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Esperança pascal em Gaza: fé resiste em meio à guerra e à escassez

Publicado em: março 30th, 2026|Categorias: Notícias|Views: 28|

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A Semana Santa começou em um cenário marcado por guerra contínua e escassez dentro do complexo católico em Gaza. Ainda assim, a esperança pascal permanece viva entre os fiéis, que seguem firmes na intenção de celebrar plenamente a Páscoa. Além disso, a comunidade se sustenta por meio da oração pela paz em todo o Oriente Médio, como destacou o padre Gabriel Romanelli à ACN.

À medida que a Festa da Ressurreição se aproxima, cresce também a incerteza sobre como acontecerão as celebrações na paróquia da Sagrada Família. A guerra continua ditando o ritmo da vida cotidiana. Mesmo diante desse contexto, a paróquia se organizou com antecedência. “Nós nos preparamos com os coroinhas para celebrar toda a Semana Santa com a liturgia completa”, afirmou o padre Romanelli.

Por outro lado, a programação depende diretamente das condições de segurança. “Teremos que avaliar o perigo todos os dias”, explicou o pároco da única paróquia católica no enclave palestino. Embora os bombardeios tenham diminuído, eles ainda acontecem. Quando surgem ameaças, os fiéis realizam as celebrações dentro da igreja. Para o sacerdote, o mais importante “é fundamental antes de tudo recordar Jesus, sua dor e seu amor redentor, para que também possamos oferecer nosso sofrimento pela redenção de todos e pela paz em Gaza, Jerusalém, em toda a Palestina, Israel, Líbano, Irã, nos países do Golfo e em todo o Oriente Médio”.

Fé viva no coração da adversidade

No dia 29 de março, a comunidade celebrou o Domingo de Ramos, que recorda a entrada de Jesus em Jerusalém, sob chuva e em meio a um clima de tensão. Segundo a ACN, a violência ainda se faz presente. “Houve muitos disparos ao longo da linha amarela (limite militar israelense estabelecido durante o cessar-fogo de outubro de 2025), e fragmentos de estilhaços caíram sobre nosso telhado”, relatou o padre Romanelli.

Diante do risco, a paróquia tentou diversas vezes manter tradições, mas precisou abrir mão de algumas delas. Por exemplo, não foi possível decorar a cruz da igreja com ramos. A estrutura que sustenta a cruz ainda mostra marcas dos bombardeios, embora a cruz tenha permanecido intacta, um sinal forte em meio à destruição. Ainda assim, contra todas as expectativas, a procissão de Ramos aconteceu no pátio da paróquia antes da missa.

Além disso, os ritos do Tríduo Pascal continuam previstos, mesmo com adaptações. Na Quinta-feira Santa, 12 homens de famílias católicas e ortodoxas participarão do Lava-pés, como sinal de unidade cristã em tempos difíceis. Neste ano, porém, os ortodoxos celebrarão a Páscoa uma semana depois. Já na Sexta-feira Santa, a comunidade não conseguiu organizar a tradicional encenação da Paixão de Cristo. Em seu lugar, os fiéis realizarão uma procissão com o “Sepultamento de Cristo” após a liturgia, caminhando até o cemitério ao lado da igreja em memória das vítimas da guerra.

Esperança pascal diante da dor e das perdas da guerra

A guerra trouxe consequências profundas para a comunidade cristã de Gaza. Ao todo, cerca de 6% dos fiéis perderam a vida, o que representa 60 pessoas. Desse número, 23 morreram em bombardeios ou por tiros de atiradores, enquanto outros 23 faleceram por falta de atendimento médico. Além disso, 14 idosos morreram em condições agravadas pelo conflito.

Mesmo com tantas perdas, a comunidade segue celebrando a fé. No Sábado Santo, a Vigília Pascal acontecerá com toda a riqueza litúrgica possível. No entanto, a escassez de recursos impacta os sinais da celebração. Sem os tradicionais incensos, os fiéis receberão água benta e alguns chocolates, que a paróquia tenta conseguir “a qualquer custo”, assim como fez no Natal.

Nesse contexto, o padre Gabriel reforçou o apelo por paz e ajuda humanitária. “Esperamos que toda a Terra Santa possa se alegrar na Páscoa do Senhor e que o Senhor nos conceda o fim desta terrível guerra e a abertura das fronteiras para que suprimentos médicos possam ser entregues”, afirmou.

Entre crise humanitária e reconstrução

Além dos desafios espirituais, a reconstrução material enfrenta grandes obstáculos. Ainda hoje, faltam insumos básicos para reconstruir casas, como vidro, madeira, cimento, cabos, ferro e sistemas elétricos e hidráulicos. Por isso, muitas famílias seguem em condições extremamente precárias.

Atualmente, a maioria dos refugiados cristãos deixou a paróquia e tenta reconstruir a própria vida. Muitos retornaram às suas casas destruídas ou buscaram abrigo em imóveis abandonados, emprestados ou alugados. Apesar das dificuldades, essa mudança representa um passo importante. “O fato de começarem a viver fora da paróquia lhes dá mais força”, observou o padre Romanelli.

Por fim, a paróquia continua sendo um ponto central de apoio. As crianças frequentam a escola pela manhã e participam de atividades de oração à tarde. Com a liberação de espaços antes ocupados por refugiados, a comunidade também voltou a acolher alunos muçulmanos, retomando, assim, uma prática anterior à guerra nas escolas do Patriarcado Latino de Jerusalém em Gaza.

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