Nada mais atual, transformador e revolucionário do que a justiça apresentada por Cristo como proposta para a vida humana. “Sede santos, perfeitos, justos e misericordiosos como o Pai do Céu o é” (Lv 19,2; Mt 5,48; Lc 6,36).

A caminho da celebração da Páscoa do Senhor nada mais oportuno do que buscarmos fazer uma confrontação entre a justiça de Deus e a justiça dos homens, num tempo em que as tensões e a agressividade se fazem sentir em todos os níveis da sociedade.

Cristo, ao nos apresentar as propostas para a Vida Nova de seu Reino, não veio abolir a lei mas elevá-la em sua perfeição maior. “Não pensem que eu vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim abolir, mas dar-lhes pleno cumprimento” (Mt 5,17s). Pela revelação de Cristo e pelos ensinamentos da Igreja, sabemos que a justiça é verdadeira quando se fundamenta na verdade, verdade que para nós cristãos não é outra senão a Boa Nova dos Evangelhos e, acima de tudo, a própria vida de Jesus.

Jesus não aboliu nenhum só ponto da lei antiga, dos ensinamentos dos patriarcas e profetas do AT. Sua novidade se situa na interpretação do verdadeiro espírito da lei, segundo a vontade de seu Pai e nosso Pai.

Jesus ensina e pede a nós: “se alguém lhe dá um tapa, oferece a outra face”, “se te tirar a túnica, dê-lhe também o manto”, “se alguém te forçar andar um quilômetro, anda com ele dois”. “Ouvistes falar o que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém vos digo: Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem e caluniam pois assim vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus, que faz nascer o sol sobre maus e bons e faz cair a chuva sobre justos e injustos… pois se amais somente os que vos amam que recompensa tereis…?”. (Mt 5,38-48).

Jesus é radical: Ensina que a justiça do Pai é o amor de misericórdia, pois somente o amor corrige o erro e salva o pecador. Para Jesus toda pessoa é antes de tudo um irmão. O amor ao próximo deve se estender a todos, também ao inimigo. Só quem age assim se transforma em filho de Deus e ama com o amor de Deus.

Esta é uma exigência do seguimento e do discipulado de Jesus. Não é fácil. Praticamente impossível sem a graça e a ajuda de Deus. Entretanto este é o único caminho que nos libertahumana e espiritualmente e que nos dá a verdadeira felicidade que todos aspiramos.

A justiça humana sem o amor misericordioso de Deus se torna lei, mesmo que se trate da Palavra de Deus. Mata ao invés de salvar. Os fariseus e escribas foram duramente questionados por Jesus por fazerem da Palavra de Deus um jugo que escravizava ao invés de salvar.

Para nós cristãos a justiça em seu sentido maior tem sua fonte de referência em Jesus que, mesmo sendo injustamente pregado na cruz pelos nossos pecados, pede perdão pelos que o matavam: “Pai perdoai-os porque não sabem o que fazem”. (Lc 23,34).

O amor de misericórdia de Deus Pai, vivido e ensinado por Cristo, não nos torna complacentes ou negligentes diante do erro e do pecado, pelo contrário, totalmente fiéis à verdade, reconhecemos o erro e o pecado em nós próprios e nos outros, amando  sempre o pecador seja quem ele for.

Que o Ressuscitado renove a vida e as esperanças em todos, desejando uma feliz e abençoada Páscoa do Senhor.