo novos caminhos.

“Recentemente publicamos uma nota pastoral protestando contra a situação em Cabo Delgado, mas também apontando caminhos alternativos”, explicou Dom Juliasse.

Na avaliação do líder religioso, o diálogo representa uma ferramenta essencial para encerrar o conflito. “Não acredito que a opção militar seja a única solução. Precisamos encontrar caminhos diferentes, incluindo um que Moçambique já conhece bem: o caminho do diálogo. O povo moçambicano precisa dialogar para que esta guerra termine.”

Diálogo é essencial para reconstruir o futuro

Dom Juliasse lembra que muitos combatentes nasceram em Moçambique e fazem parte da própria sociedade que hoje sofre com a guerra. Por isso, ele considera indispensável enfrentar o problema com coragem e buscar formas de reconciliação.

“Muitos dos que estão lutando nas florestas são moçambicanos, filhos desta terra, fazem parte dela. Pode haver alguns estrangeiros, mas precisamos dialogar e ter coragem de enfrentar essa realidade.”

Após quase uma década de insurgência, o país continua enfrentando enormes desafios humanitários. Ainda assim, o bispo de Pemba mantém uma mensagem de esperança. “Esta é uma situação que nos causa grande sofrimento, mas não podemos perder a esperança.” Enquanto isso, a ACN segue apoiando a Igreja em Moçambique por meio de ajuda emergencial, assistência psicológica e social às vítimas e reconstrução de estruturas danificadas.

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