//Calcutá: Um encontro que marcou a história

Calcutá: Um encontro que marcou a história

2017-01-18T12:35:17+00:00setembro 1st, 2016|Palavra Viva|

Foi em 1959 quando o padre Werenfried visitou a “Casa para os Morimbundos Abandonados” em Calcutá, Índia. Lá conheceu Madre Teresa e todo o trabalho que ela fazia junto aos mais pobres entre os pobres. Este encontro, esta visita, marcou profundamente a vida do sacerdote holandês. Werenfried não demorou para contar para o mundo o que viu naquele lugar. O texto abaixo pode parecer longo, mas o encorajamos a ler até seu fim.

Horror na Ásia¹
Tirado do livro “Me chamam Padre Toucinho” (Publicado em 1961)

Então veio Calcutá. Um milhão de pessoas sem moradia vivem, dormem e morrem nas ruas escaldantes desta metrópole. Cem mil outros, a maioria refugiados do Paquistão, moram pelas calçadas. Eles construíram pequenas cabanas, bem juntas uma da outra, a perder de vista, apoiando-se contra as paredes das casas. A altura de seus telhados é de um pouco mais de 1 metro. Pelos canos passam água marrom e barrenta das calhas. Não há comida, trabalho, nada. Dos quatrocentos milhões de indianos, três quartos são subnutridos. Apenas as vacas sagradas estão em melhores condições – dizem que há duzentas milhões delas. Andam sem impedimentos pelas ruas, bloqueam o tráfego, devoram o conteúdo de quitandas; elas não podem ser espantadas nem mortas. E as pessoas estão famintas. Há casas para vacas mais velhas, mas não há para pessoas idosas.

A única preocupada com as pessoas é Madre Teresa. Ela cuida dos abandonados, lhes conseguindo todas as manhãs algo sem ser da lata de lixo; cuida também dos doentes e moribundos. Visitei-a na casa destes que estão quase morrendo. A casa é bastante perto do Templo de Kali, usado como um templo de prostituição. Agora é a última casa para aqueles que morrem sós. Acima da porta estão as palavras: “Home for Dying Destitutes” (Casa para os Morimbundos Abandonados). Freiras e ajudantes de Madre Teresa percorrem as ruas procurando os moribundos, e os carregam em macas para sua casa. Na minha visita, havia 127 desses naquela casa: seis longas filas de macas uma ao lado da outra. Murchos esqueletos ali estavam esperando a morte: olhos febris escuros olhavam para mim. Mas Madre Teresa e seus ajudantes ficavam com eles, e, talvez fosse pela primeira vez em suas vidas que essas pessoas, na beira da morte, experimentavam um amor sem interesse. Madre Teresa é uma freira albanesa da Iugoslávia que vive há trinta e sete anos na Índia. Cerca de quinze anos atrás, ela fundou uma congregação com o propósito de cuidar dos mais pobres e necessitados. Já existem 125 freiras, das quais seis vieram da Europa.

Havia uma menina de Friburgo, Alemanha, lá. Quatro anos atrás eu havia pregado em Friburgo, e depois do sermão ela foi me procurar e disse que queria dedicar sua vida a Deus a serviço dos mais pobres, e perguntava se eu poderia dizer-lhe para onde ir. Eu honestamente não sabia. Prometi que iria orar para que o Senhor a iluminasse e a aconcelhei discutir o assunto com alguém que a conhecia intimamente: então Deus certamente lhe mostraria o caminho. Eu nunca ouvi mais nada sobre ela. Mas em Calcutá eu a reconheci na casa dos moribundos, e ela me reconheceu. Ela estava ali por volta de um ano e meio, mostrando um pouco de amor para mais de doze mil pessoas à beira da morte. Não é tanto pela roupa ou comida, mas é o cuidado maternal que ilumina os últimos dias daquelas pessoas como num milagre.

Em Calcutá eu batizei uma criança que estava morrendo nos braços de sua mãe muçulmana de dezesseis anos de idade, porque eu não sou apenas um mendigo, mas antes de tudo um sacerdote, que fica contente por batizar uma criança. Ninguém notou que dei à criança o nome Werenfried². Dez minutos depois, o pequeno Werenfried estava morto. Quando homens chegaram para levá-lo, eu fui também. Chegamos a um local cercado perto do Templo de Kali. Havia dezessete trincheiras no chão com fogueiras acesas em cada uma delas. Para cada cadáver, madeira no valor de quarenta rúpias³ deveria ser comprada. Os ricos compram uma lata de gasolina para que se leve menos tempo. Sem gasolina o processo leva pelo menos três horas. A criança foi colocada com as outras pessoas mortas no chão até que uma trincheira ficasse livre. Um homem que havia sido atropelado por um bonde tinha acabado de ser jogado no fogo.

Os parentes esperavam pacientemente e falavam um com o outro enquanto que as crianças brincavam com ossos que tinham escapado do fogo. Uma vaca sagrada ia por entre as trincheiras de queima e fungou na criança morta. De tempos em tempos, surgia um estrondo abafado: este foi um crânio explodindo. Cada vez que um corpo ficava pronto, as cinzas eram reunidas numa vasilha e jogadas no rio mais adiante, onde crianças pulavam na água e brincavam com lama e cinzas.

Nesta cena macabra os seres humanos são nada mais do que um pedaço de carne, um pedaço de osso, um monte de cinzas. Por que essas pessoas são ainda tão pouco afetadas pelo cristianismo, após quatro séculos em contato dele? A razão é que nós, os cristãos, temos faltado culposamente com o amor puro e a ajuda fraterna. Este é especialmente o caso em que o povo cristão, como potências colonizadoras, têm carregado a responsabilidade do desenvolvimento, da educação e da instrução religiosa dos chamados países subdesenvolvidos. Eu sei, é claro, que não somos pessoalmente responsáveis pelos pecados de nossos pais. Mas temos sim o dever de fornecer a caridade que nossos antepassados da era colonial não podem mais.

Já estive em lugares onde os ratos morreriam de fome se não tivessem mais o que comer do que as pessoas tinham. Eu lembro de ter lido em algum lugar que há locais onde 450 mil crianças morrem em seu primeiro ano por falta de alimento. Ouve-se em New York que estão sendo dadas aulas de dicção pela televisão, mas há hoje 600 milhões de crianças no mundo sem escolas ou professores. Elas permanecerão todas as suas vidas analfabetas. Em certas regiões, metade da população morre antes dos 15 anos. Dois terços da humanidade passa fome. Amanhã, o caminhão de lixo vai visitar as nossas casas para recolher comida, que temos jogado fora, mas em Calcutá o caminhão de lixo virá para limpar os corpos daqueles que morreram de fome durante a noite. Se um cão é atropelado nesses lugares, as crianças lutam por um pedaço de carne ou osso para mastigarem. Esta é a dura realidade, e não podemos fechar os olhos para ela.

Já estou trabalhando pela Ajuda à Igreja que Sofre por mais de quarenta anos. Nestes anos, tenho visto uma terrível miséria e tristeza. Mas coisas como essas eu nunca tinha experimentado. Eu acho que é meu dever escrever isto: eu não sei como as coisas podem melhorar. Eu só sei que devemos fazer tudo – tudo – e que a nossa Obra tem uma tarefa aqui: de uma forma ou de outra isso tem a ver com os perseguidos ou com a Igreja em necessidade. Essas coisas conduzem inevitavelmente à perseguição religiosa. E de fato o futuro do comunismo – e, portanto, também do cristianismo – será decidido nos países sobre os quais estou escrevendo.

Há uma passagem trágica na Sagrada Escritura: “Ele veio para os Seus, e os Seus não O receberam!” Não havia lugar para Ele, porque “os seus” estavam sem amor. Esta é a origem escondida de todas as guerras e de toda destruição, erros e desordem. Sem Cristo, tudo dá errado, porque Ele é a Cabeça que governa toda a humanidade. E Cristo está presente apenas quando há amor.

Vamos, portanto, em nome de Deus, restaurar o amor, que abre portas e corações para Ele. Nós, seres humanos somos uma só raça. Todos nós. Até os povos mais primitivos dos países ditos subdesenvolvidos e as milhões de pessoas famintas no mundo de hoje. O abandonado na lata de lixo e a mãe chorando pelo pequeno Werenfried, a quem batizei; o velho chinês com sua garrafa de gim e o refugiado em uma barca em Hong Kong. As conhecidas meninas famintas da Coreia, que dormem com os norte-americanos pela tamanha pobreza, e os pequenos catadores que pararam de roubar: eles todos nos pertencem, e nós a eles. Devemos amar uns aos outros e ajudar uns aos outros. Como São Martinho: que andava montado em seu cavalo quando um mendigo gritou por socorro, mas São Martinho não tinha nada para oferecer. Então ele pegou sua capa, cortou-a ao meio e deu metade ao mendigo. Metade, leitor! O mendigo era Cristo. Por isso, cada pobre é Cristo!

________________________

¹ Tradução de: STRAATEN, WERENFRIED VAN. Horror in Asia. In. They call me the Bacon Priest. Fort Collins, Colorado, U.S.A.: Ignatus PR, 1997. p. 175 – 182.
² Werenfried – significado: combatente da paz.
³ Rúpia – moeda oficial de alguns países orientais, incluindo a Índia.

One Comment

  1. Maria Aparecida Lourenço 4 de setembro de 2016 at 16:37 - Reply

    Os governantes deveriam olhar para a situação e buscar ajuda em outros paises! Todos os países tem um governo, a alternativa seria esta! Reunir os governantes dos outros paises, somar o gasto que iriam ter com estas pessoas, com educação, saneamento básico, saúde e alimentação, dividir para todos os paises a quantia que deveriam doar de acordo com a situação de cada país e não deixar seres humanos, vivendo numa miséria dessas!

Leave A Comment

A ACN está na Copa do Mundo. Ajude-nos a ganhar!