O Parlamento Europeu debateu esta semana, na reunião final antes das férias de verão do Comitê das Relações Exteriores, a questão da violência em Cabo Delgado, no norte de Moçambique, contra cristãos e muçulmanos moderados.

Com a intervenção de diversos deputados, a reunião serviu para o Parlamento Europeu escutar a responsável da região pelo Serviço Europeu de Ação Externa Notarangelo Erminia. Ela apresentou as medidas que estão a ser planejadas no auxílio a este país africano que enfrenta uma grave crise humanitária. É uma sequência de ataques violentos e constantes por grupos terroristas que se afirmam afiliados ao grupo Estado Islâmico.

Todos os intervenientes sublinharam a “situação dramática” e de violência em Cabo Delgado, com centenas de mortos e mais de 200 mil deslocados. Erminia disse que há, neste momento, “mais de 500 mil pessoas afetadas por esta tragédia humanitária”.

Pedido de ajuda à União Européia

Paulo Rangel, vice-presidente do PPE, o Partido Popular Europeu, sublinhou na sua intervenção que Cabo Delgado está perante “uma ofensiva islâmica radical oportunista”, e que a União Europeia deveria equacionar o seu envolvimento nesta questão, auxiliando o Estado moçambicano. “É fundamental que a União Europeia se envolva neste conflito e possa apoiar algumas formas de pacificação militar, seja por forças africanas seja por forças das nações unidas.”

Isabel Santos referiu a “complexidade da situação” e deixou o alerta para o fato desta violência terrorista ter “um forte potencial de alastramento no país e em toda a região”. Carlos Zorrinho, presidente da Delegação do Parlamento Europeu à Assembléia Parlamentar África-Caraíbas-Pacífico/União Europeia, também usou da palavra. Ele defendeu que a questão da violência em Cabo Delgado deve ser debatida “no próximo plenário”, e que se trata de “uma situação muito complexa”. No entanto, deixou claro que é preciso passar das palavras para os atos. “Temos mesmo é que agir”, disse Zorrinho.

No final da reunião, Paulo Rangel falou com a Fundação ACN e salientou que esta reunião foi “o primeiro passo para a União Europeia colocar novamente Moçambique no centro das suas preocupações humanitárias”. Sublinhou ainda que o encontro serviu para “que as vítimas em Moçambique saibam que não estão sozinhas”.

Violência em Cabo Delgado é grave

O Vice-Presidente do PPE disse que a questão de Cabo Delgado, com os sucessivos ataques por grupos armados “é de enorme gravidade”. Ele deixou uma crítica ao trabalho de Notarangelo Ermina, do Serviço de Relações Externas da União Europeia, por “não ter informações atualizadas” sobre o que se passa na região em Moçambique.

“Tive a sorte – disse Paulo Rangel – de receber todas as informações da Igreja Católica local (por meio da Fundação ACN).” O Vice-Presidente do Partido Popular Europeu afirmou ainda que o bispo de Pemba confirmou “que os ataques terroristas quebraram o bom relacionamento tradicional com os muçulmanos locais”, o que é também um sinal preocupante. Rangel afirmou, por fim, que iria convocar o Alto Representante para as Relações Exteriores, Josep Borrell “para uma próxima reunião”.

Violência em Cabo Delgado está aumentando cada vez mais

Esta onda de violência teve início em outubro de 2017 e se agravou nos últimos tempos. A Igreja Católica não tem escapado dos ataques terroristas. No domingo passado, dia 5 de julho, a Fundação ACN soube da destruição da Igreja Paroquial de Mocímboa da Praia. Isso ocorreu durante o último ataque jihadista a esta vila, no último final de semana de junho. Mas antes já houve outros incidentes graves, como o ataque à Igreja centenária em Nangololo ou à Missão dos Monges Beneditinos. Este último provocou, inclusive, a fuga dos religiosos que tiveram de se esconder nas matas.

A Igreja Católica está muito preocupada com esta onda de violência e a consequente crise humanitária. Os Bispos moçambicanos, reunidos em Conferência Episcopal entre os dias 9 e 13 de junho, expressaram a sua indignação face ao que chama de “atos de verdadeira barbárie” e de “atrocidades” contra as populações, pedindo “uma resposta urgente a esta tragédia”.

Bispo diz que a crise está cada vez pior

Dom Luiz Fernando Lisboa, Bispo de Pemba, está no epicentro deste problema. Assim, ele tem procurado alertar o mundo para a realidade “cada vez mais dramática” que se vive na região. Em declarações sucessivas à Fundação ACN, ele tem sublinhado que a questão humanitária é angustiante.

“O alojamento não é suficiente para todos porque aqui em Pemba, por exemplo – explicou recentemente Dom Luiz Fernando Lisboa à ACN –, as famílias estão recebendo [os desalojados], mas há também grandes acampamentos sem as condições necessárias. Não há tenda e comida suficientes.” Agora “é a época do frio”, como sublinhou o Bispo, faltam “mantas, e cobertores”.

Contudo a Igreja Católica está fortemente empenhada no apoio a todas estas pessoas. Afinal, elas fugiram das aldeias e vilas por causa dos ataques jihadistas e agora estão de mãos vazias. Dependem totalmente da ajuda fornecida pelas autoridades e pela diocese.

A ACN tem ajudado os cristãos em Moçambique com diversos projetos. Desde a reconstrução de Igrejas até suporte para os missionários que permanecem firmes mesmo quando a situação fica muito difícil. Sua ajuda é fundamental para manter os projetos. Faça sua doação clicando aqui.