//Papua-Nova Guiné: A troca do “ouro verde” pela novidade do amor

Papua-Nova Guiné: A troca do “ouro verde” pela novidade do amor

2015-06-01T17:35:25+00:00junho 1st, 2015|Notícias|

“Por favor, venha ajudar!”  Foram estas palavras que fizeram com que a Irmã Caterina Gasparatto saísse da Itália do século XXI para voltar no tempo da Idade da Pedra – ou mais precisamente, para a diocese de Bereina, na província central da Papua-Nova Guiné.

Foi assim, em resposta ao apelo do bispo Dom Rochus Joseph Tatamai, que a Ir. Catarina, da Comunidade Cavanis de Jesus Bom Pastor, chegou no país em outubro de 2013, juntamente com três outras irmãs – uma italiana, uma filipina e uma vietnamita. “Eu nunca tinha ouvido falar antes da Papua-Nova Guiné; nós fomos levada pelo Espírito Santo”, ela se recorda.

A diocese de Bereina é considerada como a mais pobre do país e cobre uma área de 19 mil quilômetros quadrados. Ela tem uma população de cerca de 97 mil habitantes, dos quais 85% são católicos. A cidade de mesmo nome fica a 160 quilômetros de Port Moresby. De fato, as irmãs estão seguindo os passos dos primeiros missionários católicos que chegaram ali em 1885. “Eles eram franceses e, curiosamente, até hoje o nome mais comum usado pelos habitantes de Bereina é “Alain”, explica a Ir. Catarina.

“Eles não moram em casas, do jeito como estamos acostumados”, ela comenta durante a visita que fez à sede da Fundação Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (AIS). “Eles vivem em torno de fogueiras, bastante espalhados. Não se pode falar de escola, pois não existe nenhuma… eles nem tem banheiros ou sanitários…”. Ela continua a explicar – “Um dia ouvimos eles dizerem que haviam construido uns sanitários. Eu fiquei muito interessada, pois queríamos construir uns na escola que estávamos fazendo. E se eles fossem bem feitos, poderíamos pedir para a pessoa que os fez construir algo assim para nós. Eu pedi para eles me mostrarem. Caminhamos por uns 10 minutos até chegarmos num lugar onde haviam dois simples buracos no chão, separados por uma tábua no meio. Estes buracos eram os sanitários… Nós acabamos construindo nós mesmas. Não é muito difícil; aprende-se de tudo por aqui… pelo menos quando se tem a ajuda da internet”.

Um dos grandes desafios que as irmãs tem de enfrentar é a batalha contra a degradação humana, social e econômica causada pelo uso da semente de areca. Uma substância alucinógena que desfigura as pessoas pelas ruas, mas também está paralisando o desenvolvimento de toda a sociedade. Esta semente é um estimulante tão poderoso, que as pessoas podem passar três dias sem comer. Além disso, todas as pessoas, homens e mulheres a consomem… O resultado é que eles não se importam com o trabalho, ou com suas crianças, ou com o que quer que seja… Eles só tem uma preocupação e um objetivo na vida: é obter a semente de areca”, explica a irmã Catarina. O costume de mascar a semente de areca é muito antigo. Ela era usada nos casamentos, funerais e por ocasião dos tratados de paz. Mas nos últimos anos seu uso indiscriminado, mesmo entre crianças, tem aumentado perigosamente. Este chamado “ouro verde” é aditivo e provoca câncer na boca, além de estar por trás de muitos problemas sérios de violência doméstica e de delinquência.

As irmãs da Comunidade Cavanis de Jesus Bom Pastor estão atacando o problema com o seu carisma especial, que é a educação das crianças e dos jovens, cuidando como se fossem mães e pais deles. “Há muita esperança. Nós acabamos de abrir uma escola e já temos 170 alunos com idades de seis a doze anos. Esta é a primeira vez, para todos eles, que colocam os pés numaescola, o que significa que os que tem doze anos estão no mesmo nível dos de seis anos. Mas eles são inteligentes e aprendem bem rápido. No entanto eles precisam estudar bastante para conseguir ficar à frente dos mais novos”, diz a freira com um amplo gesto das mãos, denunciando suas origens italianas. A escola também tem meninas, explica a irmã com satisfação, pois esta não é uma pratica comum na Papua-Nova Guiné. As meninas ficam com as mães para ajudar nas tarefas da família, como cultivar o terreno onde moram. Muitas destas meninas são vendidas, quando ainda bem jovens, para as famílias de seus futuros maridos.

As irmãs também viram mudanças no grupo de jovens rapazes que de repente apareceram logo no primeiro dia da chegada das freiras. Eles ficaram por ali e dormiam debaixo das arvores perto do convento das freiras para protege-las. Os rapazes ajudaram na construção da escola e continuam a ajudar com todo tipo de trabalho. “Logo no início dissemos que nós daríamos todos os dias três refeições se eles parassem de mascar a semente de areca e foi o que aconteceu. Desde aquele dia, eles pararam de mascar e passaram a ser uma grande ajuda para nós”. Um destes rapazes era Lucas, com 20 anos de idade. “Ele nunca tinha frequentado escola. Apesar de ser muito tímido, ele deixou bem claro para nós que queria aprender. Assumi a tarefa de ensiná-lo a escrever. Vocês não conseguem acreditar o quanto é difícil aprender a pegar num lápis com 20 anos de idade… mas eu nunca me esquecerei da sua expressão de felicidade quando ele conseguiu escrever seu nome pela primeira vez”. A irmã também irradia felicidade ao contar a história de Leo, um rapaz de 21 anos: “Nós começamos ensinando a matemática mais simples, só colocando os números juntos e somando. No começo, era difícil para ele entender a ideia de unidades, dezenas e centenas. Depois, chegou a hora de fazermos adições mais complexas. Quando ele finalmente conseguiu fazer uma soma direito, ele não conseguia acreditar, e lágrimas escorreram de seu rosto… foi realmente muito bonito…”.

“É realmente possível se perdoar”? Esta foi a pergunta feita com espanto por um dos rapazes da aula de instrução religiosa dada pelas irmãs, quando eles discutiam sobre a questão da confissão. Esta é uma outra área onde as irmãs viram mudanças. Na Papua-Nova Guiné, há entre 800 e 1.000 grupos étnicos diferentes e um total de 836 línguas indígenas, muitas totalmente diferentes umas das outras. Muitos problemas entre membros de diferentes grupos étnicos e clãs terminam em guerras tribais, algumas vezes com graves consequências. Então, não é fácil transmitir a eles valores como a reconciliação e o perdão, mas é possível. “Quando um rapaz me insultou sem nenhum motivo, eu fui capaz de chegar até ele e lhe explicar que aquilo não era bom”, contou depois um dos jovens para a Ir. Catarina. “Sem as nossas explicações, aquilo teria terminado numa briga”, conclui a freira.

A Irmã Catarina quer enviar seus agradecimentos aos benfeitores da Ajuda à Igreja que Sofre, que tem ajudado as irmãs financiando vários projetos diferentes. Entre outros, a AIS ajudou a financiar a compra de um caminhão. “Nossa! Olhem a irmã está dirigindo um caminhão!” Os rapazes não podiam conter sua surpresa ao ver a irmã na direção do veículo. “Eles ficaram tão contentes”, recorda a irmã. “Eles consideravam o caminhão como pertencente a todos. Ele pode levar entre 50 a 70 pessoas. Nós o usamos bastante: para levá-los para as aulas de catecismo e para ir às celebrações na “catedral” – a qual, segundo nossas noções ocidentais, se trata mais propriamente de uma capela. Se nós não tivéssemos um caminhão, não teríamos podido fazer tantas coisas. Muitos planos educacionais e muitas atividades teriam sido frustradas. Porque se nós não tivéssemos como levá-los, eles não teriam podido ir lá – é que nós estamos a cerca de 30 quilômetros do centro de Bereina. Porém, agora, podemos deixar nossa imaginação voar! Muito obrigado a todos os que ajudaram este sonho a se tornar uma realidade”!

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