A Nicarágua é hoje um país que acordou de seu estupor e agora deseja seguir em frente. Eles contam com uma Igreja Católica liderada por dez bispos. São esses líderes que não temem pastorear o seu rebanho e ser uma Igreja em saída. A mesma Igreja que o Papa Francisco continua pedindo, e que abre as portas de suas catedrais para ser, literalmente, um “hospital de campo”.

A Igreja na Nicarágua não tem bandeiras políticas e não faz distinções ao cuidar dos feridos. Ainda mais ao apoiar aqueles que sofrem e alimentando sua fome, tanto física quanto espiritual.

O sofrimento do povo

“Eles se levantaram em um momento difícil… Quando as pessoas estavam sofrendo muito, porque tinham medo de sair às ruas”, diz um padre da diocese de Matagalpa – que por razões de segurança prefere permanecer anônimo – à uma delegação da ACN. A Fundação Pontifícia visitou o país no final de novembro de 2018. O objetivo foi expressar seu apoio e solidariedade à situação em que o país se encontra.

Apesar dos cartazes na cidade, que se orgulham de um Matagalpa que é “cristão, socialista, solidário”, a tensão é palpável. Policiais e milícias nas ruas impedem a população civil de fazer quaisquer protestos. Embora estes, na maior parte do tempo, têm sido pacíficos. Os protestos começaram em abril de 2018. No caso de Matagalpa, as forças do governo proibiram até mesmo um grupo de mulheres de honrarem a memória de seus filhos, que foram assassinados na guerra civil, em uma marcha que fizeram regularmente por quase 20 anos.

“Eu sou um dos sortudos. Muitos padres foram obrigados a fugir”, diz o sacerdote. “Mas não podemos permanecer indiferentes quando as pessoas invadem a Igreja durante a Missa porque estavam sendo mortas. O exército e a polícia não estão dando tiros de advertência. Eles estão atirando para matar. Miram nas cabeças das pessoas, suas costas e seus peitos.”

“O Evangelho nos ensina que devemos abrir nossas portas para aqueles que são perseguidos. É isso que fizemos. Sob o mesmo ponto de vista nossas igrejas foram transformadas em refúgios, não em centros de planejamento de oposição, como o governo alega”.

Viver o Evangelho ao invés de ouvi-Lo

O sacerdote sabe do que está falando. Em 15 de maio de 2018, em um carro pertencente à diocese e conhecido como “a ambulância”, ele resgatou 19 manifestantes feridos. Eles haviam sido atingidos por balas de AK-47 do exército. Por ordem do governo, os hospitais públicos foram proibidos de ajudar os feridos. A maioria deles eram estudantes universitários.

“Durante esses dias, as pessoas nos bancos da Igreja não estavam ouvindo o Evangelho, estavam vivendo o Evangelho”, ele disse à ACN com emoção.

A partir de setembro, e com a ajuda de várias organizações internacionais, a igreja diocesana abriu cinco escritórios pastorais de “direitos humanos”, que apoiam famílias que perderam crianças durante as manifestações. Ao passo que também apoia aqueles que continuam sendo perseguidos hoje por terem protestado. Cerca de 50 deles ainda estão presos sem julgamento. Centenas “desapareceram”. Igualmente, cerca de 30 mil pessoas foram para o exílio na Costa Rica e muitas outras para outros países.

“Eles nos acusam de esconder armas, mas nunca o fizemos”, diz o padre. “Nossa única arma tem sido Jesus na Eucaristia.”

“Estamos carregando um pequeno pedaço da cruz de Cristo”

O número de pessoas que hoje dependem da Igreja para sua sobrevivência triplicou desde o mês de abril. “Estamos carregando um pequeno pedaço da cruz de Cristo”, ele nos diz. “Não podemos carregar tudo isso. É Ele quem está nos ajudando.”

A situação dos bispos e de muitos religiosos na Nicarágua está longe de ser fácil. Sua ação em abrir as portas das igrejas para cuidar dos feridos, tanto dos estudantes quanto da polícia, e também a disposição de se envolver em um processo fracassado de diálogo nacional, resultou em muitos deles sendo marcados por fontes oficiais como “golpistas” e “terroristas”.

Um deles é o Cardeal Leopoldo Brenes, o Arcebispo de Manágua, a capital do país. Apesar das dificuldades, ele não perdeu nem o sorriso e nem a fé.

Mas, apesar de seu sorriso, Dom Brenes não esconde sua preocupação pelo futuro da Nicarágua, país que viveu revoluções suficientes para saber que muitas dessas ideias grandiosas e eloquentes que convencem as massas, mais cedo ou mais tarde, acabam sendo destruídas pelos abusos de poder de poucos.

Igreja apoiando os esforços de paz

A última revolução começou em 18 de abril, embora muitas pessoas na Nicarágua concordem que, na realidade, não era mais do que o “palito de fósforo que acendeu a fogueira que estava se formando há muito tempo”.

“A Igreja está acompanhando o processo de diálogo iniciado após os protestos, mas como um serviço ao país”, insiste Brenes. “Não estamos interessados em poder, mas em apoiar os esforços pela paz, sem procurar qualquer benefício pessoal que não seja o bem do país. Quando os confrontos ocorreram entre as forças do governo e os manifestantes, defendemos todos os lados”.

Mais de uma vez, o Cardeal foi forçado a mediar entre o governo e os manifestantes, tanto para resgatar policiais que haviam sido capturados como para evitar que os soldados atirassem nos estudantes.

“Nós nunca perguntamos a ninguém de que lado eles estavam, nós simplesmente ajudamos todos aqueles que pediram a nossa ajuda”, ele nos disse, embora reconhecesse que eles poderiam ter denunciado o uso da violência por parte de alguns dos manifestantes.

“Os dois lados foram violentos às vezes, mas o governo fez uso desproporcional da violência”, disse ele. “A polícia de choque tinha fuzis, enquanto os jovens manifestantes tinham bombas caseiras de gasolina”.

“Um exército de pessoas que rezam”

O desafio agora é trabalhar pela reconciliação nacional; algo que ele sabe que vai demorar gerações e não pode ser alcançado durante uma noite. “Mas nós temos que estabelecer as bases para essa reconciliação.”

Apesar dos desafios, Dom Brenes opta por sua fé em vez de perder a esperança, mais do que nunca convencido das palavras proféticas do Papa Pio XII, que disse: “Dá-me um exército de pessoas que rezam o Terço todos os dias e nós mudaremos o mundo.”

“Rezo o Terço todos os dias: o primeiro mistério para a Nicarágua, o segundo para a conversão dos que estão no governo, o terceiro para as mães que perderam seus filhos, ou os têm na prisão, o quarto para os presos políticos e o quinto para o clero.”

“Acreditamos que a fé pode mover montanhas, e a oração do Terço pode converter corações e levá-los a uma verdadeira reconciliação que cuida dos corações feridos e busca o bem de todos. E você, vai rezar pela Nicarágua?” Conclui o Cardeal Brenes.