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Vietnã: terra de mártires

2012-11-28T15:42:19+00:00novembro 29th, 2012|Notícias|

A Igreja católica no Vietnã comemorou entre os dias 10 e 24 de novembro o centenário do Segundo Sínodo de Tonkin, celebrado em 1912 em SoKiên, uma comunidade também conhecida sob o nome de Ke So. Segundo o bispo Dom Joseph Vu Van Thien o aniversário significa para os católicos do país “uma importante ocasião para estudar de novo a história da Igreja católica no Vietnã, pois as preocupações de nossos antepassados continuam as mesmas que temos hoje em dia.” A seguir publicamos a entrevista com o bispo Joseph Vu Van Thien realizada por Maria Lozano, da “Ajuda à Igreja que Sofre”.

Entrevista com Dom Joseph Vu Van Thien, Diocese de Hai Phong, Vietnã

No dia 10 de novembro, durante a celebração do centenário do segundo sínodo de Tonkin, milhares de fiéis se reuniram em uma cerimônia comemorativa. Por que era tão importante esta comemoração para a Igreja no Vietnã?

“Esta jornada de comemoração é muito importante para a Igreja católica do Norte, porque os dois concílios de Tonkin estabeleceram as diretrizes de base para a pastoral nas dioceses. SoKiên nos recorda também um difícil período da nossa história, marcado pelo sangue dos mártires. Como peregrinos da fé, viemos a SoKiên, em primeiro lugar, para dar graças ao Senhor e para aprender lições da história. O fato de celebrar o centenário do Concílio de Tonkin é para nós uma importante ocasião para estudar de novo a história da Igreja católica no Vietnã, pois as preocupações dos nossos antepassados continuam as mesmas que temos hoje em dia: O que devemos fazer para proclamar o Evangelho aos nossos compatriotas, cujo 93% não são cristãos? O que temos que fazer para apresentar a Igreja com uma imagem atrativa, como uma comunidade de fé, mas sempre relacionada com a cultura e a tradição Vietnamitas?”

Que repercussões teve este concilio para a fé da Igreja em seu país?

“Penso que a Igreja católica do Norte se beneficiou muito das diretrizes deste concílio, em relação às indicações sobre as virtudes e a pastoral dos sacerdotes, sobre os bens espirituais e materiais da Igreja, a disciplina e as regras para a administração dos sacramentos, das diretrizes e precisões para evitar práticas supersticiosas. Além disso, nossos padres sinodais já haviam pensado em uma inculturação em relação aos funerais e os matrimônios. Para as pessoas atuais, estes preceitos se converteram em algo ‘arcaico’ ou muito duro; mas naquela época eram muito necessários para as práticas concretas da vida cristã.”

O sínodo foi celebrado de 10 a 24 de novembro de 1912. No dia 24 de novembro, a Igreja Católica celebra precisamente a comemoração dos Santos mártires do Vietnã. Terá sido casualidade que o sínodo tenha terminado exatamente no 24 de novembro?

“Em minha modesta opinião, os católicos celebram no 24 de novembro — desde os últimos anos do século XIX— os Santos mártires de Annam e da China em determinados lugares, entre outros também no Vicariato apostólico de Hanói (que naquele tempo se chamava Tonkin Ocidental). Em 24 de novembro era a data do martírio de Pierre Borie, membro do Seminário missionário MEP de Paris. Em 1838 foi nomeado Bispo da diocese de Tonkin Ocidental, mas foi martirizado no mesmo ano, no dia 24 de novembro (junto com dois Vietnamitas, o padre Vincent Nguyen The Diem e o padre Pierre Vu Dang Khoa), sem ter podido ser ordenado Bispo antes. Pierre Borie foi beatificado no dia 27 de maio de 1900 pelo Papa Leão XIII, e canonizado em 19 de junho de 1988 pelo Papa João Paulo II. Neste contexto me parece importante fazer uma observação: antes da canonização dos mártires Vietnamitas no ano de 1988, a Igreja Vietnamita celebrava os Santos mártires todos os anos no dia 2 de setembro.”

O que significa essa data para a Igreja no Vietnã?

“A Divina Providência quis que essa data, 24 de novembro, adquirisse um grande significado simbólico para a Igreja no Vietnã: em 24 de novembro de 1960, o Papa João XXIII promulgou o Decreto Venerabilium Nostrorum, com o qual constituía a hierarquia da Igreja católica no Vietnã. Deste modo, os Vicariatos apostólicos se converteram em dioceses. Depois de canonizar 117 mártires Vietnamitas, o Papa João Paulo II decidiu que fossem venerados em todos os altares da Igreja Católica em 24 de novembro.”

Em 1912, quando celebrou-se o sínodo de Ke So, reforçou-se particularmente a responsabilidade de todos os membros da Igreja no cumprimento de sua tarefa ao serviço da missão e da transmissão da fé. Neste contexto apareceu o termo “Casa de Deus”. O que significa?

“Parece-me que ‘a Casa de Deus’ —Nhà Ðúc Chúa Tròi ou Nhà Ðúc Chúa Lòi na língua local— foi um dos aspectos importantes, bem estudados neste concílio. Tratava-se de uma estrutura especial no Norte do Vietnã, que —segundo uma fonte fidedigna— existia desde a época do padre Alexandre de Rhode, desde 1629, e que durou até depois de 1954. Segundo minhas informações, denominavam-se ‘membros da Casa de Deus’: seminaristas, menores ou maiores, professores pregadores, sacerdotes e bispos… A palavra ‘membros da Casa de Deus’ compreendia também as crianças e jovens (entre 10 e 17 anos) que viviam nas paróquias com a ideia de que no futuro ingressassem nos seminários para tornar-se sacerdotes.”

O que significa o termo “Professores pregadores”?

“‘Professores pregadores — Thày gi?ng’ se traduz atualmente por ‘catequista’, mas penso que a tradução não é correta. ‘Professores pregadores’ eram homens que viviam o celibato, mas sem ter uma profissão clerical. Embora formados em Teologia, não o faziam para ser sacerdotes; possivelmente não estavam em condições de sê-lo, por exemplo por não dominar a língua latina. Seu ministério consistia em ensinar o catecismo a crianças e adultos, em levar a comunhão aos doentes, em preparar a liturgia. Desde aqueles anos posteriores a 1954 já não há ‘Professores pregadores’ no Vietnã.”

Quais são na atualidade, cem anos mais tarde, os frutos da ‘Casa de Deus’ na Igreja?

“Penso que a abundância de vocações sacerdotais e religiosas é um dos frutos desta estrutura de ‘Casa de Deus’. Me parece necessário acrescentar que esta estrutura chamada ‘Casa de Deus’ deu aos nossos sacerdotes a capacidade de trabalhar em equipe, em comunhão com os pastores e seus irmãos sacerdotes, em benefício da Igreja.”

SoKiên, hoje em dia é uma das paróquias mais importantes da arquidiocese de Hanói e desempenhou um papel decisivo na história da comunidade católica do Vietnã do Norte. Como descreveria a Igreja no Vietnã do Norte? Que particularidades tem?

“A Igreja católica do Norte sofreu muito. O êxodo de 1954 deixou feridas muito graves, em parte irremediáveis. Depois do êxodo, sofremos as dificuldades do regime. Os seminários foram fechados. O Governo controlava estritamente as atividades religiosas. Além disso, muitas comunidades não tinham pastor. Os bispos não podiam visitar suas dioceses. Virtualmente não havia nada: nem sacerdotes, nem catequistas, nem formação de seminaristas. Tomo como exemplo a diocese de Hai Phong: antes de 1954, tínhamos 500 igrejas, segundo as estatísticas de 1939. Agora, em 2012, só nos resta 320. Isto quer dizer que 180 comunidades cristãs desapareceram. A vida da Igreja começou a melhorar a partir dos anos 90. O seminário de Hanói foi reinaugurado em 1982.

Nós pudemos nos beneficiar de uma herança muito rica de nossos antecessores na fé: o amor à Igreja, as diferentes práticas de piedade popular, a solidez da família na tradição Vietnamita e cristã, a generosidade dos leigos que participam voluntária e ativamente na vida da Igreja, como membros de conselhos paroquiais, a vontade de jovens que querem comprometer-se para servir a Igreja na vocação sacerdotal e religiosa… Esta herança foi realmente uma base sólida para a Igreja no Norte. Graças a ela pudemos sobreviver durante os anos difíceis sob o regime comunista.

Atualmente, para nós é fácil restaurar as igrejas, formar seminaristas e leigos, organizar grandes celebrações litúrgicas (é preciso a autorização do Governo em certos casos, mas esta é obtida sem maior dificuldade). Mas, nos bairros novos ou nos lugares onde nunca houve igrejas é impossível comprar um terreno ou construir lugares de culto.

Para o compromisso da Igreja na sociedade Vietnamita (hospitais, escolas, centros caritativos e educacionais…), não temos as autorizações oficiais por parte do Estado, salvo para as escolas maternais, apesar de numerosas petições da Conferência Episcopal.”

Na homilia que pronunciou por ocasião da cerimônia comemorativa, o senhor descreveu a sociedade Vietnamita como uma sociedade que, sob numerosos aspectos, tem sede de verdade e busca um sentido para a vida humana. Que serviço pode aportar a Igreja à sociedade Vietnamita?

“Em primeiro lugar, há que falar dos bons sinais em nossa sociedade: a vida econômica melhorou; os jovens podem viajar ao exterior para estudar; cada vez há mais empresas estrangeiras no país que trabalham para confrontar o problema do desemprego.
Mas uma parte dos vietnamitas, sobretudo os jovens, leva uma vida vazia de sentido. Cada vez há mais problemas: homicídios, suicídios, drogas, álcool, roubos… a família tradicional corre o perigo de decompor-se. Aí surgem os divórcios, os abortos, os meninos de rua… Muitas pessoas não encontram futuro. A corrupção se agravou. Estes dias se fala muito disso nos debates da Assembléia Nacional, mas não estou seguro de que isto produza bons resultados ou soluções positivas.

Penso que uma das razões destes vícios radica na educação materialista e ateia nas escolas. A sociedade Vietnamita está aberta ao mundo, mas progride a um ritmo muito perigoso, como se fosse uma porta que se abre e deixa entrar de tudo, tanto as coisas boas como as ruins.

Inspirado pela mensagem do 13º Sínodo dos Bispos e pela cena do poço de Jacó (Jo 4,5-42), e tendo em conta a situação concreta da sociedade Vietnamita, penso que a Igreja católica pode e deve aportar um testemunho de vida para as pessoas de hoje.”

Pode esclarecer isto? Onde e como os católicos devem dar testemunho?

“Por um lado estão as atividades caritativas para nossos compatriotas, independente de serem católicos ou não, sobretudo nas regiões onde há pobreza e onde frequentemente há ocorrência de ciclones e tempestades. A Cáritas da Conferência Episcopal realizou um bom trabalho durante estes últimos anos. Além disso, a Igreja chama os leigos a colaborarem com seus compatriotas para construir uma vida melhor, pelo bem comum. Disto forma parte também a cooperação com outras religiões (budistas, protestantes) e com certas organizações de beneficência do Governo nas atividades caritativas: atender os doentes de AIDS, aos órfãos, os pobres e as vítimas do “Agente Laranja”, um agente químico desfolhante que foi empregado na guerra do Vietnã.

Mas o que me parece mais importante é formar os leigos, para que sejam bons católicos e bons cidadãos, tal como disse Bento XVI em seu discurso aos Bispos do Vietnã, pela ocasião de sua visita ad limina em 2009. Entretanto, em primeiro lugar devemos nos converter de coração, clérigos e leigos, para que nossa vida seja por si mesma um testemunho fidedigno. O caminho ainda é longo, é certo, mas o Senhor está conosco.

O Ano da Fé começou; a Conferência Episcopal já propôs práticas concretas para os cristãos em todo o país: estudar o catecismo e os documentos do Concílio Vaticano II; colaborar em uma nova evangelização. Espero que a celebração do centenário do Sínodo de SoKiên seja um ponto de referência que nos ajude a virar a página em um período da vida da Igreja no Norte.”

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