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A triste história de mais uma vítima do Boko Haram

28 de maio de 2021

Horror e vida nova muitas vezes andam de mãos dadas na Nigéria. A história comovente de uma das vítimas de Boko Haram é um exemplo.

* Para preservar a vítima, no texto trocamos seu nome verdadeiro para Amara, que em Igbo (uma das línguas faladas na Nigéria) significa graça, misericórdia.

Amara nunca se esquecerá daquele dia horrível de novembro de 2018. Ela o reviveu indefinidamente. E ainda o faz. Agora uma mulher de 21 anos, mas na época ela vivia com suas irmãs e pais em uma fazenda no nordeste da Nigéria, a apenas alguns quilômetros da capital da província de Maiduguri.

Amara, sua irmã mais nova e seus pais estavam do lado de fora quando um grupo de rapazes cercou a fazenda. Eles haviam chegado de motocicleta. Eles exigiram que seu pai entregasse as meninas para eles. Ou então eles o matariam. É difícil encontrar palavras para descrever o que aconteceu a seguir. Quando seu pai se recusou a entregar suas filhas aos homens, Amara de repente se viu segurando a cabeça de seu pai entre as mãos. Os homens da organização terrorista Boko Haram o decapitaram a sangue frio. Amara desmaiou. “Daquele momento em diante, ela foi atormentada por flashbacks. Ela vive com o medo constante de ser morta”, explica o Padre Fidelis Bature, psicólogo clínico e parceiro de projetos da ACN.

No entanto, o sofrimento de Amara não terminou aí. Aliás, estava apenas começando. Uma manhã, depois de perder a consciência, ela acordou e se viu no meio do mato. Então, rapidamente percebeu que os jovens a haviam levado com eles para um acampamento do Boko Haram. O Padre Fidelis não descreve os horrores que ela experimentou ali. Ele apenas diz: “Amara foi repetidamente torturada e abusada de todas as formas imagináveis.” Ela finalmente conseguiu escapar. Ferida, exausta e com dores, ela conheceu um homem idoso que a ajudou a alcançar um lugar seguro. No entanto, por mais que tentasse, Amara não conseguia se lembrar onde ficava a casa de seus pais. Levou horas para que ela conseguisse ser levada de volta para sua mãe e seus irmãos.

Vítimas de Boko Haram recebem assistência para curar traumas

“Naquela época, Amara não conseguia falar nem explicar o que havia acontecido”, lembra o Padre Fidelis. Então a mãe de Amara a trouxe para a igreja e ele viu que ela estava profundamente traumatizada. “Ela via espíritos e pessoas sem cabeça. Era atormentada por constantes flashbacks, alucinações e pensamentos perturbadores. ”

Amara é uma das muitas vítimas de Boko Haram que recebem assistência no “Centro de Recursos Humanos e Aquisição de Habilidades para Cura de Trauma”, administrado pela Diocese de Maiduguri, onde o Padre Fidelis trabalha. A ACN apoia a iniciativa que tenta curar aqueles que foram profundamente feridos em suas almas.

Muitos na região sofreram o mesmo destino que Amara. Afinal, por anos, eles foram atormentados por grupos terroristas que buscavam estabelecer um estado islâmico. Os grupos têm causado muito sofrimento entre cristãos e muçulmanos. “A crise do Boko Haram causou dificuldades incalculáveis. Pessoas perderam suas vidas e seus meios de subsistência. Muitos ainda vivem em campos”, afirma o Padre Fidelis.

Diocese faz um trabalho nos campos de refugiados

E é exatamente aqui que começa o trabalho da Diocese de Maiduguri. Desse modo os serviços de apoio psicológico têm sido sistematicamente construídos nos últimos meses com o seguinte procedimento: os especialistas treinam os chamados conselheiros leigos, que depois visitam os campos de refugiados. Dessa forma, oferecem primeiros socorros psicológicos, aconselhamento em grupo e apoio psicossocial. Então os casos individuais são tratados por uma equipe com dois especialistas. Mas os casos particularmente graves são encaminhados para o hospital neuropsiquiátrico estadual.

No entanto, o sacerdote enfatiza que o trabalho do centro não se concentra apenas no atendimento psicológico imediato. Afinal, sua organização também ajuda os deslocados internos a reconquistar uma posição na vida e se reintegrar à sociedade. “Trabalhamos com todas as partes envolvidas para criar consciência sobre os perigos da estigmatização e a necessidade de integração social.”

Apoio da ACN às vítimas de Boko Haram

Graças à ajuda da ACN para este serviço essencial, centenas de pessoas puderam começar uma nova vida. Isso depois de terem sobrevivido à violência terrorista dos membros do Boko Haram.

Amara está muito melhor. Ela foi medicada e faz terapia. As alucinações desapareceram. Agora ela está se alimentando melhor de novo, está dormindo normalmente. Fez um grande progresso em direção a uma vida relativamente normal. No momento está se preparando para ser costureira.

Hoje, Amara só vem ao centro para acompanhamento periódico. Afinal o foco de sua terapia agora é apoiar seus planos de carreira e construir um futuro. Amara quer fazer mais com sua vida e não quer dar ao Boko Haram a última palavra. “Ela voltou para nos agradecer e perguntar se poderia continuar os estudos, pois tem apenas o diploma de ensino médio. Ela já se inscreveu para os exames de admissão à universidade”, relata o Padre Fidelis.

Você também pode ajudar a ACN a dar continuidade a esse importante trabalho de curar as feridas dos nossos irmãos na Nigéria. Faça sua doação!

Assista também ao documentário produzido pela ACN: Nigéria – Aleluia!

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