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Argélia: o “Filho de Santo Agostinho” visita Annaba

Publicado em: fevereiro 27th, 2026|Categorias: Notícias|Views: 6|

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O Vaticano confirmou oficialmente que, em abril, o papa Leão visitará a Argélia. Assim, esta será a primeira vez que um papa em exercício estará no país. Leão XIV, agostiniano por formação, visitará Argel e Hipona Régia, nome histórico de Annaba, seguindo os passos de Santo Agostinho.

Em entrevista à ACN, dom Michel Jean-Paul Guillaud, bispo de Constantine-Hippone, comenta as expectativas da Igreja para a visita. Além disso, ele explica como a Igreja continua presente em um país de maioria muçulmana.

Como os argelinos receberam a notícia da visita do papa Leão XIV?

Antes de tudo, a notícia trouxe grande alegria e encorajamento. Embora a Igreja primitiva tenha tido três papas norte-africanos, Vítor, Militão e Gelásio, esta será a primeira visita de um papa à Argélia.

Para os cristãos, é uma graça maior do que uma pequena Igreja como a nossa poderia esperar. Ele já esteve no país duas vezes como prior geral da Ordem de Santo Agostinho: primeiro, para uma conferência sobre o santo; depois, para marcar a restauração da basílica. Agora, ele vem ao encontro do próprio povo argelino, o que torna essa visita ainda mais significativa.

Além disso, muitas pessoas disseram que aguardam a visita com expectativa. Todo o país se comoveu quando, após sua eleição, ele se definiu como “filho de Santo Agostinho”. No início, alguns pensaram em um sentido geográfico. No entanto, logo entenderam que se tratava de uma filiação espiritual. O fato de dedicar três dias ao Norte da África, em um país de maioria muçulmana, representa um sinal forte. Também existe a percepção de que o papa não serve apenas aos católicos, mas a toda a humanidade.

Qual é a importância de Santo Agostinho para a Argélia hoje?

Após a independência, o país não valorizou imediatamente essa herança. Contudo, esse cenário começou a mudar após a conferência de 2003, organizada pelo Alto Conselho Islâmico em parceria com a Universidade de Friburgo. O encontro, intitulado “Santo Agostinho: africanidade e universalidade”, marcou um ponto de virada.

Desde então, a Argélia passou a reconhecer Santo Agostinho como parte de sua própria história. Como resultado, surgiram novas publicações sobre o tema. Atualmente, dezenas de milhares de pessoas visitam todos os anos a Basílica de Santo Agostinho, em Annaba. Desse total, 99% são muçulmanas. O próprio Estado contribuiu para a restauração do templo. Assim, Santo Agostinho passou a ser visto como um patrimônio comum.

Além disso, todos os anos, por volta de 13 de novembro, data de seu nascimento, organizamos as Jornadas Agostinianas. O evento inclui conferências, peças teatrais e palestras de autores cristãos e muçulmanos, para que o público conheça melhor sua vida e pensamento.

Como o cristianismo na Argélia evoluiu nos últimos anos?

Após a independência e o êxodo dos europeus, a Igreja diminuiu consideravelmente. Esse processo se intensificou com as nacionalizações, a arabização e os conflitos da década de 1990.

No entanto, a partir dos anos 1980, uma nova realidade começou a surgir. A chegada de estudantes da África Subsaariana, por meio de bolsas de estudo, mudou o perfil das comunidades. Hoje, cerca de 80% dos fiéis são estudantes de países como Uganda, Tanzânia, Zimbábue, Moçambique e Angola.

Por um lado, essa diversidade cria desafios linguísticos. Por outro, fortalece a identidade de uma Igreja jovem e dinâmica.

Como é atualmente a diocese?

A Igreja mantém presença em sete localidades no leste da Argélia, separadas por cerca de 100 quilômetros entre si. A diocese cobre uma área de 110 mil km² e conta com aproximadamente dez padres e número semelhante de religiosas. Ainda assim, nem todas as comunidades recebem atendimento regular.

Por esse motivo, redescobrimos que a base de uma comunidade cristã é, acima de tudo, a presença dos próprios fiéis. Em Béjaïa, por exemplo, um padre visita a comunidade apenas duas vezes por mês. Mesmo assim, os cristãos se reúnem semanalmente para ler a Sagrada Escritura.

Além disso, alguns estudantes percorrem longas distâncias para participar da missa. Eles permanecem no fim de semana e partilham as refeições. Dessa forma, a Igreja se tornou um espaço familiar, fraterno e acolhedor.

O que acontece quando moradores locais pedem para entrar na Igreja?

As autoridades conhecem plenamente nossas atividades e respeitam a liberdade de consciência, desde que não haja proselitismo. Quando alguém faz esse pedido, realizamos um discernimento cuidadoso. Não nos apressamos e priorizamos o bem da pessoa.

Por isso, exigimos uma preparação profunda antes de um possível batismo. Na maioria dos casos, as dificuldades surgem mais no âmbito familiar do que por parte das autoridades.

Em uma sociedade fortemente ligada às suas tradições, mudar de religião pode ser um processo doloroso.

Como são as relações com as igrejas protestantes?

Em algumas paróquias, os católicos são minoria entre os cristãos. Nesses casos, quando não podem celebrar a Eucaristia todas as semanas, eles se dedicam ao estudo da Bíblia.

Em Constantine, por exemplo, organizamos encontros com uma igreja metodista, especialmente durante a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Todo esse contexto favorece um ecumenismo concreto, centrado no essencial.

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