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Mauritânia: os desafios de servir uma comunidade de migrantes

Publicado em: março 10th, 2026|Categorias: Notícias|Views: 24|

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A única diocese da Mauritânia acaba de celebrar seu sexagésimo aniversário. Dom Victor Ndione, que dirige a Diocese de Nouakchott há dois anos, falou à ACN sobre os desafios de exercer o ministério pastoral em um país de trânsito afetado pela emigração ilegal e pela escassez de recursos da Igreja.

O que torna sua diocese única?

A Igreja na Mauritânia, que tem apenas uma diocese fundada em dezembro de 1965, reúne cerca de 6 mil fiéis, todos estrangeiros, em sua maioria provenientes de países vizinhos como Senegal, Gâmbia, Mali e Guiné-Bissau. A diocese conta com dois bispos (um deles emérito), 13 padres — dos quais apenas dois são incardinados; todos os demais são religiosos ou fidei donum — e cerca de 30 religiosas, todas estrangeiras.

A Igreja goza da boa vontade das autoridades e da população, graças às suas atividades sociais e caritativas. A Santa Sé mantém relações diplomáticas com a Mauritânia desde 2016, mas o Estado ainda não reconhece a Igreja como pessoa jurídica. As autoridades já iniciaram o processo de reconhecimento formal e, segundo as informações recebidas, devem concluí-lo em breve.

O islamismo é a religião do Estado na Mauritânia. Os cristãos são bem recebidos?

Na Mauritânia, o islamismo tradicionalmente moderado e marcado pelo sufismo não promove perseguição aberta contra os cristãos. No entanto, estamos observando o crescimento do islamismo salafista, que se infiltra no país e não vê com bons olhos a Igreja Católica nem os muçulmanos moderados.

A questão da migração está no centro das atividades da diocese. O que o senhor pode nos dizer sobre isso?

A Mauritânia é um ponto de passagem para aqueles que sonham em estar em outro lugar. Durante a emigração clandestina, o mar tira regularmente vidas, e isso entristece a todos. Às vezes surgem problemas em nossa pequena comunidade, especialmente em Nouadhibou, no oeste do país. Só pessoas em profundo desespero ignoram os perigos do naufrágio. Na paróquia de Nouadhibou, tivemos um jovem responsável por enterrar os corpos das pessoas que davam à costa. Seria de se esperar que ele fosse o primeiro a reconhecer os riscos desse tipo de emigração, mas ele próprio morreu afogado ao tentar essa aventura impossível. Isso nos causou grande tristeza.

Qual é o papel da Igreja nesse contexto de islamismo e migração?

A Igreja procura demonstrar caridade a todos, com base na fé em Jesus Cristo, sejam mauritanos ou não mauritanos, sem distinção de religião ou condição social. Isso se traduz, antes de tudo, no atendimento às necessidades básicas: alimentação, saúde, educação e moradia. Entretanto, como o islamismo é a religião do Estado, nossa Igreja não faz proselitismo. O fenômeno da migração marca a vida em nossa diocese, afinal a Mauritânia é um país de trânsito. Muitas vezes, os migrantes tentam deixar a África porque não encontram oportunidades em seus países de origem ou, durante a passagem pela Mauritânia, devido à falta de educação.

Por isso, trabalhamos intensamente na formação profissional dos migrantes em Nouakchott, por meio de um centro de formação profissional que acolhe não apenas migrantes, mas principalmente mauritanos. Em Nouadhibou, nossa atividade se concentra nas áreas de panificação, carpintaria, eletricidade e alfabetização.

Nesse sentido, é aos governos dos países de origem que faço um apelo. Se os países da África Subsaariana desenvolvessem determinados setores localmente, reduziriam o drama da emigração clandestina.

Como enfrentar o desafio pastoral de uma comunidade em constante movimento?

O desafio da mobilidade é o principal fator do meu ministério. Me comparo a Sísifo, que recomeça continuamente a empurrar a pedra montanha acima: formamos líderes comunitários, catequistas, professores e pessoas para trabalhar com crianças, sabendo perfeitamente que talvez não estejam mais aqui dentro de seis meses.

O desafio da mobilidade também atinge os agentes pastorais. Todos os padres são estrangeiros: a maioria atua como missionário e suas congregações podem chamá-los de volta de um dia para o outro. O mesmo acontece com as religiosas. Embora já fossemos poucos, uma comunidade feminina acabou de fechar em nossa diocese. Isso é uma preocupação real, uma dificuldade concreta.

Me volto regularmente ao Senhor da Messe e peço que Ele envie trabalhadores, e também peço que rezem por isso.

Que tipo de apoio vocês recebem da ACN?

Por não sermos uma entidade juridicamente reconhecida, não podemos desenvolver atividades geradoras de renda para obter os recursos necessários às nossas ações pastorais, que exigem apoio financeiro. Mesmo quando os cristãos contribuem com a coleta, eles são pobres e seu número está diminuindo: a Mauritânia adotou recentemente medidas contra a imigração e muitos tiveram de deixar o país, o que reduziu as contribuições.

Os subsídios para missa oferecidos pela ACN são para nós uma importante fonte de renda. A solidariedade da Igreja universal e o apoio de organizações como a ACN são como um bálsamo reconfortante e um sopro de ar fresco, seja no acompanhamento dos migrantes e dos mauritanos — com educação, alimentação, saúde, entre outros — seja na vida da própria Igreja.

A ACN nos ajudou a reconstruir um centro pastoral em Nouakchott, capaz de acolher 200 pessoas; jovens e casais podem se reunir ali, receber catequese, se preparar para o matrimônio e participar de retiros espirituais. Isso é algo fundamentalmente importante. No que diz respeito à subsistência, não temos meios para sustentar o pessoal da pastoral, e a ACN oferece ajuda às religiosas. Por tudo isso, só podemos continuar a expressar nossa gratidão e rezar para que a ACN encontre os recursos necessários para apoiar nosso trabalho pastoral e o de outras Igrejas necessitadas.

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