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Refugiados e massacres em Moçambique

12 de novembro de 2020

Os massacres e o número de refugiados estão crescendo diariamente em Moçambique. Cabo Delgado, a província mais ao norte do país, tem passado por um inferno desde outubro de 2017. Ocorreram mais de 600 ataques brutais em nove distritos dessa região por insurgentes armados, que reivindicam fidelidade ao grupo Estado Islâmico. Estima-se que mais de 2.000 pessoas foram mortas, enquanto mais de 310.000 outras foram forçadas a fugir de suas casas.

Os massacres mais recentes do grupo que se autodenomina “Estado Islâmico na África Central” (ISCA) estão vindo à tona: afinal, no último domingo, fontes locais relataram que esses supostos jihadistas atacaram a pequena cidade de Muidumbe. Decapitaram e desmembraram os corpos de dezenas de pessoas em um estádio de futebol local. E também surgiram relatos do massacre de mais de 15 crianças e jovens, junto com seus “tutores” adultos, que os preparavam para participar dos rituais de iniciação tradicionais da tribo Makonde.

“Parece que estão tentando despejar toda a população da parte norte da província de Cabo Delgado, expulsando o cidadão comum sem o menor vestígio de compaixão”, explicou Irmã Blanca Nubia Zapata à ACN. Ela falava desde Pemba, capital da Província de Cabo Delgado.

Muitos refugiados procuram ajuda em Moçambique

“Mais de 12.000 pessoas chegaram aqui nas últimas duas semanas. Não podemos acompanhar. Mulheres e crianças estão chegando, e pessoas mais velhas que já caminham há dias. Alguns morreram no caminho, nas estradas e nas trilhas da floresta. São 180 km, mas você não pode imaginar como são nossas “estradas”. É muito difícil caminhar por estes trilhos e pelo campo três ou quatro dias a fio sem comida, sem água, carregando os filhos nas costas …. Além disso há mulheres que deram à luz na estrada … ”, explica Irmã Blanca, que pertence às Carmelitas Teresianas de São José.

Nas últimas semanas, centenas de pequenos barcos também chegaram pelo mar. Seja em barcos, lanchas ou canoas, afinal as pessoas estão desesperadas para escapar das matanças bárbaras. “Estamos fazendo tudo o que podemos. Muitas vezes não podemos fazer mais do que ouvir, perguntar como eles estão se sentindo e ouvi-los. Eles deixaram tudo para trás, na esperança de escapar com vida.”

“Tudo o que eles querem fazer é sair de lá; afinal eles estão simplesmente apavorados. Muitas famílias pediram nossa ajuda e resgatamos as famílias das crianças da escola, com imensa dificuldade, com veículos particulares e a ajuda de terceiros ”, explica Irmã Blanca com angústia.

Bispo relata a situação de pavor

Há cerca de uma semana, num vídeo da Caritas Moçambique enviado à ACN, Dom Luiz Fernando Lisboa, o Bispo de Pemba, descreve a situação vista desde Paquitequete, subúrbio da capital, na costa: “Já são cerca de 10.000 refugiados que chegaram e continuam chegando. Alguns como resultado dos ataques que sofreram, enquanto outros fugiram antecipadamente porque estão com medo ”.

“Quando eles chegam aqui não têm onde dormir, apenas cobertores ou abrigos improvisados, e ainda não há um local designado para acomodá-los. Algumas pessoas foram acolhidas por famílias locais, seja porque têm parentes aqui ou simplesmente porque as pessoas estão comovidas com a sua situação e as acolheram nas suas casas. É, enfim, uma situação extremamente difícil e centenas de pessoas simplesmente dormem aqui na praia. Infelizmente, algumas pessoas morreram na viagem, em alguns casos porque essas pessoas ficaram dois ou três dias em barcos, no mar, e chegaram doentes e desidratadas. ”

“Esta é uma situação humanitária desesperadora, pela qual pedimos, na verdade imploramos, a ajuda e a solidariedade da comunidade internacional”, continua Dom Fernando Lisboa.

ACN oferece ajuda emergencial

“No seguimento deste apelo dos bispos, queremos ajudar a Diocese de Pemba e as dioceses vizinhas com uma ajuda de emergência às vítimas de Cabo Delgado. A par dos projetos que já estamos auxiliando nas dioceses para os seus padres e religiosos. Mas, além dessa ajuda, para cobertores, roupas, alimentos, produtos básicos de higiene, e também sementes e ferramentas. Além disso, o que for necessário. Queremos ajudar a aliviar o pior do sofrimento e do trauma. Por isso, já criamos um programa de equipes diocesanas para dar apoio psicológico e aconselhamento aos refugiados traumatizados nas paróquias”, explica Regina Lynch, diretora de projetos da ACN.

“Parece que alguma atenção internacional está sendo dada a esta tragédia em grande parte esquecida ao longo de muitos meses longos e dolorosos. Já em fevereiro, a ACN publicou uma entrevista exclusiva com Dom Fernando Lisboa sobre a crise e o medo que a população estava sofrendo. Eles queimaram igrejas e destruíram conventos, e também sequestraram duas religiosas. Mas quase ninguém prestou atenção a este novo foco de terror e violência jihadista na África, que está afetando a todos, tanto cristãos quanto muçulmanos. Esperamos que, finalmente, haja uma resposta a esta crise no norte de Moçambique, em prol dos mais pobres e abandonados ”, continua Regina Lynch.

Você pode ajudar os que mais sofrem no norte de Moçambique, realizando sua doação para a ACN.

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