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Cristão libertado no Paquistão faz um relato

6 de novembro de 2020

Um cristão libertado após cinco anos de prisão por um assassinato que não cometeu, conta sua história para a ACN. Conforme relatado pela ACN há alguns meses, 40 homens cristãos do Paquistão foram libertados no final de janeiro de 2020 depois de passarem quase cinco anos na prisão. A princípio, eles foram aleatoriamente acusados de participar do linchamento de dois muçulmanos.

O linchamento ocorreu em meio a distúrbios causados por dois ataques suicidas simultâneos contra a Igreja de São João e a Igreja de Cristo em Youhanabad, bairro cristão de Lahore, capital da província de Punjab, no Paquistão. Os ataques ocorreram em 15 de março de 2015 e, dessa forma, pelo menos 20 pessoas morreram e 80 ficaram feridas.

Um dos cristãos presos como resultado do linchamento dos dois muçulmanos foi Amjad Arif, motorista de uma autoriquixá (uma versão motorizada de três rodas do tradicional riquixá) de Lahore. Ele é pai de dois meninos e uma filha. Amjad contou à ACN sobre o seu sofrimento depois de ser preso injustamente em 2015.

Cristão libertado conta seu sofrimento

“Amamos nossa pequena casa em Youhanabad e o ambiente cristão. Mas a diferença é claramente perceptível na cidade, onde, por exemplo, não há celebrações ou música para o Natal ou a Páscoa. Nasreen, minha esposa, cuida de nossos pais idosos e participa regularmente da Missa de domingo na Igreja Católica de São João com nossos filhos.

A vida era boa até que as igrejas foram atacadas em 15 de março de 2015. Eu estava no terminal de caminhões deixando os passageiros quando meu sogro me ligou e me contou sobre o ataque terrorista. Liguei imediatamente para minha esposa, mas o serviço de celular foi suspenso em Youhanabad. Meu coração estava batendo forte. Corri de volta para casa, mas a entrada de nossa colônia estava bloqueada por manifestantes reunidos em torno de dois corpos queimados. Canais de notícias estavam transmitindo a tragédia ao vivo.

Peguei uma rota alternativa, entrei na colônia e estacionei meu riquixá. Enquanto eu passava pelos cinegrafistas nas ruas, um deles me filmou. Câmeras drones voaram ao nosso redor como moscas. Fui preso alguns dias depois, na esquina da minha casa. Meu irmão mais novo, um trabalhador assalariado diário, foi preso duas semanas depois.”

Sequência de crueldade

“Na delegacia, os policiais nos insultaram, bateram e torturaram com cassetetes, nos acusando de queimar muçulmanos. Em seguida, os terços que carregávamos foram tirados de três de nós e jogados no chão. Fomos forçados a aceitar o Islã ou a culpa pelo assassinato de dois homens. Entretanto, um cristão de 25 anos, também preso por suposto linchamento, se converteu ao islamismo e foi libertado três horas depois. Mantivemos nossa fé no Deus vivo.

No primeiro dia de prisão, todos os presos cristãos foram trancados no mesmo quartel. Após a chamada da manhã, costumávamos rezar em círculo por uma hora. A partir das oito horas da noite nos dedicávamos às orações pessoais, enquanto estávamos enjaulados em nossas respectivas celas. Quando um prisioneiro cristão adoeceu, não foi muito bem tratado. Dois de nós morreram naquela prisão.

O Padre Emmanuel Yousaf Mani, diretor nacional da Comissão Nacional Justiça e Paz dos Bispos Católicos do Paquistão (CNJP), costumava rezar por nossa liberdade e misericórdia no coração dos juízes. Ainda assim, a equipe do CNJP e outras ONGs nos visitaram regularmente e estiveram conosco em audiências no tribunal antiterrorismo.”

Cristão libertado contou com a ajuda da família e da igreja para superar a dor e tristeza

“Minha família trazia dinheiro e mantimentos duas vezes por mês. Contudo, Nasreen, que trabalhava como empregada doméstica, teve que vender o riquixá três anos depois para pagar o tratamento de meu pai idoso. Ele foi hospitalizado por 15 dias após um ataque cardíaco. Todo Natal, o CNJP deu 15.000 rúpias (US $ 90) para Nasreen como um presente. Outra ONG cobriu as despesas de educação dos meus filhos.

Em 29 de janeiro de 2020, 40 de nós foram libertados às 23h. Afinal, o pastor Anwar Fazal, o televangelista (um religioso que faz pregações em programas de televisão) cristão mais popular do país, pagou uma indenização à família dos dois muçulmanos no valor de 25 milhões de rúpias (aproximadamente US $ 150.000) por nossa liberdade. Meu pai distribuiu comida grátis no dia seguinte. Várias organizações nos deram dinheiro para reabilitação.”

No recomeço, mais uma tristeza

“Fiquei dentro de casa por três meses temendo vingança das famílias dos muçulmanos mortos no linchamento. Enfim, comprei um riquixá a prazo. Mas, uma noite, três passageiros roubaram o veículo e me deixaram amarrado em uma árvore na cidade vizinha, depois de me sufocar com meu próprio lenço.

Estava chovendo naquela noite e não havia ninguém por perto. Me desamarrei e corri para três diferentes delegacias, antes de chegar à certa. Meus olhos estavam vermelhos como sangue e meu rosto estava inchado. Voltei para casa depois de três horas. Devo forçar minha voz a falar, pois ainda dói. Foi uma vingança das famílias das vítimas? Eu não sei. No entanto, enquanto espero um novo riquixá, agradeço a Deus pela nova vida. Eu realmente amo meus filhos. Eu estou vivo por causa deles. ”

A ACN tem apoiado regularmente o trabalho da Comissão Nacional de Justiça e Paz (CNJP) dos bispos católicos. A instituição de caridade internacional também tem sido uma das apoiadoras da reabilitação e reintegração dos 40 cristãos libertados da prisão. Você pode ajudar a ACN nesta importante missão de ajudar aqueles que foram presos por causa de sua fé, faça sua doação!

Assista também ao programa A Igreja pelo Mundo sobre os cristãos no Paquistão.

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