Desde o final de fevereiro de 2026, o conflito no Oriente Médio voltou a transformar a fronteira sul do país em uma zona de guerra. Nesse cenário, o padre no sul do líbano, Maroun Youssef Ghafari, pároco da aldeia de Alma Sha’b, localizada na fronteira com Israel, afirma que continuará com os fiéis apesar do risco.
Além disso, a própria família do sacerdote já sofreu diretamente com a violência. Seu irmão, Sami Ghafari, de 70 anos, morreu no jardim de sua casa, na mesma aldeia, após um ataque aéreo. A tragédia reforçou ainda mais o drama vivido pelas comunidades cristãs da região.
Enquanto isso, a violência continua a atingir outras localidades. Em 9 de março de 2026, um ataque aéreo israelense contra a aldeia cristã de Qlayaa, no distrito de Marjayoun, matou o padre maronita Pierre al-Raï e feriu quatro civis. Entre os feridos estão moradores e membros de equipes de resgate que chegaram ao local para ajudar após uma primeira explosão.
Padre no sul do Líbano e a resistência das comunidades cristãs
Embora o sul do Líbano tenha maioria muçulmana xiita, algumas aldeias permanecem majoritariamente cristãs, como Qlayaa, Marjayoun e Alma Sha’b. Mesmo com a intensificação dos combates e com as ordens de evacuação emitidas por Israel, muitos moradores decidiram permanecer em suas casas, igrejas e terras agrícolas.
Eles temem, sobretudo, perder definitivamente suas propriedades caso abandonem a região. Por isso, preferem enfrentar o risco da guerra a deixar suas aldeias históricas.
Alma Sha’b fica a apenas dois quilômetros da fronteira com Israel. Antes da retomada dos combates, cerca de 350 pessoas viviam na aldeia. Atualmente, restam aproximadamente 100 moradores, entre adultos, crianças e idosos.
Comunidade paga alto preço pela guerra
Em entrevista à ACN, o corbispo maronita Maroun Youssef Ghafari explicou que apoia a decisão dos moradores de permanecer. Segundo ele, “nós os apoiamos nessa decisão. Ficaremos apesar da guerra.”
O sacerdote também destacou que a comunidade já sofreu enormes perdas durante o conflito. “Cerca de 90% das casas foram destruídas quando fomos obrigados a sair no final de dezembro de 2024. Acreditamos que, se partirmos novamente por qualquer motivo, não nos permitirão voltar e tudo o que restar será destruído mais uma vez.”
Além disso, novos ataques continuam a ameaçar a aldeia. “Desde 28 de fevereiro de 2026 temos passado por momentos difíceis, porque houve ataques contra a aldeia e os arredores que danificaram algumas casas, embora até agora não haja vítimas a registrar.”
Decisão de permanecer mesmo sem garantias
Outras aldeias cristãs próximas à fronteira tomaram a mesma decisão. De acordo com o sacerdote, as autoridades eclesiais e civis receberam a informação de que a população pretende permanecer.
“Tomamos as medidas adequadas com o núncio apostólico, a Igreja local, as autoridades civis e também com a Força Interina das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL), informando que não vamos sair, embora saibamos que, em tempos de guerra, não há garantias”, explicou o corbispo.
No entanto, a morte de seu irmão no dia 8 de março provocou forte impacto na comunidade. Sami Ghafari morreu enquanto cuidava do jardim de sua casa em Alma Sha’b. Pouco tempo antes do agravamento do conflito, uma delegação da ACN visitou a aldeia durante o cessar-fogo e participou de uma missa com os moradores. Sami Ghafari estava entre os presentes.
Fé, dor e esperança em meio ao conflito
O padre no Sul do Líbano Maroun Youssef Ghafari falou sobre a dor causada pela perda do irmão. “Perder um cidadão libanês que amava sua aldeia de Alma Sha’b, que não tinha absolutamente nenhuma relação com o conflito e que, além disso, era meu irmão, nos deixou na mais profunda tristeza. A guerra não causa nada além de destruição, morte e deslocamento.”
Ele também recordou a morte do padre Pierre al-Raï. “Como sacerdote e como cristão, considero Sami um mártir. Eles o mataram. Ontem, o padre Pierre al-Raï, pároco maronita de Qlayaa, também foi morto enquanto servia em sua paróquia. Rezamos para que suas almas descansem em paz e que sua memória seja fonte de consolo e força para nossas comunidades.”
Para o padre Ghafari, permanecer na aldeia representa sobretudo um gesto de fé. “Confiamos na providência divina e na intercessão da Virgem Maria, nossa protetora”, afirmou. Segundo ele, os cristãos “não têm nada a ver com esta guerra” e continuam comprometidos com uma cultura de vida, diálogo e paz.
Apoio internacional e futuro das comunidades cristãs
O sacerdote também destacou a importância da oração e do apoio da Igreja mundial. Ele alerta que as comunidades cristãs próximas à fronteira diminuíram drasticamente. “Se a Igreja universal não cuidar dessas comunidades espalhadas perto da fronteira, que já se reduziram a não mais do que 15 aldeias cristãs danificadas, elas correm o risco de sofrer o mesmo destino dos cristãos da Terra Santa”, advertiu. “Esperamos que não desapareçam com o tempo. Pelo apego à sua terra sagrada, oferecem o mais belo testemunho de fidelidade e perseverança.”
Segundo o padre, a prioridade agora consiste em garantir segurança e restaurar a paz. Por isso, ele agradeceu à ACN pela ajuda oferecida à população local. “Em nome da paróquia, e especialmente dos pobres, aqueles que estão mais próximos de Jesus, desejo expressar nossa sincera gratidão a todos que nos apoiam, especialmente à ACN, que tem estado ao nosso lado oferecendo ajuda material, alimentos e suprimentos médicos.”
Por fim, ele reforçou o apelo pela paz: “Permanecemos unidos em oração, com a Igreja Católica, com cristãos de todo o mundo e com todas as pessoas de bom senso, pelo fim desse desastre.” Segundo as informações mais recentes divulgadas após a redação do artigo, as autoridades podem evacuar a aldeia de Alma Sha’b devido ao agravamento da situação de segurança na região.
Eco do Amor
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