//É hora de agir para evitar uma guerra civil nos Camarões

É hora de agir para evitar uma guerra civil nos Camarões

2018-11-28T09:44:48+00:00novembro 28th, 2018|Notícias|

“A Igreja acredita na paz! Mas não pode haver paz sem justiça. Justiça e verdade devem prevalecer e é isso que a igreja representa”

Camarões está em meio a um conflito político e social entre as regiões que falam os idiomas inglês e francês. O que era uma colônia alemã, no final do século XIX foi dividida entre mandatos britânicos e franceses, após a derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial. Ambos se juntaram formando a República Independente dos Camarões, em 1961.

No entanto, populações das regiões sudoeste e noroeste do país que falam o inglês, sentem-se marginalizadas pelas autoridades francesas. Elas os acusam de impor a língua e as tradições francesas exigindo maior autonomia e respeito por seus costumes. O nível de agitação os habitantes de Camarões vem crescendo desde 2016; quando a comunidade de língua inglesa do país começou a exigir um retorno ao federalismo.

Tem ocorrido confrontos violentos entre forças do governo e militantes separatistas; os quais buscam a independência das províncias de língua inglesa situadas na República dos Camarões, autoproclamada República de Ambazonia. O exército não se absteve do uso da força na repressão aos anglófonos, o que levou a mais de 500 mortes e a cerca de 200 mil pessoas deslocadas.

Maria Lozano da Fundação Pontifícia ACN, fala sobre a situação do Bispo Auxiliar Dom Michael Miabesue Bibi, de Bamenda (Arquidiocese de língua inglesa no noroeste dos Camarões). Confira abaixo a entrevista na íntegra:

Maria Lozano – Poderia, por favor, nos informar qual seria a atual situação nos Camarões? O que ocorreu em 2016? O que desencadeou a crise?

Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Bamenda Dom, Michael Miabesue Bibi

Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Bamenda Dom, Michael Miabesue Bibi.

Dom Michael Miabesue Bibi – A crise iniciou em 2016, quando os advogados de direito comum das regiõe

s anglófonas nos Camarões solicitaram que a Lei Ohada fosse traduzida do francês para o inglês. Dessa forma poderiam aplicá-la adequadamente na língua que entendem. Isto foi acompanhado por manifestações pacíficas; no entanto, os militares foram enviados para detê-los. Os advogados boicotaram o trabalho no tribunal e solicitaram que advogados franceses não fossem enviados para os tribunais ingleses. Além disso, também solicitaram que nos tribunais de origem inglesa, os casos fossem tratados em inglês e não em francês.

Em novembro do mesmo ano, os professores pediram uma greve com início no dia 21. O intuito era de protestar contra o fato dos professores franceses serem enviados para trabalhar nas regiões inglesas; as quais não ensinavam o inglês apropriado às crianças, justamente por serem de origem inglesa.

Eles solicitaram que tais professores fossem transferidos e que, em seu lugar, professores que falam inglês fossem enviados para trabalhar nas regiões de origem inglesa. Essas demandas também encontraram repressão, sendo assim as principais causas do problema atual.

Alguns meios de comunicação mencionam a ameaça de uma guerra civil nos Camarões. Você considera a situação tão séria?

A situação é muito séria. Desde o início da crise em 2016, ela vem se agravamento de maneira constante. O que começou como uma questão de tradução de documentos, transferência de professores e restabelecimento do sistema de educação em inglês, cresceu e transformou-se, primeiramente, em pedido de federalização de duas províncias. E, por fim, em um pedido de separação dos Camarões de origem francesa.

Desde fevereiro de 2018, houve graves perdas de vidas humanas. Tanto do lado dos militares, quanto dos meninos que lutam pela causa separatista. Estamos vivendo em uma situação de grave insegurança. Além disso, se o conflito não for resolvido, será agravado rapidamente mais à frente.

As recentes eleições de 7 de outubro terão algum efeito sobre a crise? Quais serão os passos positivos e produtivos que poderão ser dados?

Na minha opinião, o presidente pode resolver esse problema se decidir reunir as pessoas e dialogar. O que aconteceu até agora é que funcionários do governo foram enviados em várias ocasiões. No entanto, isso não ajudou a resolver o problema. Acredito que o silêncio do presidente tem sido uma das razões pelas quais as pessoas radicalizaram. Se ele saísse e falasse com todos os camaroneses como se fossem seus filhos, certamente eles o ouviriam. Precisamos de um diálogo franco e sincero para resolver o problema. O que exige, porém, humildade de ambas as partes conflitantes.

A Conferência Episcopal dos Camarões disse que “havia graves irregularidades nas regiões de origem inglesa” e que muitos eleitores não puderam votar devido à insegurança. Como está a situação agora em relação à segurança?

Quase todos os dias na região de língua inglesa, especialmente Bamenda (de onde venho), há tiros de arma de fogo disparados por militares ou por meninos que lutam pela causa. Eles são conhecidos como “meninos ambazonianos”, ou, simplesmente, amba boys. Há insegurança na região, razão pela qual as eleições não puderam ocorrer em certas áreas. Algumas regiões onde poucas pessoas votaram, foram fortemente vigiadas pelos militares. Sim, há insegurança na região. Quase 95% dos eleitores em ambas as regiões não puderam votar devido à falta de segurança.

Você pode viajar para todos os lugares? Como é o trabalho pastoral da Igreja e como ele é influenciado pela crise?

A mobilidade em ambas as regiões é difícil. Na Região Noroeste, por exemplo, as estradas são constantemente bloqueadas pelos meninos. Além disso, pontes são destruídas e árvores são derrubadas em estradas para restringir o movimento. Em alguns dias as estradas são abertas; em outros não. Isso dificulta as pessoas viajarem. Essa situação afetou muito o trabalho pastoral, uma vez que a maioria dos padres nas paróquias, não podem deixar sua missão principal para outras missões de trabalhos pastorais.

Tornou-se difícil para os bispos realizarem visitas pastorais desde junho. A semana pastoral da Arquidiocese que deveria ocorrer entre os dias 13 e 20 foi cancelada porque as pessoas não podiam vir à cidade. Em Bamenda, a viagem é possível em alguns dias; embora de 1º a 10 de outubro não tenha sido possível se locomover. Às segundas-feiras, a cidade se transforma em uma cidade fantasma e as lojas e os negócios ficam fechados. Nenhum movimento é possível, mesmo que algumas pessoas isoladas tentem se mover.

No dia 4 de outubro, pouco antes das eleições, Gérard Anjiangwe, um seminarista de sua Arquidiocese de Bamenda, foi morto em frente à Igreja Paroquial de Bamessing na comunidade de Ndop, departamento de Ngo-Ketunjia. O que aconteceu?

Por volta das 9h30, no final da Santa Missa, depois que alguns dos cristãos partiram, Gerard Anjiangwe e alguns leitores ainda estavam na Missão preparando-se para a liturgia do dia seguinte, quando uma van militar vinda de Ndop parou na entrada da estrada que levava à igreja. Alguns dos militares desceram e começaram a atirar.

Algumas pessoas que estavam voltando para casa, depois da Missa, correram de volta para a Igreja; enquanto outros para os arbustos próximos. Os leitores que estavam com Gerard perto da sacristia, vendo a chegada dos militares, correram para a sacristia e fecharam a porta; enquanto Gerard, que ainda estava do lado de fora, deitou-se no chão enquanto rezava o rosário. Os militares tentaram abrir a porta da Igreja; no entanto, infelizmente, não conseguiram. Eles se aproximaram de Gerard que estava deitado no chão e lhe pediram para se levantar. Assim, ele o fez sem hesitar. Depois de interrogá-lo, o convidaram a se deitar novamente, e então foi baleado três vezes no pescoço, morrendo instantaneamente. Seu pai é catequista, e Gerard era o único filho da família.

Qual o motivo do assassinato?

É difícil dizer exatamente porque Gerald foi morto. No entanto, pode-se facilmente concluir que ele foi considerado um dos garotos ambazonianos. Essa é a única razão me ocorre como justificativa de sua morte. Há uma tentativa sistemática de atentados com a finalidade de matar todos os garotos da área. Uma vez que existe o medo de que eles façam parte dos amba boys, os quais promovem a crise.

Já houve dois padres assassinados em julho deste ano nos Camarões: um no norte (Batibo) e outro no sul (Frei Alexandre Sob Nougi). Além disso, há várias propriedades da Igreja que também foram destruídas. Qual é o papel da Igreja no conflito?

Apenas um padre foi morto, chamado Frei Alexander Sob de Buea. Segundo informações nossas, a pessoa morta em Batibo não era um padre, mas um pastor do Gana. Na tentativa de expulsar os amba boys, os militares queimam e destroem propriedades. Como resultado, a Igreja é atacada em muitas de suas construções e presbitérios, entre outros bens materiais que são destruídos.

O papel da Igreja é simplesmente falar a verdade, além de encorajar o diálogo. No entanto, a Igreja está constrita entre o governo e os amba boys. Qualquer que seja o posicionamento da Igreja, é acusada por um lado ou por outro. Quando diz que as crianças têm o direito de ir à escola e não devem ser impedidas de estudar, os amba boys presumem que a Igreja foi subornada pelo governo para dizer isto. Algumas autoridades do governo acusaram a Igreja, inadequadamente, de alimentar a crise através das várias declarações que publicam.

A Igreja acredita na paz! Mas não pode haver paz sem justiça. Justiça e verdade devem prevalecer e é isso que a igreja representa.

De acordo com diferentes relatórios, 160 mil pessoas abandonaram suas casas nos Camarões, além das 34 mil que fugiram para a Nigéria. Como está a situação dos refugiados em Bamenda?

Temos pessoas se deslocando em uma migração interna e externa. A Arquidiocese formou um comitê para cuidar dos migrantes deslocados que vivem em Bamenda. Eles identificaram todas essas pessoas, anotaram seus nomes e onde moram. Algumas pessoas de boa vontade e alguns paroquianos fazem contribuições para ajudá-los, às quais enviam a esse comitê que as utilizam para a compra alimentos, remédios e colchões, entre outras necessidades básicas. Quanto aos que se deslocam emigrando para a Nigéria, a assistência que lhes é oferecida, se refere à saúde, alimentação e outras necessidades básicas, através da Diocese de Mamfe.

Qual é a sua mensagem para os benfeitores da ACN? O que podemos fazer para dar apoio ao seu pessoal neste momento difícil?

Durante este momento, que é difícil, eu gostaria que a ACN nos mantivesse em suas orações, para que esta crise possa ser resolvida o mais rápido possível. A quantidade de vidas humanas sendo perdidas, propriedades destruídas, além do deslocamento migratório de muitas pessoas, é motivo real de preocupação. Entretanto, a Fundação ACN também pode ajudar-nos a cuidar dos migrantes deslocados interna e externamente; ajudando também algumas das nossas paróquias, onde os padres sofrem grande dificuldade para cumprir seu trabalho pastoral.

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