O Sínodo da Amazônia teve início no dia 6 de outubro, no Vaticano. É um Sínodo que tem chamado a atenção não apenas dos católicos, mas do mundo todo. Dom Neri José Tondello é o bispo da Diocese Juína, no Mato Grosso, e também um dos 18 membros do Conselho Pré-Sinodal. Em entrevista à ACN, ele conta sobre como a história recente da Igreja rumou para a Amazônia, assim como a vivência do Evangelho com os indígenas; também esclarece a função consultiva do Sínodo.

O senhor fez parte do Conselho Pré-sinodal. Este Sínodo está sendo tema não apenas da Igreja, mas está em todas as mídias. A que o senhor atribui tanto interesse nesse Sínodo?

O Sínodo da Amazônia tem uma história, ele é fruto de uma caminhada de Igreja na Amazônia. Desde 1950, passando pelos anos 1968 e 1972 com o encontro de Santarém, onde o Papa Paulo VI dizia: “Cristo aponta para a Amazônia”; depois, percorrendo na história, em 2007 com o documento de Aparecida, quando o Cardeal Bergoglio era o relator e acenava para a Amazônia; após isso, como Papa, ele lançou a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, onde insistia que não podemos deixar que roubem a esperança, a missionariedade, a Palavra de Deus e a comunidade; e, finalmente, com a Encíclica Laudato Si’, o Papa Francisco entrou em cheio na história e no coração da Amazônia.

Por se tratar de um assunto histórico que tende a responder questões da realidade Pan Amazônica, é evidente que acaba despertando tanto interesse quando se trata, por exemplo, de uma ecologia integral. Isso está envolvendo os povos originários que estão ali, principalmente os indígenas que são os legítimos e primeiros donos da Amazônia. Mas ali estão também os ribeirinhos, os quilombolas, os assentados e tanta gente que está na região em busca de uma vida melhor. A ecologia integral visa um estudo da casa comum no seu conjunto, e a Pan Amazônia é uma realidade que atende com suas benesses ao planeta todo. A realidade, no seu contexto de casa comum, está sendo atingida pelos problemas que causam grandes e graves impactos. Agora eu acrescento as queimadas como grave problema e ameaça.

Antes não tinha tanta percepção a este impacto que o fogo provoca, porque depois do incêndio você tem o desmate e o corte ilegal, o agronegócio, os venenos nos rios, matando, portanto, os peixes. Também as hidrelétricas e o garimpo – com os produtos tóxicos como o mercúrio – estão matando os peixes. Aí estamos falando, portanto, do alimento básico para os nossos povos indígenas. Neste contexto, isso tudo acaba por comprometer toda a realidade Pan Amazônica em sua biodiversidade.

Temos aí um contexto geral diante do qual o assunto não se restringiu apenas ao debate interno da Igreja, mas ele de fato acaba por envolver o mundo inteiro porque a Amazônia não está separada, tudo está interligado, tudo está conectado e por isso ela é uma benesse para o mundo. Mas também o Papa Francisco pergunta o que o mundo pode fazer para salvar a Amazônia.

O que é o Sínodo da Amazônia para o senhor?

Eu posso dizer que o Sínodo da Amazônia é um Kairós. Eu sei que o mundo já falou muito. Aliás, o Sínodo encontrou muitas formas para ser divulgado. Mesmo que falem mal, condenem e falem coisas feias a respeito do Sínodo, a grande maioria aposta nesta assembleia especial para a região Pan Amazônica e para toda a Igreja. Estando por dentro no processo de preparação se sente isso. Um ou outro que não gosta, critica, mas no geral o Sínodo é um Kairós para a Igreja. Nós vamos pedir muito a oração de vocês para que tenhamos o dom do discernimento.

Escutamos a realidade da Amazônia e escutamos os povos com seus clamores, eles expressaram seus lamentos. Durante a celebração do Sínodo vamos escutar os cientistas, sobretudo vamos escutar o que o Espírito Santo tem a dizer às Igrejas que estão na Amazônia.

É importante lembrar que o Sínodo não é deliberativo, ele em seu regulamento é consultivo. Contudo, que não faltemos na coragem de propor novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral. Que o Papa Francisco possa ser auxiliado por este grande evento ao tomar as decisões necessárias e nos dê uma orientação segura que atenda esta realidade abençoada que é a nossa querida Amazônia.

O que é preciso para que a Igreja não seja apenas “de visita”?

Nós importamos processos de evangelização por homens e mulheres que vieram de fora, que deram suas vidas, muitos deles são mártires da Amazônia. Mas muitos projetos que foram importados também não foram os melhores, foram projetos de colonização, de dominação, e não se levou em conta o potencial que estava ali presente. Ou seja, não se deu conta de um rosto amazônico, tornando-o protagonista do próprio projeto de evangelização a partir de uma inculturação do Evangelho encarnado na realidade das “sementes do verbo” presentes nos povos indígenas, ribeirinhos, assentados e todos os povos que habitam essa região.

Então, para termos uma Igreja mais permanente, mais eficaz e mais presente na proximidade com as pessoas, com os povos, grupos, dando formação religiosa, mas também organizando a comunidade, se faz necessário multiplicar os dons, os carismas, os ministérios, as pessoas para somar nesse projeto de evangelização na Amazônia. Claro que é preciso levar em conta o batismo como ponto de partida de tudo, uma igreja batismal e colegial, diferente de uma igreja clerical. Quero dizer com isso que o documento Instrumentum Laboris colocou na mesa do Papa – por meio do documento de escuta – uma abertura a esse apelo.

Jamais o celibato será extinto, pois sempre será um dom para a Igreja, mas também acredito que a Igreja pode pensar a partir da teologia da espiritualidade, da pastoral, a demanda de outros novos caminhos para assegurar uma presença mais continuada junto ao povo de Deus que transcende aquela ideia da Igreja “de visita”. É preciso estar mais junto, mais perto e para isso precisamos valorizar as ideias que já estão sendo trabalhadas há mais tempo, por exemplo a ideia de um presbítero comunitário, de alguém que tenha o rosto da comunidade, o rosto amazônico, alguém que mora ali e que conhece todo mundo na comunidade e pode tornar o processo de evangelização muito mais eficaz.

Colniza, uma das cidades de sua Diocese, é um dos municípios do país que mais sofre com queimadas. Como está a situação hoje?

De fato, as queimadas foram demais. A região de Colniza e Guariba está nas estatísticas dos municípios onde mais se queimou ao longo deste ano. Eu não entendo por que essa cultura do fogo para limpar pasto. Na minha consciência isso não vale. É muito mais destruidor do que benéfico. Eu estou há dezessete anos no Mato Grosso e eu percebo que neste ano excedeu os outros anos em muito.

A cortina de fumaça que saiu da Amazônia, que foi para São Paulo, para Santa Catarina, não é por acaso. Inclusive muitos fogos são criminosos, outros são acidentes. Existe até “o dia do fogo”, organizado por um grupo de criminosos. A região teme a retaliação nas relações comerciais internacionais. Nós procuramos desenvolver uma consciência em parceria com o pessoal do IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis); com o pessoal do Sindicato de base florestal; com o corpo de bombeiros; usamos também a nossa força de evangelização chamando a atenção para a responsabilidade diante deste grave risco que é a destruição da natureza por meio do fogo.

A ACN auxilia projetos pastorais na Amazônia há mais de 40 anos. Entres as dioceses, também a sua, Juína, recebe ajuda. Que benefícios o senhor vê no seu povo a partir dos projetos?

Essa diocese foi muito beneficiada pelos projetos que a ACN tem colaborado. Desde a formação catequética, pastoral da família, da juventude, da criança, campanhas com 2 mil Bíblias para distribuir, material de evangelização, terço das crianças e ajuda também no projeto de energia solar, que, afinal, dentro do Sínodo da Amazônia, não é possível pensar só na destruição da mata e construir hidrelétricas para se obter energia. Não, é preciso criar alternativas e a energia solar é uma delas. A ACN tem ajudado muito também nesse sentido.

Sobre a importância da formação, recentemente nós tivemos aula de ética com o grupo da escola de formação com a ideia de termos diáconos permanentes no futuro próximo. Já temos 10 diáconos que exercem o ministério. Trata-se de uma escola mista: temos mais de 20 indígenas e 15 que não são indígenas. Na escola de formação temos agentes ligados aos povos ribeirinhos e líderes de nossas comunidades. Graças à ajuda da ACN nós nos sentimos dentro desta realidade amazônica e sentimos este apoio, ajudados com projetos de evangelização e ao mesmo tempo projetos que procuram construir e formar pessoas evangelizadoras para a região.