A crise terrorista no norte de Burkina Faso continua a afetar profundamente a população e as comunidades cristãs, mas recebe pouca atenção da mídia internacional. Enquanto milhares de pessoas deslocadas enfrentam necessidades urgentes, a Igreja segue atuante e resiliente. Durante uma visita à sede da ACN, em Koenigstein, na Alemanha, os bispos Théophile Naré e Justin Kientega relataram a realidade vivida nas dioceses de Kaya, Dori e Ouahigouya.
Além da violência, a falta de visibilidade agrava a situação humanitária. Sem cobertura internacional consistente, as dificuldades enfrentadas por cristãos e outras comunidades locais permanecem praticamente invisíveis fora do país. Ainda assim, a Igreja mantém sua presença pastoral e social, mesmo diante de riscos constantes.
Nesse contexto, os líderes religiosos destacam que a fé se tornou um pilar de resistência. Mesmo sob ameaça, as comunidades continuam a se reunir, adaptar rotinas e preservar a vida religiosa como sinal de esperança.
Crise terrorista e mudanças nas celebrações religiosas
Pelo décimo ano consecutivo, as missas de Natal em Burkina Faso acontecerão antes do anoitecer. “As celebrações começarão mais cedo para evitar deslocamentos à noite”, explica dom Théophile Naré, bispo de Kaya e administrador apostólico da Diocese de Ouahigouya. A medida busca reduzir riscos em regiões onde a insegurança permanece elevada.
Da mesma forma, a prudência orienta a organização das grandes celebrações religiosas. Desde o Fórum sobre Vida Pastoral e Segurança, realizado em 2021, fiéis, escoteiros, Voluntários para a Defesa da Pátria e forças de segurança atuam de forma coordenada durante festas e eventos litúrgicos.
Assim, mesmo com restrições, a vida pastoral segue ativa. A cooperação entre Igreja e comunidade local fortalece a proteção dos fiéis e permite que as celebrações continuem acontecendo.
Fé, resiliência e crescimento da Igreja
Apesar do medo, a fé permanece viva. “O sangue dos mártires é semente da Igreja”, recorda dom Naré, citando Tertuliano. Segundo ele, “a palavra-chave é resiliência: perseverar na oração, na esperança e na prática do bem”. Essa postura se reflete na participação expressiva dos fiéis.
Em março, a celebração dos 125 anos da evangelização de Burkina Faso reuniu cerca de dois milhões de pessoas no santuário mariano de Yagma. “Se o inimigo pensava em apagar o cristianismo, está perdendo tempo: o cristianismo na África está se expandindo”, afirma o bispo.
Além disso, o crescimento vocacional chama atenção. Em Koumi, no oeste do país, o seminário está cheio, mesmo com sacerdotes sendo alvos de grupos terroristas. O contraste entre risco e vocação evidencia a força da fé local.
Pastoral nas prisões e testemunhos de coragem
O dinamismo da Igreja também aparece no trabalho pastoral nas prisões. Dom Justin Kientega celebra regularmente na capelania da prisão civil de Ouahigouya, onde missas e visitas reúnem católicos, muçulmanos e protestantes. Para o bispo, essa convivência fortalece o diálogo e a esperança.
Recentemente, a ACN aprovou um novo projeto para o desenvolvimento da capelania. Segundo dom Kientega, “essa presença pastoral alimenta muitas conversões” e oferece apoio espiritual a pessoas em situação extrema.
Além disso, as dioceses do norte acumulam relatos de coragem. Em Pibaoré, no mês de agosto, mulheres da paróquia formaram um escudo humano para proteger o sacerdote durante um ataque ocorrido no meio da missa.
Deslocamentos, insegurança e sinais de melhora
O bispo de Kaya destaca que “esse ato heroico não foi repercutido pela mídia, mas permanece como um importante símbolo de fé e solidariedade”. Pouco tempo depois, a paróquia precisou encerrar suas atividades, já que a população fugiu da região e o sacerdote passou a viver em Kaya.
O norte de Burkina Faso segue entre as áreas mais afetadas do país, embora existam sinais pontuais de melhora. “Que eu saiba, não houve sequestros recentes nas duas dioceses sob minha responsabilidade, mas vários ataques causaram dezenas de mortes”, relatou dom Naré à ACN, acrescentando que é difícil obter dados confiáveis.
Na Diocese de Dori, apenas as paróquias de Dori e Gorom permanecem abertas, e o bispo só consegue visitá-las com escolta militar ou de helicóptero. Já na Diocese de Ouahigouya, a paróquia de Thiou, próxima à fronteira com o Mali, está fechada.
Silêncio internacional diante da crise terrorista
De modo geral, a violência não aumentou, mas a vida nas aldeias continua difícil. Muitas comunidades cristãs se deslocaram para cidades mais seguras. Em Kougoussi e em Kaya, a população triplicou em apenas dez anos, pressionando serviços e estruturas locais.
Apesar da gravidade da situação, a comunidade internacional demonstra pouca reação diante da crise terrorista. “Ou ela sabe e não reage, ou não age porque não sabe”, lamenta dom Naré. As dioceses não dispõem de recursos para documentar ataques, divulgar testemunhos ou reforçar o apelo por ajuda humanitária.
Nem mesmo a celebração histórica dos 125 anos da evangelização em Yagma recebeu cobertura da mídia. Para enfrentar esse desafio, dois sacerdotes da Diocese de Kaya receberão formação em comunicação no exterior, com apoio da ACN.
Resposta humanitária da Igreja e apoio da ACN
Enquanto isso, a Igreja concentra esforços nas necessidades básicas. “Alimento, abrigo, cuidados médicos. É uma questão de sobrevivência”, resume dom Naré. Os campos de deslocados estão lotados e não conseguem acolher novas famílias.
Muitos deslocados chegam com ferimentos, doenças e traumas profundos. Por isso, hospitais, missões, sacerdotes e bispos se tornaram pontos de apoio essenciais. Garantir acesso à escola para crianças deslocadas, apoiar catequistas e seminaristas e oferecer acompanhamento psicológico são prioridades constantes.
Nesse sentido, um sacerdote da Diocese de Ouahigouya, formado no Quênia com apoio da ACN, atua no atendimento a vítimas de trauma, em parceria com leigos. “A ACN leva em conta todas as dimensões da pessoa humana. Só podemos parabenizar os benfeitores e incentivá-los a continuar”, afirma dom Kientega.
Apoio às religiosas deslocadas
Por fim, as Irmãs de Nossa Senhora do Lago Bam, instituto diocesano sob a supervisão canônica de dom Kientega, receberão ajuda da ACN em 2026 para adquirir uma nova casa em Ouagadougou. O local acolherá cerca de 30 religiosas que perderam suas bases nas aldeias isoladas das dioceses de Kaya e Ouahigouya.
Assim, mesmo em meio à crise terrorista e ao silêncio internacional, a Igreja em Burkina Faso segue oferecendo proteção, fé e esperança às comunidades mais afetadas.
Eco do Amor
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