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Uma década de terror para padres católicos na Nigéria

Publicado em: janeiro 23rd, 2026|Categorias: Notícias|Views: 7|

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Uma década de terror define a realidade vivida por padres católicos na Nigéria, onde a violência e os sequestros se intensificaram e passaram a fazer parte do cotidiano da Igreja. Ao longo de uma década, entre 2015 e 2025, ao menos 212 sacerdotes foram sequestrados, em meio a uma grave crise de segurança que atinge todo o país. Os dados fazem parte de um estudo em andamento da Conferência dos Bispos Católicos da Nigéria, compartilhado com a ACN.

Além disso, a pesquisa identificou sequestros em 41 das 59 dioceses e arquidioceses católicas do país, o que evidencia a amplitude nacional da violência. Esses números confirmam as conclusões do Relatório sobre a Liberdade Religiosa 2025, da ACN, que classifica a Nigéria como um dos países mais perigosos do mundo para clérigos e líderes religiosos.

De acordo com o levantamento enviado à ACN, dos 212 padres sequestrados ao longo de uma década, 183 foram libertados ou conseguiram fugir, 12 foram assassinados e 3 morreram posteriormente em consequência de traumas e ferimentos sofridos durante o cativeiro.

Uma década de terror e a vulnerabilidade contínua do clero católico

Atualmente, quatro padres permanecem em cativeiro: padre John Bako Shekwolo, padre Pascal Bobbo, padre Emmanuel Ezema e padre Joseph Igweagu. O relatório também confirma que pelo menos seis sacerdotes foram sequestrados mais de uma vez, o que reforça a exposição constante do clero católico à violência ao longo de uma década marcada por insegurança persistente.

No entanto, o número real de casos tende a ser ainda maior. Dezoito dioceses não enviaram dados, enquanto a ACN registrou, de forma independente, casos isolados de sequestro em pelo menos outras cinco dioceses ainda não incluídas no estudo. Além disso, o relatório não contempla incidentes envolvendo ordens e congregações religiosas.

Esse cenário demonstra que os sequestros de padres representam apenas parte de uma crise mais ampla, que se aprofundou ao longo de uma década de fragilidade institucional, violência armada e ausência de proteção eficaz em várias regiões do país.

Igrejas fechadas e comunidades cristãs forçadas a abandonar seus territórios

A diocese de Okigwe lidera o número de sequestros registrados, com 47 casos, seguida por Port Harcourt (14) e Nsukka (13). Outras dioceses também apresentam índices elevados, como Kaduna, Kafanchan e Nnewi, cada uma com nove sequestros.

Quando o foco se volta para os assassinatos, a Arquidiocese de Kaduna aparece com o maior número de padres mortos na última década (quatro). Em seguida estão Kafanchan (dois), Minna (dois) e Abeokuta, Nnewi, Owerri e Sokoto, com um caso cada.

Como consequência direta dessa violência prolongada, comunidades cristãs inteiras foram deslocadas, enquanto paróquias deixaram de funcionar e a vida pastoral sofreu interrupções severas em amplas áreas do país. Na Diocese de Minna, mais de 90 igrejas fecharam as portas devido à atividade terrorista contínua e à insegurança crônica.

Sequestros durante a missão pastoral e o impacto nas paróquias

Em muitos casos, os criminosos sequestraram padres diretamente das casas paroquiais, durante deslocamentos para atividades pastorais ou a caminho da celebração da Santa Missa. Essa prática ampliou o clima de medo entre fiéis e líderes religiosos.

Além disso, a ausência de segurança adequada dificulta a retomada da vida comunitária e pastoral, o que aprofunda o isolamento de populações já vulneráveis e enfraquece a presença da Igreja em regiões rurais e periféricas.

Quem está por trás da violência? Uma realidade complexa e multifacetada

A violência que atinge a Nigéria não afeta apenas cristãos. Terrorismo, banditismo armado e sequestros também causam vítimas entre muçulmanos. No entanto, em diversas regiões do país, cristãos enfrentam perseguição direcionada por causa da fé, especialmente em áreas dominadas por grupos jihadistas e milícias étnico-religiosas.

Segundo o Relatório sobre a Liberdade Religiosa 2025, da ACN, no norte da Nigéria a principal ameaça vem do terrorismo jihadista, sobretudo de grupos como Boko Haram e o Estado Islâmico – Província da África Ocidental (ISWAP), cujo objetivo declarado é impor uma ideologia islâmica radical.

Na região central, especialmente no Middle Belt, a violência se intensificou por meio de ataques sistemáticos de milícias fulani, responsáveis por massacres, deslocamentos forçados, destruição de vilarejos majoritariamente cristãos e ocupação de terras agrícolas. Embora muitos descrevam esses conflitos como étnicos ou econômicos, na prática eles atingem de forma desproporcional comunidades cristãs e carregam uma clara dimensão religiosa.

A “economia do sequestro” e a emergência nacional de segurança

Além da motivação ideológica, o sequestro se consolidou como uma atividade criminosa altamente lucrativa na Nigéria em uma década. Grupos armados utilizam essa prática tanto para financiar o terrorismo quanto para sustentar redes de banditismo. Padres se tornaram alvos frequentes por serem facilmente identificáveis, geralmente desprotegidos. Também porque suas comunidades se mobilizam intensamente para garantir sua libertação.

Em dioceses como Okigwe, a mais afetada do país, diversos fatores se combinam: rotas estratégicas de transporte, presença limitada das forças de segurança, proliferação de quadrilhas organizadas e intensa atividade pastoral em áreas rurais. Esse contexto transformou sacerdotes em alvos centrais de uma brutal “economia do sequestro” baseada no pagamento de resgates. Em escala nacional, o número total de pessoas sequestradas é muito maior e envolve diversos setores da sociedade. Nas últimas semanas, o país também registrou um aumento significativo de sequestros em massa de estudantes, sobretudo em regiões do norte.

Diante da escalada de sequestros, ataques terroristas e violência armada, o presidente da Nigéria declarou, em novembro de 2025, uma emergência nacional de segurança, autorizando a contratação de 20 mil novos policiais e a adoção de medidas extraordinárias em vários estados. Ainda assim, para muitas comunidades locais, cada sequestro deixa marcas profundas: quando um padre desaparece, uma paróquia inteira fica sem proteção, liderança e esperança.

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