Atravessamos um ano marcado pela crescente e acentuada distância entre os “poucos privilegiados” que tudo possuem e os “muitos necessitados” que nada conseguem. Essa é uma realidade intrigante e inquietante, da qual não podemos disfarçar, mas, sim, procurar os meios necessários para transformá-la. Em sua mensagem divulgada para a celebração do ‘III Dia Mundial dos Pobres’ deste ano, o Papa Francisco lamenta que “a desigualdade gerou um grupo considerável de indigentes, cuja condição aparece ainda mais dramática quando comparada com a riqueza alcançada por poucos privilegiados.”

Somos interpelados pelo Papa quando ele revela que “o compromisso dos cristãos não consiste apenas em iniciativas de assistência que, embora louváveis e necessárias, devem tender a aumentar em cada um aquela atenção plena, que é devida a toda a pessoa que se encontra em dificuldade. Não é fácil ser testemunha da esperança cristã no contexto cultural do consumismo e do descarte, sempre propenso a aumentar um bem-estar superficial e efêmero. Requer-se uma mudança de mentalidade para redescobrir o essencial, para encarnar e tornar incisivo o anúncio do Reino de Deus.”

Testemunhas da esperança

Precisamos ser testemunhas de uma esperança que não esmorece apesar dos sinais de indiferenças presentes no mundo, acompanhados dos muitos relatos tristes que nos chegam de todos os lados e acabam influenciando os nossos ambientes, inclusive dentro da Igreja. Somos chamados a guardar a fé e manter a esperança, pois o que nos move é o próprio Cristo. Nele nos revestimos de uma outra linguagem, de um novo pensamento e, principalmente, de um novo modo de agir, o que nos impele a abraçar a fé com compromisso junto aos que mais sofrem, uma condição inerente a nós, cristãos. Sem essa dimensão, seria como retirar a pulsação do coração do Deus.

Importante: o pobre não é objeto de nossos discursos e elaborações conceituais. Deus se fez pobre para que, na sua pobreza, a nossa pobreza seja alcançada e redimida. É oportuno abraçar as inúmeras formas de pobreza, sem tornar invisível aquela que é visível aos nossos olhos, corrigindo nossa frieza que alimenta a indiferença.

Ao concluir a caminhada deste ano litúrgico rendamos graças ao Senhor e renovemos sempre mais a nossa esperança num mundo de mais amor e com uma justa distribuição dos bens da criação, entregues por Deus como bênção para todos.

Fr. Rogério Lima, O. Carm.
Assistente Eclesiástico Nacional