//A Virtude está no Meio

A Virtude está no Meio

2012-01-05T18:08:46+00:00setembro 30th, 2011|Palavra Viva|

Sem uma consciência maior do verdadeiro conteúdo da vida cristã a liturgia se esvazia e se auto-anula. Canta-se, fala-se e se gesticula demais. A liturgia pode infelizmente se transformar num show ao invés de ser a celebração do mistério de nossa salvação.

A Igreja de Cristo, em sua origem, é formada do divino e do humano, da transcendência e da imanência. Ela não é uma iniciativa humana e nem nasceu das necessidades pastorais do tempo apostólico. É uma iniciativa exclusiva de Deus Pai formando a Nova Aliança de Deus com os homens e dos homens com Deus, pelos méritos da redenção de Jesus. Assim, oração e trabalho, espiritualidade e inserção social são inseparáveis no verdadeiro seguimento de Cristo.

Dessa forma a Igreja é chamada a encarnar e a realizar no tempo atual a presença real da divindade e da humanidade de Jesus. Tendo Cristo por fundamento, a Igreja é verdadeira quando mantém uma dupla fidelidade: de comunhão com Deus e de compromisso com os homens. A oração gera a caridade pastoral e a caridade pastoral exige uma vida de oração. Tudo está presente na vivência do mandamento: “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo” (Mc 12,28-34). Esta é uma exigência da vida cristã.

Falo isto para sermos fiéis a Cristo e à sua Igreja em nossa vocação missionária. Precisamos conhecer a verdadeira natureza da Igreja de Cristo para não nos desviarmos no seguimento do discipulado de Cristo e também para vivermos como cristãos autênticos no mundo de hoje.

Não deixa de ser uma verdade: após o Concílio Vaticano II, não poucos, no ímpeto apostólico de levar a Boa Nova de Jesus aos homens, priorizaram a inserção no mundo social, acentuando a caridade pastoral em detrimento da vida espiritual, esvaziando assim a finalidade maior da vida cristã. E agora, numa reação inversa a este processo, outros tantos estão caindo num erro não menos grave. Cultiva-se uma vida espiritual egoísta, sem a caridade pastoral e social, distanciando-se do compromisso com a sorte e o destino dos irmãos.

Faz-se urgente recuperar a harmonia entre o divino e o humano,entre o espiritual e a caridade pastoral. Somente assim seremos verdadeiros discípulos missionários de Jesus como nos ensina o documento de Aparecida, os ensinamentos da Igreja e particularmente os Evangelhos de Jesus e as cartas apostólicas. Não existe amor a Deus separado do amor ao irmão, como não há amor ao irmão separado do amor a Deus. “Se alguém disser que ama a Deus e não ama o irmão, engana-se, pois quem não ama o irmão a quem vê não ama Deus a Quem não vê. Este é preceito que recebemos: quem ama a Deus que ame também ao seu irmão” (1 Jo 4,20-21).

Há muito de verdade na afirmação do psicólogo americano Ken Wilber, quando este afirma que a vida espiritual nos Estados Unidos nos últimos anos passou por uma grande regressão narcisista sem um efeito maior sobre a ação social e política. Uma verdade que também acontece entre nós.

Infelizmente não poucos cristãos cultivam uma espiritualidade do bem estar, do salvar-se sem se preocupar com o outro, uma vida cristã mais de consumo pessoal sem o compromisso com o social. É bom sabermos que não é esta a verdade dos ensinamentos e da vida de Cristo, que viveu uma vida pautada na fidelidade total à vontade do Pai e no compromisso de extremo amor com a sorte humana. A oração do Pai Nosso na primeira parte fala do dever de nossa relação com Deus e na segunda trata do nosso compromisso de amor com os irmãos. O Papa Bento XVI, na recente Jornada Mundial da Juventude em Madri, ensinou que não existe vida cristã separada da comunhão com Cristo e com os irmãos.

Sem uma consciência maior do verdadeiro conteúdo da vida cristã a liturgia se esvazia e se auto-anula. Canta-se, fala-se e se gesticula demais. A liturgia pode infelizmente se transformar num show ao invés de ser a celebração do mistério de nossa salvação. A preocupação apenas com o emocional fragiliza a vida cristã em sua maturidade espiritual.  Por outro lado, muitos se voltam para a vivência de um tradicionalismo e ritualismo doentio, aonde a vida cristã situa-se fora do espírito dos ensinamentos do Concílio Vaticano II e da Igreja Católica.

“A virtude está no meio”, dizia Aristóteles.

O que precisamos saber e ensinar é que não há vida cristã, espiritual e missionária sem a comunhão de amor com Deus e a comunhão de compromisso com a solidariedade dos irmãos, particularmente com aqueles que mais precisam de nós.

2 Comments

  1. LUIZ GONÇALVES DE OLIVEIRA 14 de novembro de 2011 at 21:54 - Reply

    A VITRTUDE ESTÁ NO MEIO| E ESTARIA COM MUITO MAIS ÊNFASE SE A MAIORIA DO CLERO BRASILEIRO AO LONGO DA HISTORIA DA IGREJA,PRIORISA-SE O PROJETO DAS CEBS EM NOSSO PAIS. POIS O REFERIDO PROJETO FOI CRIADO, NÃO SÓ, PARA NOS EVANGELIZAR, MAS TAMBÉM PARA NOS CONCIENTIZAR A NIVEL DE CIDADANIA, VIVENCIANDO A VERDADEIRA CONCIÊNCIA DE UMA VIDA PLENA, A LUZ DO EVANGELHIO.{QUE A IGREJA QUE SOFRE, NA PESSOA DE CRISTO POSSA ENCONTRAR ATRAVÉS DAS CEBS MAIOR EMPENHO POR MEIO DO CLERO EM FAVOR DOS MENOS FAVORECIDOS].

  2. Otiléa 15 de novembro de 2011 at 10:47 - Reply

    Primeiramente quero parabenizar ao Pe. Evaristo e a todos que se disponibilizam atualização de tão abençoado site.
    Mas, gostaria de pedir que pudessemos compartilhar com o faceebock e com o orkut. Eu não tenho o tweet. Para o face não está funcionando e não tem o orkut.
    Gosto de compartilhar com meus amigos as coisas boas de Deus.
    Um BOM DIA A TODOS e muitas bênçãos de Deus.
    Atenciosamente,
    Otiléa

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