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Mianmar: “Temo um banho de sangue”

16 de março de 2021

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ACN conversou com Angela Jacobi, diretora da fundação “Dr. Michael & Angela Jacobi-Stiftung”, que mantém numerosos projetos em Mianmar. Ela informa sobre o que está por trás do golpe militar.

Em Mianmar, o processo democrático está por um fio. Na noite de 1º de fevereiro, os ex-militares birmaneses deram um golpe para retomar o poder. As forças armadas impuseram o estado de emergência a este país do sudeste asiático por um ano. Mas, ao contrário do passado, o povo está resistindo ao golpe. Muitos cidadãos de Mianmar saem às ruas, uma greve geral foi anunciada.

Confira a entrevista feita por Volker Niggewöhner.

O que a senhora sabe sobre a atual situação em Mianmar?

Centenas de milhares de pessoas saíram às ruas. Essa é a primeira vez que grupos inteiros de profissionais, como médicos, empregados de serviços ferroviários e aeroportuários e, inclusive, policiais aderiram aos protestos. Isso é perigoso para os generais. Se a polícia se coloca contra os generais, o golpe poderá fracassar. Mas o que as pessoas podem fazer contra os tanques? Há tanques por todas partes.

A senhora ainda consegue se comunicar com Mianmar? Conforme relatos, as conexões via internet foram cortadas.

Surpreendentemente ainda mantenho contato com dois religiosos. Me escreveram que a situação é “muito, muito grave”. A última mensagem que me chegou veio do Norte do país, onde há muitos campos de refugiados e as agitações são frequentes. Enfim me contaram que agora o exército está disparando contra pessoas desarmadas.

Alegam que o motivo oficial do golpe de Estado foi uma suposta fraude eleitoral. Afinal o que há de verdade nessa acusação?

Na minha opinião isso não passa de um pretexto, de uma razão ostensiva. Também o Cardeal Bo confirma isso na sua mensagem de 3 de fevereiro endereçada às partes do conflito e da opinião pública mundial. Ali estavam observadores internacionais e o problema poderia ter sido discutido direta e imediatamente. As eleições aconteceram em 8 de novembro e, de repente, em 1º de fevereiro alegaram que as eleições foram fraudadas – mas isso é tão óbvio que nada mais precisa ser dito.

Qual poderia ser a verdadeira razão para o golpe de Estado?

Na minha opinião, Aung San Suu Kyi e o seu partido sempre foram um espinho para os militares e agora obtiveram pela segunda vez uma vitória esmagadora sobre eles. No entanto, pela segunda vez, testemunhamos a farsa de que três quartos dos assentos no parlamento são ocupados pelos militares, apesar de Aung San Suu Kyi ganhar mais de 80% dos votos.

O problema é que todas as minas de matéria-prima e, principalmente, os três maiores consórcios industriais do país estão nas mãos de militares. E, com a nova vitória eleitoral clara de Aung San Suu Kyi, eles vêem que vão perder suas vantagens.

Qual a sua avaliação sobre o processo democrático nos últimos anos?

Desde o início o partido do governo NLD , tinha as mãos atadas. Se 3 de 4 cadeiras estão ocupadas por militares, não há muita coisa que se possa fazer.  Afinal não importa o quanto trabalhe duro para tentar fazer algo. No entanto, o mais importante para as pessoas é que tenham esperança na democracia. A partir dessa esperança, muitas coisas boas puderam se desenvolver. Existem muitas abordagens positivas, por exemplo, no campo da educação. Tudo isso é questionado novamente agora.

Que papel o nacionalismo realmente desempenha em Mianmar?

Infelizmente o nacionalismo tem um papel importante. Isso fica evidente no papel que os monges ultranacionalistas desempenharam, no golpe de Estado. Mas foi algo muito mais importante do que eu poderia imaginar. Eu já tinha notado, durante a crise dos Rohingya, que há um grande desejo e ambição de transformar Mianmar em um Estado puramente budista.

Este golpe tem consequências para os cristãos e outras minorias religiosas?

Temo que sim. Afinal vimos rapidamente os muçulmanos serem quase que completamente depostos. Me preocupa bastante que possa ser iniciada, em larga escala, uma uma perseguição aos cristãos.

O golpe aconteceu cerca de três meses após a eleição, o que significa que não pode ser explicado como um ato impulsivo. Isso seria uma evidência de que potências estrangeiras também poderiam estar envolvidas?

A imprensa de Mianmar está falando abertamente sobre a intervenção da China. Porque é um país que, dentro da Ásia, possui verdadeiros tesouros devido aos seus muitos recursos. Sei por minhas viagens que os chineses adorariam ser donos de Mianmar.

Em sua carta de 3 de fevereiro o cardeal Bo disse: “Estamos atravessando o período mais difícil de nossa historia”. Na sua opinião, o que a comunidade internacional poderia fazer ?

Isso não é fácil de responder. Pelo menos não deve haver sanções que enfraqueçam ainda mais o povo. Aliás minha maior esperança está nas próprias pessoas. Mas não sei quanto tempo as pessoas serão capazes de aguentar. Assim eu temo que estão caminhando para um banho de sangue. Os militares são impiedosos, parece que cada movimento foi planejado com muita antecedência.

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