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Guerra afeta libaneses: “Esta não é uma guerra justa; é uma derrota para todos nós”

Publicado em: março 24th, 2026|Categorias: Notícias|Views: 59|

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A guerra afeta libaneses de todas as regiões e religiões, segundo o bispo Jules Boutros. Ele afirma que, embora os ataques israelenses tenham como alvo declarado o Hezbollah, na prática atingem toda a população do país.

Ademais, enquanto Israel intensifica os bombardeios em diferentes pontos do Líbano, o jovem bispo descreve a situação como catastrófica para a pequena nação. Ele compartilhou o relato com a ACN.

Falando diretamente de Beirute, o bispo siro-católico Jules Boutros, de 43 anos, contesta a narrativa de ataques seletivos contra a milícia apoiada pelo Irã. Para ele, os impactos vão muito além de alvos militares.

Guerra afeta libaneses em todas as regiões

“Recentemente tivemos dois ataques a hotéis em Beirute, um dos quais fica em um bairro majoritariamente cristão. E, claro, qualquer pessoa pode estar hospedada em um hotel. Não posso saber se um militante do Hezbollah alugou o apartamento acima do meu, ou se algum cidadão libanês alugou uma casa e depois a cedeu a um iraniano. Essa é uma preocupação para qualquer libanês que viva em um prédio com vários apartamentos, ou em um grande bairro popular. Portanto, o risco está em toda parte.”

Além disso, o bispo relata o crescimento acelerado da crise humanitária. “Só nesta manhã eu estava na área do porto onde o Santo Padre celebrou uma missa pela paz, na presença não apenas de cristãos, mas de todos os libaneses, e agora, após apenas três meses, temos mais de um milhão de refugiados”, lamenta.

Enquanto isso, as regiões próximas à fronteira com Israel enfrentam situações ainda mais graves. Os ataques, segundo ele, atingem indiscriminadamente diferentes comunidades.

Ataques no sul intensificam crise humanitária

“Ainda assim, as piores experiências ocorrem mais perto da fronteira com Israel. Eles atacaram vilarejos cristãos no sul e até mataram um sacerdote, padre Pierre El-Raï. Eles podem ter sido atacados porque alguma casa acolheu uma família xiita, ou porque um militante do Hezbollah passou por ali. Eles atacam qualquer pessoa, em qualquer lugar. Não podemos dizer que exista um lugar seguro no Líbano.”

Diante desse cenário, grande parte da população do sul deixou suas casas. No entanto, alguns cristãos decidiram permanecer, mesmo diante dos riscos constantes.

“Eles esvaziaram todo o sul do Líbano. Estamos falando de centenas de vilarejos. Isso me afeta pessoalmente, porque minha família tem uma casa lá, minha mãe é de um vilarejo cristão. Eles não foram forçados a fugir até agora, mas isso significa muito para nós, porque todas as nossas belas memórias estão lá. As pessoas que partiram não sabem se algum dia poderão voltar, e isso é catastrófico. Somos muito apegados à nossa terra. Nossos antepassados construíram essas casas, cuidaram delas, plantaram as oliveiras, e tudo isso está em risco”, afirma o bispo.

Comunidades religiosas reagem à guerra

Por outro lado, a guerra também provoca mudanças nas relações entre as diferentes comunidades religiosas do país. Segundo o bispo, o cenário revela tanto tensões quanto sinais de união.

“Antes, nunca ouvíamos pessoas da população xiita criticarem o Hezbollah, mas agora ouvimos. Recentemente, o mufti da comunidade xiita foi questionado se abriria edifícios religiosos para refugiados e respondeu que não, que essa era responsabilidade do governo. Isso gerou indignação, especialmente entre a população xiita, que destacou que os cristãos abriram suas igrejas e mosteiros.”

Ao mesmo tempo, outras comunidades mostram maior coesão diante do conflito. “Enquanto isso, as comunidades sunita, drusa e cristã estão unidas contra esta guerra. Não queremos a guerra. Se temos problemas com Israel, devemos negociar. Não queremos lutar”, afirma.

Apoio aos deslocados cresce, mas ainda é insuficiente

Nesse contexto, a Igreja tem desempenhado um papel central no apoio aos deslocados internos. Dioceses em todo o país abriram igrejas, mosteiros e outros espaços para acolher famílias afetadas. No entanto, a demanda supera a capacidade de resposta. As necessidades variam conforme a realidade de cada local. “Alguns precisam de combustível para geradores; outros necessitam de apoio psicoespiritual; alguns precisam de máquinas de lavar para ajudar a limpar as roupas dos deslocados; outros precisam de televisores; alguns pediram ajuda para acesso à internet; outros solicitam fornos para cozinhar.”

Além disso, muitas famílias acolhem parentes fora dos sistemas oficiais de ajuda, o que dificulta ainda mais o acesso ao apoio. “Um sacerdote de Tiro tem o contato de cerca de 120 famílias no sul, e disse que a única e melhor forma de ajudá-las é com dinheiro, porque é perigoso demais visitá-las pessoalmente para fornecer ajuda material. Até mesmo o núncio apostólico, que recentemente visitou o sul para o funeral do padre Pierre El-Raï, precisou viajar em um comboio armado, com tanques.”

Por fim, o bispo reforça o apelo por solidariedade internacional. “Do Líbano, queremos agradecer à ACN pela sua generosidade, por tudo o que fizeram para ajudar nossas crianças e nossas famílias, especialmente os deslocados e refugiados nestes tempos de guerra e medo”, diz. “Mas ainda precisamos de mais! Enquanto estivermos ajudando nossos deslocados, as crianças, os idosos e os deficientes, até a menor oferta representa muito para muitos.”

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