//Queremos construir nossas igrejas e nosso povo outra vez

Queremos construir nossas igrejas e nosso povo outra vez

2015-07-15T13:42:14+00:00 julho 15th, 2015|Projetos|

Cinco anos após o terremoto que devastou o Haiti muitas igrejas e capelas ainda estão em ruínas. Elas são um lembrete diário deste desastre natural que no dia 10 de janeiro de 2010 tirou a vida de mais de 250 mil pessoas, inclusive do arcebispo Joseph Serge Miot de Porto Príncipe. Nos últimos meses tem ocorrido ataques e assaltos a sacerdotes e religiosos que alarmaram os fiéis católicos. Durante uma recente visita à sede da Fundação Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), o bispo Dom Launay Saturné, da diocese de Jacmel, no Haiti, falou sobre a situação e as necessidades do povo haitiano hoje.

AIS – O Haiti é um dos países mais pobres da América Latina. Temos ouvido falar nos últimos meses de ataques e assaltos contra sacerdotes e religiosos no país. Como a Igreja e os fiéis católicos estão vendo esta situação?
Dom Saturné – Há uma grande preocupação entre os católicos com esses atos de violência. Entre novembro de 2014 e fevereiro de 2015 mais de 20 comunidades religiosas foram vítimas de assaltos. Em resposta, a Conferência dos Bispos do Haiti convidou o povo para uma vigília de orações de 24 horas. E a associação das comunidades religiosas do Haiti convidou os seus membros a comemorar o dia 9 de março como o dia de solidariedade e simpatia para com todas as vítimas da atual insegurança. Naquele dia, todas as instituições dirigidas pelas comunidades religiosas permaneceram fechadas. E centenas de freiras e sacerdotes caminharam num protesto silencioso pelas ruas de várias cidades do Haiti, pedindo um fim à violência. Estamos apelando às autoridades do estado para que assegurem que os direitos humanos sejam garantidos – qualquer que seja a religião do indivíduo. As reações tiveram um efeito. Desde aquele dia houve menos ataques.

AIS – O senhor foi sagrado bispo em abril de 2010, pouco depois do terrível terremoto. Assim, o período do seu episcopado coincide com o período de reconstrução do país. Como estão as coisas no Haiti, hoje?
Dom Saturné – Antes do terremoto, a situação do Haiti já era difícil. Depois, ela ficou catastrófica. E até hoje, todos os estragos estão longe de serem consertados. Ainda há muito por ser feito. Nós somos gratos pelo generoso apoio que temos recebido após o terremoto. Nós pudemos reconstruir muitas igrejas e capelas. Mas ainda há muita coisa para se fazer. Muitas igrejas ainda estão perigosamente instáveis e não podem ser usadas. Nestes lugares, a Missa ainda tem de ser celebrada em tendas e outras construções provisórias.

AIS – A situação econômica do Haiti é difícil e o desemprego é alto. Muitas pessoas fugiram para o outro lado da ilha, para a vizinha República Dominicana, na esperança de ter uma vida melhor, também para o Brasil. O que isso significa para o Haiti e para a Igreja Católica?
Dom Saturné – São sobretudo os jovens que estão deixando o Haiti. Isto é especialmente doloroso para o país, e em consequência, também para a Igreja Católica. É que os jovens são essenciais para o futuro do nosso país. Além disso, há o fato de que os refugiados na República Dominicana não estão sendo recebidos de braços abertos. O Papa Francisco se encontrou com os bispos da República Dominicana no final de maio, em Roma. Ele lhes falou da importância de cuidar destes migrantes.

AIS – A catedral de Jacmel ruiu parcialmente durante o terremoto e ainda não pode ser usada. O senhor está tentando levantar fundos para reconstruir a catedral. Qual é a importância desta igreja para o povo?
Dom Saturné – A catedral dos Santos Tiago e Felipe, em Jacmel, data do século 19. É um edifício religioso e histórico. Os fiéis são muito apegados a esta catedral. Especialistas concluíram que ela pode ser restaurada. Entretanto, é difícil obter recursos para a construção de igrejas. Nos últimos cinco anos temos celebrado a Missa num salão totalmente inapropriado. Precisamos ter locais adequados para o culto religioso e por esta razão é importante reconstruir nossas igrejas. Mas apesar das igrejas terem sido destruídas, a fé dos católicos não foi afetada.

AIS – Durante estes tempos difíceis os fiéis precisam de bons pastores. Qual a situação das vocações sacerdotais em sua diocese com suas 27 paróquias?
Dom Saturné – Graças a Deus temos muitas vocações. Temos no momento 38 seminaristas se preparando para a ordenação. São nove a mais do que há quatro anos. Eles estão estudando no seminário de Porto Príncipe. Neste ano eu vou ordenar três seminaristas.

AIS – Nossa organização está atualmente apoiando várias iniciativas em seu país. Além de projetos de construção, estamos ajudando na formação de catequistas e seminaristas. A AIS também apoia os padres em seu ministério e em sua vida, dando recursos que eles precisam para o seu trabalho diário. Por exemplo, doamos material catequético e veículos pastorais. Qual é a ajuda mais importante para o seu país?
Dom Saturné – Queremos deixar o 10 de janeiro de 2010 para trás tão logo quanto possível. Os muitos edifícios em ruínas são um lembrete diário disto. Queremos reconstruir nossas igrejas e nossas casas. Esta é a reconstrução física. Mas o que é mais importante para nós é o povo do Haiti. Em janeiro, falando sobre o Haiti, o Papa Francisco ressaltou enfaticamente que o ser humano tem de estar no centro de nossas campanhas de ajuda. De fato, ele disse: “Não poderá haver uma reconstrução verdadeira do país sem a restauração da pessoa humana em sua totalidade.” Queremos fazer com que estas palavras do Papa sejam uma realidade viva. O trabalho humanitário tem de avançar de mãos dadas com o apoio pastoral. Um deve complementar o outro.

AIS – Como esta “restauração da pessoa humana em sua totalidade” é na pratica?
Dom Saturné – A chave vital para este desenvolvimento é a educação. Precisamos de muitos locais de educação. Começando pelos jardins de infância, passando pelas escolas primárias e chegando até as universidades. Também precisamos ajudar os jovens financeiramente para que eles possam frequentar estas escolas e universidades. É chocante que apesar de haver uma universidade em Jacmel, muitos jovens não tem condições de frequentá-la.

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