Durante minha vida inteira lutei em favor do amor num modo dilacerado, onde dois terços da humanidade vivem na mais profunda miséria. Em todos os tons de voz repeti a mensagem de João: “Se alguém possui os bens deste mundo, vê seu irmão passar necessidade e se fecha a toda compaixão, como permaneceria nele o amor de Deus?” (1Jo 3,17).

Incomodei a consciência tranquila dos bons cidadãos do Reino de Deus, que consideram a Igreja uma “cidadela de refúgio”, onde podem viver para salvar a própria alma sem se preocupar com o próximo. Desmascarei a falsa piedade deles, que restringe o amor exclusivamente a Deus e negligencia o próximo. Fiz da Ajuda à Igreja que Sofre (ACN) uma escola do amor, no qual aprendemos juntos a ajudar os pobres e a nos tornarmos nós mesmos melhores, pessoas melhores que demonstram o amor a Deus por meio da assistência ao próximo, em que Deus se esconde.

Isto não significa que encontramos Deus unicamente no próximo. Tampouco que o mandamento de Cristo não exige uma resposta direta: “Amaras o Senhor teu Deus de todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu pensamento” (Mt 22,37). Fé, confiança, correspondência as graças divinas, louvor, glorificação de Deus e cumprimento da sua vontade não estão ultrapassados! O amor a Deus, que é a nossa resposta a Ele e à sua revelação em Cristo, nunca pode ser desalojado pelo amor ao próximo. Pois assim como é desumano esquecer o próximo e restringir somente a Deus o amor, assim também é imperdoável declarar Deus morto, abolir o amor à ele e amar somente o ser humano, tratando-o como um deus. Isso não é amor ao próximo; é idolatria.

O amor ao próximo só pode subsistir no amor a Deus e através deste amor. Ele se fundamenta na palavra: “Em verdade eu vos declaro, todas as vezes que o fizestes a um destes mais pequenos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25,40). O amor obtém força no fato de o Filho de Deus, infinitamente digno de amor na sua sagrada humanidade, identificar-se com os mais pequeninos dos seus irmãos. Estes são tão dignos de amor como ele mesmo é digno; têm direito ao amor que a ele devemos. Quem o considera supérfluo destrói o motivo pelo qual devemos amá-lo. Reduz a caridade com toda a sua santidade a um gesto humanitário.

O amor proveniente de Deus e revelado em Cristo, que nos é dado por Deus como um dom, é mais que um gesto humanitário. Sem ele, a mais nobre das pessoas permanece “bronze que ressoa e címbalo que tine”. Sem ele, a mais progressista reforma social e a mais radical divisão da riqueza terrena não têm valor. Pois, “mesmo que distribua todos os bens aos famintos (e isto é uma obra muito humanitária!)… se falta o amor, nada lucro com isso” (1Cor 13,3).

Padre Werenfried van Straaten
— Texto tirado do livro “Um Mendigo de Deus”