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Uma aventura de fé na floresta

Publicado em: março 31st, 2023|Categorias: Notícias|Views: 1227|

Na Amazônia brasileira um frei capuchinho conta suas histórias para levar o Evangelho a águas bem mais profundas

Era mais um fim de tarde na Amazônia brasileira, Frei Paolo Maria Braghini voltava em um pequeno barco para a sua missão após comprar mantimentos na cidade. A beleza esplendorosa do fim do dia em meio a um rio na Amazônia foi cortada por uma nuvem que rapidamente escureceu o céu e iniciou uma forte tempestade. Somado à chuva e à escuridão, uma grande embarcação apareceu no rio formando uma onda que virou o pequeno barco do Frei Paolo.

Nos instantes seguintes, o frei e um indígena ticuna que o acompanhava foram puxados pela correnteza para o fundo do rio. Na escuridão, com chuva e perdidos, conseguiram com muito esforço nadar até a margem do rio. Já em terra, não podiam ficar parados, os mosquitos, as formigas e outros insetos não permitem essa pequena regalia. Caminharam no escuro por mais de uma hora, quando finalmente encontraram uma comunidade indígena que os acolheu. "Foi uma bênção de Deus sobreviver, tem casos de pessoas que afundam e morrem, porque as correntezas são violentas", lembra o capuchinho.

Essa não foi a maior aventura de Frei Paolo, foi apenas mais um dia de missão. Desde 2005, quando chegou na Paróquia São Francisco de Assis, na aldeia de Belém do Solimões, o capuchinho que atende 72 comunidades indígenas distribuídas ao longo de pequenos rios já se esquivou de jacarés, teve seu corpo coberto por formigas de fogo e também precisou carregar às pressas uma mulher que havia sido picada por uma jararaca, sem contar as inúmeras vezes em que o barco quebrou e a própria correnteza do rio escolheu seu destino. "Os acidentes e imprevistos fazem parte da nossa vida. Uma vez levei um grande susto com um jacaré enorme. Quando passamos do lado, achamos que fosse uma árvore derrubada por um temporal. Chegando perto, ele abriu os olhos bem do nosso lado. Meu coração saiu pela boca!", lembra o frei.

Chegar até a missão já é um desafio

A maior parte das comunidades estão a um dia de navegação da paróquia. Algumas só podem ser visitadas de barco em dois meses do ano, pois em outros períodos o rio seca e só é possível chegar com horas de caminhada pela floresta. "Aqui, nós, os missionários que moramos em uma região sem celulares, sem telefone, sem rádio, devemos escutar as inspirações, que às vezes são inspirações de Deus", relata Braghini.

Chegar até Belém dos Solimões não é uma tarefa fácil. Para quem está em Manaus, capital do Amazonas, é preciso cinco dias de barco ou uma hora de avião até Tabatinga, uma cidade na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru. De Tabatinga, é necessário percorrer mais quatro horas em um pequeno barco. Se já não é fácil chegar até a missão, evangelizar é ainda mais difícil. Frei Paolo relata que "quando chegamos em Belém do Solimões encontramos uma paróquia abandonada há 15 anos. Não tinha pároco, não tinha presença religiosa e a fé se mantinha por meio de alguns leigos. Em algumas comunidades eu fui o primeiro sacerdote a realizar um batismo. Tinha muita violência, muito alcoolismo e suicídio entre os jovens. Percebemos que eles gritavam por socorro, por oportunidades. Iniciamos pequenas atividades como curso de música, de violão, de marcenaria, costura e, aos poucos, surgiram novas atividades pastorais e a evangelização ganhou força."

A fé e o questionamento

Quem vê a disposição de Frei Paolo para evangelizar não imagina que ele teve um caminho bem diferente para chegar no Amazonas. "Eu sou do norte da Itália, bem na fronteira com a Suíça, uma pequena aldeia com cerca de 800 habitantes, desde sempre fui apaixonado pela natureza e principalmente por caminhar nos montes. Agradeço a Deus por ter sido criado em uma família simples. Minha mãe é muito católica, meu pai se define ateu. De um lado minha mãe me educava na fé e, de outro, meu pai questionava a fé constantemente."

Antes de ir para o seminário, o jovem Braghini tinha uma vida bem diferente. Jogou vôlei profissionalmente, era apaixonado por motos e namorou uma jovem por quatro anos, com um grande desejo de se casar. "Durante o tempo do namoro, sofri um acidente de moto, fiquei de cama por três meses e tive a oportunidade de ler um livro sobre Madre Teresa de Calcutá. A voz de Deus começou a inquietar o meu coração. Quando eu escutava o Evangelho: 'Vá, deixa tudo para os pobres', isso me questionava e não me deixava em paz. Quando já tínhamos pensado a data do nosso casamento, já aos 18 anos, os pais da minha namorada nos levaram em peregrinação a Lourdes e a intenção deles era de pedir a bênção de Nossa Senhora sobre o nosso futuro casamento".

Foi justamente em Lourdes que o chamado de Deus ficou mais forte: "Na última noite da peregrinação, senti o desejo fortíssimo de voltar sozinho lá na gruta. Quando estava lá, na madrugada, foi o momento mais forte que tive na vida. Eu escutava a voz de Jesus e de Nossa Senhora: 'Vá, larga tudo e segue-me'. Eu começava a chorar e dizia: E Michaela? Minha querida namorada. Eu chorava e a voz continuava. Daí em diante eu comecei a ceder ao chamado de Deus. O tempo passou, eu entrei para os capuchinhos e me formei em Assis. Já recém-ordenado me enviaram para o Amazonas. Agradeço a Deus até hoje por cada dia vivido aqui", afirma com gratidão o capuchinho.

Uma grande ajuda para levar o Evangelho

Toda a missão do Frei Paolo perderia força sem o auxílio da ACN, que desde a década de 70 ajuda a missão da Igreja no Amazonas. Recentemente, além de traduzir a Bíblia da Criança para a língua Ticuna, graças à Fundação Pontifícia a missão dos capuchinhos também adquiriu quatro canoas motorizadas. "Com a ajuda da ACN, mais comunidades passaram a ser atendidas porque trabalhamos com os missionários indígenas. Cada comunidade fica a cerca de um dia de viagem de barco. Oferecemos uma canoa de madeira e um motor a cada grupo de missionários. Isso ajudou muito porque às vezes é quase impossível conseguir uma canoa emprestada para ficar 3 ou 4 dias em missão. Como as canoas que conseguimos no projeto são doadas a cada grupo de missionários – que assume mais uma ou duas comunidades – isso possibilitou que as visitas ocorram pelo menos uma vez por mês. Geralmente essas visitas começam na sexta-feira e vão até a segunda-feira. Às vezes esse tempo se estende um pouco mais," recorda o missionário.

A maior etnia da Amazônia brasileira

Entre as várias etnias indígenas atendidas pelos capuchinhos, os ticunas estão em maior número, são cerca de 40.000 na Amazônia brasileira, a maior etnia da região. Os frutos das sementes do Evangelho germinadas na imensidão amazônica já dão frutos. Nas comunidades de Belém do Solimões há celebração na língua ticuna todos os domingos, catequese e até mesmo pastoral do dízimo. Lá, também está o primeiro diácono ticuna, além de outras vocações indígenas que estão no seminário. "Acredito que a nossa grande força desde sempre foi acreditar neles, que são eles que podem e devem realmente ser os líderes, os pastores de seu povo indígena, com a sua língua, com a sua cultura tão bela. Eles sentem e percebem que nós acreditamos neles, os amamos e os valorizamos", afirma Frei Paolo.

Para os benfeitores da ACN, que tornaram possível a Bíblia da Criança em Ticuna, os barcos motorizados, o combustível para as visitas e até mesmo cestas básicas durante o período mais crítico da pandemia do coronavírus, o agradecimento do Frei Braghini é imenso: "Muito obrigado! Digo isso por cada indígena que já é beneficiado, de tantas aldeias que visitamos com os nossos missionários, tantas crianças – aqui é um mundo de crianças – milhares; muitas mulheres, pais de famílias, jovens. Obrigado de coração, por parte de todos eles e por nossa parte também. Estamos aqui tentando ouvir a voz de Deus, que clama pela voz do povo. Pedimos também suas orações. Ser missionário nessas terras não é fácil. Os desafios são muitos, grandes e diários. Rezem por todos nós, os missionários e missionárias na Amazônia e no mundo inteiro", pede o capuchinho.

O Frei Paolo conclui pedindo que, "se puderem, continuem apoiando os missionários, porque moramos em realidades ainda muito carentes, onde não somente as aldeias em que estamos são carentes, mas as paróquias onde nós moramos são carentes e muitas vezes as dioceses onde nós estamos são carentes. Se não fosse pela Providência de Deus, às vezes seria quase impossível evangelizar e realizar projetos em prol da vida no meio desse povo que tanto precisa de ajuda e que tanto preserva ainda a cultura e valores evangélicos. Obrigado a cada um de vocês".

Frei Paolo precisa da sua ajuda para fazer a Igreja presente em 72 comunidades da Amazônia: ministrando os sacramentos, orientando pastoralmente e acolhendo todo o povo na alegria de filhos de Deus. Ele ainda nos conforta dizendo que não precisa de comida, pois se alimenta com o que o povo partilha. No entanto, para cada visita a uma dessas comunidades, ele gasta cerca de R$ 200 de combustível. E esse dinheiro ele não tem.

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