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Taybeh: Não deixem que os cristãos palestinos se tornem uma memória do passado

Publicado em: março 13th, 2026|Categorias: Notícias|Views: 83|

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A última aldeia totalmente cristã da Cisjordânia, Taybeh, a leste de Ramallah, tem enfrentado uma onda de ataques e intimidações por parte de colonos israelenses. Entre os atos hostis estão incêndios em terras agrícolas, carros e nas paredes de uma antiga igreja, grafites de ódio e ameaças, rebanhos soltos dentro da aldeia, sem mencionar os numerosos postos de controle militares nas entradas da cidade.

Em 8 de fevereiro de 2026, o governo israelense adotou uma decisão administrativa que reforça a autoridade de sua administração civil e militar sobre terras e imóveis na Cisjordânia.

Em entrevista à ACN, o padre Bashar Fawadleh, da paróquia latina, fala de uma “pressão crescente” sobre os 1.400 habitantes da aldeia, além da “falta de proteção”.

Qual foi sua reação à decisão de 8 de fevereiro de 2026 que fortalece o controle israelense na Cisjordânia?

O gabinete de segurança do governo israelense tomou uma decisão muito séria em relação à Cisjordânia, reforçando seu controle direto sobre esse território. Essa decisão é considerada uma das mais perigosas desde 1967 e muitas pessoas a veem como o início de uma anexação oficial da Cisjordânia.

Primeiramente, muitas responsabilidades administrativas e civis estão sendo transferidas para instituições israelenses, inclusive em áreas que deveriam estar sob gestão palestina. A expansão dos assentamentos está sendo incentivada. Colonos poderão comprar mais terras e expandir seus postos avançados. Isso coloca uma pressão crescente sobre cidades e aldeias palestinas como a nossa.

Israel também está assumindo controle total de importantes locais religiosos, especialmente a Mesquita de Ibrahimi, em Hebron (construída sobre o Túmulo dos Patriarcas). As autoridades palestinas estão perdendo seu papel ali, o que afeta os direitos religiosos e culturais dos habitantes. Por fim, aumentam as demolições de casas e as restrições de circulação. Cidades e aldeias passam a ficar isoladas umas das outras.

O que isso significa para uma aldeia como Taybeh?

Essa decisão afeta diretamente a vida cotidiana das pessoas, que se torna cada vez mais difícil. Famílias estão perdendo suas casas. Trabalhadores não conseguem mais ir aos seus empregos. Estudantes enfrentam dificuldades para chegar à escola. Agricultores não conseguem acessar suas terras.

Há anos, os habitantes de Taybeh sofrem ataques de colonos vizinhos: destruição de terras agrícolas, inclusive em fevereiro, incêndio de propriedades e impedimento de que agricultores cheguem às suas oliveiras, que são sua principal fonte de renda.

Em 28 de fevereiro, colonos entraram em uma propriedade pertencente a uma família e roubaram um cavalo e seu potro. Além disso, o contexto regional, marcado especialmente pela guerra em Gaza, continua a ter profundas repercussões na Cisjordânia. O clima geral se tornou mais frágil e tenso, com aumento das operações militares e restrições de circulação devido à instalação de portões militares em várias entradas da cidade, incluindo um novo instalado há cerca de duas semanas. As forças israelenses controlam quando esses portões são abertos ou fechados, o que perturba a vida diária dos civis.

Com essa nova decisão israelense de fevereiro de 2026, a pressão tende a aumentar ainda mais. A expansão dos assentamentos ameaça as terras agrícolas. A falta de proteção deixa os moradores sem apoio jurídico. A violência cria um clima de medo e insegurança.

Tudo isso levou muitos cristãos da Terra Santa a considerar a emigração. Que mensagem o senhor tem para eles? Como encorajar aqueles que permanecem?

Infelizmente, a ideia de emigrar está cada vez mais presente na mente das pessoas. Várias famílias já deixaram Taybeh — 16 entre 2023 e 2025 — e outras consideram seriamente essa possibilidade, sobretudo por causa da insegurança e da falta de perspectivas econômicas. A história de Taybeh fala de casas vazias, terras perdidas, comunidades fragmentadas e do desaparecimento progressivo dos cristãos de sua terra histórica. Como sacerdote e pastor, minha mensagem é, antes de tudo, de compreensão e proximidade: compreendo o medo e a responsabilidade dos pais em relação aos seus filhos.

Mas também quero lembrá-los de que a presença cristã em Taybeh é uma missão e um testemunho vivo: o de uma fé enraizada nesta terra onde o cristianismo nasceu. Deixar a terra às vezes é uma necessidade humana, mas permanecer muitas vezes é um ato de fé e esperança. A esperança não nega as dificuldades, mas nos recorda que a dignidade humana, a justiça e a paz continuam possíveis. Os cristãos da Terra Santa querem continuar sendo artesãos do diálogo, da paz e de uma presença evangélica no coração desta região ferida.

No entanto, para encorajar aqueles que permanecem, precisamos de apoio concreto: criação de empregos, acompanhamento dos jovens, fortalecimento da solidariedade paroquial e garantia de que cada família sinta que não está sozinha.

Qual papel o senhor espera da comunidade internacional, da Igreja universal e das organizações cristãs internacionais?

Como sacerdote que vive essa realidade no terreno, espero que a comunidade internacional nos visite, documente os incidentes e tome medidas claras para garantir a segurança dos civis, o acesso às terras agrícolas e às fontes de renda, a proteção dos locais de culto e o fim da impunidade.

Espero da Igreja universal uma voz forte e constante em favor dos cristãos da Terra Santa, bem como apoio pastoral e material para ajudar as famílias a permanecer em suas terras.

Por fim, espero das organizações cristãs internacionais, como a ACN, um apoio essencial por meio de projetos concretos nas áreas de educação, habitação, emprego e apoio psicológico e espiritual.

Que mensagem o senhor gostaria de enviar aos cristãos do mundo inteiro?

Como sacerdote de Taybeh, gostaria de dizer aos cristãos do mundo inteiro que precisamos da sua solidariedade. Taybeh não é apenas uma aldeia; é um sinal vivo da presença cristã na Terra Santa.

Rezem por nós, mas também nos apoiem por meio de suas ações, do seu compromisso e do seu testemunho. Nos ajudem a garantir que os cristãos desta terra permaneçam uma comunidade viva, enraizada na fé, e não apenas uma lembrança do passado.

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