//Uma estranha vocação

Uma estranha vocação

2018-05-10T11:05:39+00:00agosto 5th, 2009|Um Mendigo de Deus|

Sou sacerdote, religioso, mas raras vezes estou em minha abadia. Já faz alguns anos que vago por países onde Deus chora ou estou à procura de pessoas que desejam me ajudar a enxugar as lágrimas de Deus. Esta é uma estranha vocação. Também seus antecedentes são singulares. Mas, ao olhar para trás, vejo na minha vida uma linha reta que tudo atravessa rumando para Deus.

Aqueles que bem me conhecem sabem quantas sombras existem em mim e o quanto tenho para lamentar. Busco fazê-lo do melhor modo possível. Mas mesmo assim, tudo teve de acontecer desse modo: tudo de bom e tudo de ruim; tudo o que Deus me deu e tomou; os colaboradores que se reuniram à minha volta e aqueles que me deixaram ou que fui obrigado a despedir; tudo o que construí e tudo que eu ou outros destruíram; tudo ao que Deus “fechou os olhos”, tudo o que Ele me impôs e o que me ofereceu em abundância, numa inconcebível bondade, ou o que eu mesmo tomei precipitadamente; todas as minhas alegrias e aflições, minhas amizades, minhas preocupações, minha ira sagrada e minha ira profana, meu otimismo e minha grande confiança nas pessoas. Como também meus inimigos e traidores, minhas cruzes, meus combates e pecados – tudo teve um significado na minha vida turbulenta. Tudo me preparou para a missão que Deus havia reservado para mim; tudo estava a serviço da vocação que dele recebi e pela qual lhe quero ser eternamente grato.

Quando eu era jovem, queria estudar pintura. Mas meu pai, um professor convicto, decidiu que eu deveria seguir o magistério. Durante anos ele me deu aulas particulares a fim de me proporcionar os estudos universitários. Estudei filosofia clássica; porém me interessava muito mais pelos problemas sociais. Como consequência, não me tornei professor, mas redator de um jornal estudantil e cofundador de um partido político que, por sorte, não durou muito.

Ingressei num movimento religioso que desejava realizar uma reforma dentro da Igreja e que foi perseguido como uma seita perigosa pelas autoridades eclesiásticas da época. Devo muito a este movimento, dirigido pelo sacerdote flamengo Raimund van Sante, pois me transmitiu um grande amor a Cristo. Mas este movimento também me pôs em contraste com o episcopado holandês, que no começo da década de trinta não se mostrava propriamente progressista. Assim. Logo cedo fui levado a ter uma tendência “anticlerical”. Não eram poucos os meus amigos que viviam em conflito com a Igreja.

Meus dois irmãos que se preparavam para o sacerdócio duvidavam da minha ortodoxia religiosa. Fui a ovelha negra da família. Para surpresa de todos, Deus me chamou para o mosteiro em 1934, apesar de, na época, eu estar tremendamente apaixonado. O sacrifício que me foi exigido era maior do que posso descrever aqui. Se eu tivesse refletido melhor, provavelmente teria dito não. Mas não é do meu feitio ficar refletindo demais. Isto nada tem a ver com perfeição cristã, pois frequentemente minha ousadia é maior que minhas forças. Assim, embora com as melhores intenções, depois de décadas de vida religiosa, continuei sendo uma pessoa fraca e imperfeita, que não pode apelar para as próprias qualidades, mas unicamente à misericórdia de Deus.

Decidi tornar-me capuchinho por acreditar que eu deveria dispor da minha vida a serviço dos pobres. Os capuchinhos eram, então, a única ordem pobre que eu conhecia na Holanda aburguesada daquele tempo. Mas não fui aceito por razões de saúde. Durante três meses, vivi na incerteza. Depois, deixei a Holanda e ingressei na ordem dos premonstratenses em Tongerlo, na Bélgica. Muito embora, na opinião de pessoas sábias, eu não tivesse inclinação nem para liturgia, nem para a contemplação, nem para a vida canônica regular. Mas Deus é mais sábio que as pessoas.

Vivi tão rigorosamente os primeiros tempos no mosteiro, que depois de três anos minha saúde desabou. O parecer médico indicava que eu não servia nem para as missões, nem para serviços paroquiais e nem para pregações. Isso significava na pratica, que eu deveria deixar a abadia. Por sorte, o abade não me mandou embora. Embora sabendo que eu cantava um pouco alto e desafinado, considerou-me qualificado para a oração festiva do coro – ele tinha um coração grande e paternal. Assim pude tornar-me sacerdote. Mais tarde, ele me nomeou seu secretário. Aprendi muito com o abade Stalmans. Certa vez, ele me disse: “Estou feliz por ter um Werenfried, mas também estou feliz por ter apenas um Werenfried”.

Em seguida, veio a Segunda Guerra Mundial, com todo o sofrimento que ficou indelevelmente gravado na minha memória. Encontrava-me entre duas frentes de combate, porque não conseguia considerar aquela matança monstruosa senão uma batalha de pagãos por coisas deste mundo. Não queria tomar nenhum partido que não fosse a favor do amor e contra o ódio. Num país que sofria a ocupação inimiga, enfatizei que os cristãos tinham o dever de amar seus inimigos e que seria um pecado grave recusar-lhes sistematicamente os gestos normais de amor fraterno. Eu tinha amigos entre os comunistas e nas forças alemãs, entre os colaboracionistas, entre os membros da resistência, bem como entre os voluntários que lutavam contra os russos no front oriental.

Depois da guerra, muitos dos meus amigos morreram em escaramuças e foram enterrados em valas comuns ou nos cemitérios militares que cobriam toda a Europa destruída. Muitos caíram em combate com farda alemã, outros com farda dos aliados. Alguns morreram nas câmaras de gás dos campos de concentração de Hitler; outros, como cidadãos indefesos nos ataques aéreos dos ingleses e americanos. Alguns foram fuzilados como colaboracionistas. Muitos foram vítimas das represálias duras e desumanas do pós-guerra. Fundei, então, uma pequena revista, por meio da qual, mês a mês, batalhei pelo restabelecimento do amor num mundo dilacerado. Escrevi contra o ódio e a favor da reconciliação. Coloquei a misericórdia acima do direito. Mendiguei amor para um inimigo vencido. Defendi os indefesos, os prisioneiros expulsos de suas casas e propriedades, os perseguidos, os pobres e os oprimidos.

Isso foi o início daquela que seria propriamente minha missão de vida, à qual, desde então, procurei corresponder da melhor maneira possível. A essência desta missão não é recolher toucinho para os alemães banidos da sua terra, ou motorizar os “padres de mochilas”; não é erguer emissoras de rádio para a evangelização dos fiéis na América Latina, ou imprimir livros para os católicos perseguidos atrás da Cortina de Ferro; não é construir capelas no Vietnã, ou enviar donativos aos prisioneiros dos campos de trabalho na Sibéria. A essência da minha missão consiste em enxugar as lágrimas de Cristo, onde quer que ele chore. Deus naturalmente, não chora no céu, onde vive em luz inacessível e bem-aventurança eterna. Deus chora na Terra. Suas lágrimas correm incessantes sobre a divina face de Jesus, um com o seu Pai celeste, e mesmo assim continua aqui na Terra vivendo e sofrendo, passando fome e sendo perseguido nos mais pequeninos dos seus irmãos. As lágrimas dos pobres, com os quais ele se identifica, são as suas. E as lágrimas de Jesus são as lágrimas de Deus.

É assim que Deus chora em todas as pessoas oprimidas e sofridas de nosso tempo. Não podemos amá-lo sem enxugar as lágrimas delas. Por isso, comecei a minha caminhada pelo deserto de ruínas e pelos acampamentos da Alemanha derrotada, pelos campos de refugiados da Europa e da Ásia, pelas Repúblicas Populares comunistas, pela América Latina feudal e por todos os países e recantos da Terra onde Deus chora.

11 Comments

  1. Caroline 30 de outubro de 2009 at 19:05 - Reply

    Muito tocante o texto. É o coração sangrando em palavras de vida.

  2. Alcides Moreira da Silva 4 de novembro de 2009 at 10:52 - Reply

    Interessante como Deus busca nas pessoas que parecem ser a menos indicada para realizar seus planos. Esse artigo revela os caminhos insondáveis de Deus na busca de seus colaborados para enxugar as lágrimas de seus filhos. Comovente.

  3. Davisson Rodrigues dos Santos 20 de novembro de 2009 at 17:05 - Reply

    Este texto mostra que aquele ditado popular está correto “Deus envia o frio conforme o cobertor”… olhar por quanto sofrimento o fundador da AIS passou, nos faz repensar nossos hábitos. Enfim… a missão que Jesus confiou a ele era muito… mais profunda que a nossa, que só auxíliamos financeiramente, e raras vezes, ficamos cara-cara com o sofrimento humano… por isto tudo, um dos motivos que mais me fazem feliz de ser católico… é saber que existe algo como a AIS.

  4. Natanael dois Santos 17 de dezembro de 2009 at 00:02 - Reply

    Quarta-feira,16 de dezembro de 2009 22:05
    AGINDO DEUS,QUEM IMPEDIRÁ???? NINGUÉM! Todos estamos sujeitos a sermos envolvidos pela “SANHA” pela SANHA Divina do Amor! Aqueles que se acham incapacitados,fiquem tranquilos: DEUS CAPACITA!…basta olhar para a histórias dos “santos”

  5. Washington l. lara 27 de março de 2011 at 11:40 - Reply

    Jesus abordou a mulher samaria na fonte de Jacó.E aquele encontro foi transformador para ela e sua comunidade.
    Jesus abordou o coletor de impostos que subiu a árvore para velo passar e o transformou. Jesus abordou o santo padre Werenfried e santa irmã Edith Stein, entre tantos outros e apartir deles o convite de Jesus contiua sendo feito. Uma vez abordado por ele, o apelo para ser diferente é inresistível. Pai abordeme, passeia na minha vida e reforça em mim a disposição para me deixar transformar.

  6. luiz sergio marchi 11 de julho de 2012 at 08:32 - Reply

    é muito bom um testemunho eloquente que desafie um pseudo cristianismo adocicado e embalado por lindas cançoes…

  7. Liege 9 de dezembro de 2012 at 12:53 - Reply

    Também chorei quando li: Deus chora na Terra.
    Isto é muito forte. É Deus pedindo a nós a nossa
    doação de corpo e alma.
    O meu querer é o querer de Deus.

  8. maria célia 18 de agosto de 2013 at 03:05 - Reply

    Figuei muito emocionada ,quero muito que deus me ensina fafer o melhor de mim para ajudar por menor que seja que venha do fundo do meu coração; já faço parte dos colaboladores.

  9. nisio 9 de outubro de 2013 at 20:38 - Reply

    A missão do padre Werenfried , não nos deixa nem uma dúvida de que Deus realizada suas óbras por traz dos corações preparados por ele mesmo , presisamos nos permitir e admitir em nós a instalação do amor do cristo em nós e assim seremos úteis aos serviços de Deus . aqui na terra, em favor do sofrimento daqueles que sofrem pelas opressões sociais do mundo inteiro.

  10. Brasilina 12 de janeiro de 2014 at 21:31 - Reply

    Eu sou uma pessoa humilde, sem estudo, mas Deus me ensinou a trabalhar pra Ele no ministério de cura e libertação, tenho o dom de visão, mas ninguém nunca me entendeu. Nunca tive ensinamento humano e nunca conversei com alguém que me entendesse a respeito disso.
    Assim como eu entendi que Deus lhe usou em todas as áreas em que precisou, eu também sou assim, Deus me usa em tudo o que precisa.

  11. nadia dos santos 15 de janeiro de 2014 at 16:23 - Reply

    DEUS chora em nós na pessoa de JESUS. Tenhamos a fé e esperança de que um dia DEUS vai sorrir em nós enquanto pessoas como o padre Werenfried caminharem pelo mundo. amém!

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