//“Eu sou uma testemunha de Deus, não um promotor”

“Eu sou uma testemunha de Deus, não um promotor”

2014-05-20T13:00:12+00:00 Maio 20th, 2014|Projetos|

Padre Ortodoxo Igor Pokrovskij trabalha há 16 anos na pastoral carcerária na Rússia e conta como é o trabalho de quem já batizou cerca de 400 prisioneiros.

Mais de 700.000 pessoas cumprem pena nas 755 prisões e campos de trabalho do imenso território da Federação Russa. Quando Padre Werenfried van Straaten, fundador da Associação Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), viajou em 1994, aos 81 anos, para a Sibéria, ele visitou uma dessas prisões. Lá, prometeu aos prisioneiros que iria orar todos os dias por eles. Ao longo de sua vida, o Padre Werenfried acreditou que os homens “são melhores do que pensamos”; para ele, foi um prazer especial ver como o Reino de Deus se estendia às prisões através de um livro religioso ou uma transmissão de rádio e como as almas dos prisioneiros foram salvas quando pareciam perdidas.

A AIS apoia a pastoral carcerária na Rússia com a construção de capelas e a aquisição de literatura religiosa. Peter Humeniuk, chefe da seção de projetos para a Rússia, explica: “A Igreja Ortodoxa é uma das poucas instituições russas fazendo algo de bom para os prisioneiros. Não só as capelas, mas também obras religiosas são recebidas com grande gratidão e transmitem grande conforto neste ambiente hostil. É maravilhoso que há pessoas que, desta forma, encontram o caminho de Deus”.

Um dos sacerdotes da pastoral penitenciária é o Pe. Igor Pokrovskij, que falou também sobre o início dos trabalhos na cidade de Nizhny Novgorod. “Quando começamos, em 1998, nesta prisão, só havia espaço para rezarmos numa pequena sala, na lavandaria. Nós compramos tinta para pintar as paredes e os prisioneiros com maior talento artístico as decoraram com ícones. Logo pude perceber muitas mudanças na vida dos prisioneiros e, em seis meses, eles já se reuniam de maneira independente para orar pela manhã e à noite. Quando eu chegava no domingo para celebrar a Sagrada Liturgia, eles tinham se preparado durante toda a semana com jejum e oração para a confissão e comunhão”. Os presos também são responsáveis pelas tarefas de sacristão, um serviço que pressupõe um grau de conhecimento e responsabilidade.

No entanto, segundo a experiência do sacerdote, o principal desafio na prisão está nos prisioneiros aceitarem suas culpas para realmente mudarem suas vidas. Alguns, mesmo diante do padre, têm medo de assumir a responsabilidade por seus crimes. “Então eu digo, ‘eu sou uma testemunha de Deus, não um promotor, e tenho o poder de absolver os pecados em Seu nome. Mas para fazer isso, é preciso reconhecer sua culpa diante de Deus; isto é necessário para a alma alcançar a cura do pecado’”.

A prisão onde trabalha Pe. Igor tem uma capela. No decorrer dos anos, o padre batizou cerca de 400 prisioneiros. Muitos que frequentaram a capela durante anos recuperaram a liberdade e alguns ainda mantêm contato com ele: Pe. Igor casou muitos deles, batizou seus filhos e muitos ainda vão à igreja todos os domingos. “Tivemos aqui um governante que havia sido condenado por corrupção. Ele costumava ter uma atitude hostil para com a Igreja e quando alguém em seu distrito queria construir uma igreja ele recusava o pedido. Desde sua condenação, passou a participar da missa regularmente.” Alguns presos que conseguiram reconstruir suas carreiras apoiam financeiramente o trabalho da Igreja e tornaram-se benfeitores reais.

Mas há também os presos que migram para o santuário para obter um certificado de boa conduta ou outras vantagens, mas o sacerdote, experiente, não é facilmente enganado. Pe. Igor já foi ameaçado de morte por um preso. No entanto, em geral, as experiências são positivas: “Na verdade, muitas pessoas que cometeram crimes têm uma atitude positiva em relação à Igreja. Seus pecados os faz pensar muito sobre o sentido da vida, enquanto que aqueles que não têm esses problemas, muitas vezes pensam que não precisam de Deus”.

Pe. Igor lamenta pelas pessoas que, em vez de usarem seus talentos e dons a serviço da sociedade, desviam do caminho e usam sua inteligência de modo errado. Segundo ele, isso se deve ao vazioespiritual que reina em muitas pessoas. O tempo que passam na prisão, com assistência pastoral, permite nova oportunidade de voltarem ao bom caminho.

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