//Bispo fala sobre conflitos na República Centro-Africana

Bispo fala sobre conflitos na República Centro-Africana

2018-09-06T09:49:36+00:00setembro 6th, 2018|Notícias|

Dom Nestor-Désiré Nongo-Aziagbia de 58 anos, é Bispo de Bossangoa, cidade localizada no noroeste da República Centro-Africana. Ele visitou recentemente a sede internacional da ACN em Königstein (Alemanha), onde falou com Pierre Macqueron.
Confira abaixo a entrevista de Dom Nongo-Aziagbia à ACN:

Qual é a situação hoje na República Centro-Africana?

A situação no país é confusa, pois a União Africana e a Rússia possuem iniciativas variadas. Os principais líderes dos grupos rebeldes Seleka reuniram-se recentemente em N’Djamena, a capital do Chade, sem qualquer reação oficial por parte das autoridades do Chade.

Quanto aos cidadãos comuns, sofrem com a falta de segurança. Hoje, de 70 a 80% do país, está nas mãos de grupos rebeldes armados, de modo que sua maior parte não está mais sob controle do Estado. Existem cerca de 15 grupos armados, incluindo o Seleka, o RJ (Revolução e Justiça), também o Anti-Balaka… Eles só estão interessados ​​em assumir o controle dos valiosos recursos minerais, como ouro e diamantes; além do interesse pelo gado. Em geral, eles não têm intenção de tomar o poder; estão simplesmente aproveitando a crise para enriquecer. Afinal, esse é um negócio lucrativo.

Bispo de Bossangoa, Dom Nestor-Désiré Nongo-Aziagbia

Dom Nestor-Désiré Nongo-Aziagbia, Bispo de Bossangoa em visita recente à sede internacional da ACN; Königstein, Alemanha.

E a sua diocese?

Minha diocese, que está no noroeste do país (fronteira com o Chade), abrange cerca de 62.000 km²; somos apenas 31 sacerdotes para uma população de 700 mil. Em dezembro de 2017, houve confrontos entre dois grupos rebeldes, Seleka e RJ. Muitas pessoas perderam tudo e assim buscaram refúgio em Markounda. Há um padre católico morando lá e ele está tentando promover uma relação de confiança entre os refugiados, a população local e os rebeldes. É uma tarefa arriscada e tudo pode acontecer, mas é essencial estabelecer paz e harmonia. Não há exército do governo lá, nem tropas da ONU.

Minha prioridade diocesana é reconstruir as igrejas e encorajar os fiéis a serem testemunhas autênticas de Cristo entre seus irmãos e irmãs. Existem 14 paróquias e um convento. Todos os seus edifícios foram alvos da destruição até o momento, porém só conseguimos reformar cinco igrejas.

Então o conflito não é entre cristãos e muçulmanos?

Desde o início da crise, a conferência episcopal fez questão de rejeitar essa interpretação, assim como os demais líderes religiosos. E por um bom motivo. De fato, os grupos rebeldes Seleka, principalmente muçulmanos, lutam entre si pelo controle dos minérios e da pecuária; eles não hesitam em extorquir e explorar quem compartilha da mesma religião. Desse modo, religião não é mais do que um pretexto para a disputa; é sobretudo um conflito político, econômico e geoestratégico.

Como interpretar o ataque à Igreja de Nossa Senhora de Fátima em Bangui no dia 1º de maio deste ano, que deixou 16 pessoas mortas e 99 feridas?

Creio que este ataque foi uma tentativa de provocar o povo centro-africano a fim de começar uma guerra inter-religiosa. Após este ataque em Bangui, muitos cristãos ficaram enfurecidos e quiseram vingança. O Cardeal Nzapalainga, que estava fora no momento do ataque, retornou com grande pressa e fez uma declaração assim que chegou em Bangui, apelando aos cristãos que perdoassem e buscassem a reconciliação.

Alguns jovens que se dizem católicos, uniram-se ao grupo Anti-Balaka, que foi descrito como “os assassinos sem lei e sem fé”, pelo Cardeal Nzapalainga. Até que ponto a ignorância e falta de informação sobre o grupo representam um perigo?

Rebeldes armados na República Centro Africana

Rebeldes armados na República Centro Africana, pertencem ao grupo Anti-Balaka.

A falta de informação e o fato muitos de nossos cristãos estarem vivendo em um estado de verdadeira confusão espiritual, representam um perigo. Assim, muitos desses jovens se deixam levar por superstições. Há uma década que o sistema educacional é considerado um fracasso. Professores capacitados profissionalmente são uma raridade. Além disso, há uma completa ausência de mestres em algumas áreas rurais. Às vezes, os pais que não possuem formação, tentam substituí-los. Desse modo, o nível geral de educação tem decaído, e isso tem tido um impacto direto na habilidade das pessoas de discernir a situação.

A formação espiritual também é extremamente importante. Em nosso país, trabalhamos muito com nossos líderes leigos, os catequistas. Entretanto, é difícil encontrar quem queira ser catequista. Isso porque em algumas aldeias não há ninguém que possa ler ou escrever. Em tais condições, como entender e transmitir as escrituras bíblicas?

Como a Igreja está se esforçando para participar do processo de reconciliação?

A Igreja tem estado na vanguarda dos esforços de reconciliação. A maioria dos bispos, sacerdotes e religiosos estão envolvidos nesse processo. Oferecemos abrigo aos refugiados e ajudamos os necessitados, sem levar em conta sua religião. Organizamos encontros de perdão e reconciliação, para que possamos viver em harmonia e para que respeitemos uns aos outros. Desde o início da crise, mantivemos uma plataforma inter-religiosa, na qual católicos, protestantes e muçulmanos possam trabalhar juntos para chegarem a uma resposta conjunta [Nota do editor: os protestantes representam cerca de 45,6% da população; católicos, 20,4% ; e muçulmanos, 14,7%].

Tentar estabelecer a paz em um país instável deve inevitavelmente envolver riscos, o que pensa sobre isso?

É um risco que faz parte da nossa missão. Em certa ocasião, fui sequestrado junto com alguns padres. O até então Bispo de Bangassou, foi ameaçado. Muitos sacerdotes escaparam por pouco da morte em Bangassou, enquanto outros foram mortos em Bambari. Isso é parte da nossa missão, como testemunhas de Cristo.

Que mensagem gostaria de deixar para os benfeitores da ACN?

Em nome da Diocese de Bossangoa e da Igreja na República Centro-Africana, gostaria de aproveitar esta oportunidade para expressar a minha gratidão à ACN. Agradecemos pelo apoio de variadas formas e em momentos difíceis de crise, como para a formação permanente dos nossos sacerdotes e catequistas; bem como pelo apoio aos nossos seminaristas (31 seminaristas do Seminário Nacional de São Marcos em Bangui e 80 do Seminário Menor de Bossangoa) e pela reconstrução de nossas igrejas, centros paroquiais e conventos; tudo isso ajudou nossa Igreja a ser uma comunidade viva. Só posso expressar minha profunda gratidão e continuar em íntima comunhão com todos vocês em coração e em espírito.

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