Vinte sacerdotes católicos foram assassinados em 2008. Na primeira metade do Ano Sacerdotal (2009-2010) a matança prosseguiu.

Os assassinos são fanáticos que acreditam que a sua religião exige fúria, raiva e morte para quem tem outra fé, principalmente para os seus sacerdotes. A mídia leiga não fala muito desses mártires. Ela prefere muito mais falar de padres que se tornaram infiéis à sua vocação. E nada dizem a respeito dos mártires da modernidade, daqueles padres que são esmagados pela carga do dia a dia e da aparente inutilidade do bem.

Mas eles existem, os sem-nome. Deus os conhece. Deus os ama. Ele um dia os chamou para que estivessem a seu serviço. Para que cuidassem de seu rebanho. Ninguém deve se perder, disse-lhes Ele (cf. Mt 18,14). Cheios de esperança eles empreenderam o caminho do Bom Pastor, não se pouparam, e agora eles mesmos estão ameaçados de morrer de sede no deserto espiritual de hoje, de morrerem sufocados no caos de uma administração sem alma, de morrerem à míngua com o seu Anúncio, sozinhos no meio das massas.

Tudo isso acontece ao nosso lado, nesse mundo supostamente civilizado, na Europa, na América do Norte, nas grandes metrópoles da América do Sul. Acontece também longe da civilização, nas alturas dos Andes, na floresta amazônica: a preocupação pelas ovelhas perdidas os estimulou, eles iam atrás delas, ajudavam fugitivos, conseguiam cabanas, pão, trabalho para os perseguidos, visitavam idosos – até que, após excessivas desilusões, sem forças e esgotados, não conseguiam mais rezar, apelavam para a bebida, caíam na depressão.

“Onde está Deus?”, perguntam eles. Outros há que não conseguem mais suportar o trauma da guerra. A todo momento lampejam em suas mentes as imagens de quando eram acossados pelas ruas, seminus, só com roupas de baixo, quando eram testemunhas de massacres, quando viam crianças que, antes de morrer, os fitavam com olhos arregalados, vazios. E eles ali, sem saber o que fazer e incapazes até mesmo de balbuciar um “miserere nobis”. Deus os conhece. Ele colocou o destino deles nas mãos de vocês.

Quando eles não conseguem mais rezar, são vocês que rezam por eles. “Vede como se amam uns aos outros”, dizia-se dos primeiros cristãos. Também foi assim que começou a nossa Obra: como ajuda para os padres isolados na Europa Oriental – a “Ajuda aos Padres do Leste” (primeiro nome da ‘Ajuda à Igreja que Sofre’).

Hoje encontramos padres precisando de ajuda em todos os continentes. Muitos bispos conhecem os problemas. Carinhosamente eles falam com seus padres. Eles cuidam que os futuros padres tenham personalidade estável. Eles organizam não somente a prevenção, mas também programas de cura, seja por terapia psicológica, seja por dias regulares de retiro. Para isso dirigem-se também a nós, com toda a discrição.

Recebemos agora a carta de um padre. Ele agradece por ter podido voltar aos braços abertos do pai, como o filho pródigo. “Tal como o agir, também o sofrimento faz parte da existência humana”, escreve o Santo Padre na sua encíclica Spes salvi. É a esperança de retorno – inclusive para os “pastores perdidos”. A atuação de vocês – em dádivas e orações – dá nova vida a essa esperança.