Sem lugar na hospedaria

2018-12-12T18:03:26+00:00

Foi no natal de 1947 que o Padre Werenfried van Straaten escreveu o conhecido artigo “Sem lugar na hospedaria” para a revista mensal “Toren”, da Abadia Premonstratense de Tongerlo (Bélgica). Nesse artigo, Padre Werenfried pediu ajuda aos 14 milhões de refugiados alemães expulsos de suas casas nos antigos territórios alemães da Europa Oriental e que agora viviam em extrema pobreza, num país em escombros. O convite para a reconciliação, que parecia escandaloso no pós-guerra, foi o marco inicial da Fundação Pontifícia ACN. Padre Werenfried estava convencido de que o amor é mais poderoso que a ofensa e a amargura do homem.

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Sem lugar na hospedaria

Quando aconteceu o primeiro Natal, as estradas para Belém estavam cheias de pessoas. Pessoas que se apressavam a chegar à cidade do Rei Davi para aí se apresentarem no recenseamento decretado por César Augusto. Lutavam com mãos, pés e cotovelos para ganharem terreno. Elas já sabiam que só os primeiros teriam chance de encontrar um lugar para passar a noite. E, como acontece hoje, também aconteceu naquela época: os mais ricos e os mais poderosos, que montavam cavalos ou camelos, ou que tinham um carro luxuoso, afastavam do caminho os mais pequenos nos seus miseráveis burrinhos e conseguiam a prioridade nas hospedarias. E para Maria, que trazia Jesus no ventre, não houve nenhum lugar na estalagem.

Veem como são as coisas? Como uma cidade é tomada de surpresa por pessoas que só pensam em si? Vocês fazem ideia de como era em Antuérpia (Bélgica) durante a guerra, quando se tomava de assalto o elétrico 41? Como aí as pessoas lutavam e se maltratavam? Como o amável empregado de escritório e o pequeno burguês, de repente, se transformavam em bestas? Como cada gesto de gentileza e cada sentimento nobre desapareciam e as pessoas só lutavam pelo seu próprio eu, sem tolerância? Cada um por si! Assim aconteceu também em Belém. E por isso não houve nenhum lugar para a Sagrada Família. Nenhum lugar para Cristo! Maria sentia que estava chegando a sua hora. José não sabia o que fazer. Mas não havia solução: estevam a sós e esquecidos, ignorados pela multidão…

As coisas não mudaram muito de lá para cá. Continua não havendo lugar para Cristo. Porque as pessoas continuam a se deixar conduzir pelo próprio egoísmo. E porque na realidade nada lhes interessa, desde que elas próprias estejam bem aquecidas e estejam em boas mãos.

Muitos de nós estamos bem aquecidos; a vida corre bem. Temos uma casa, janelas de vidro para nos protegerem contra o frio e, apesar da escassez de alimentos e de outras coisas por causa do pós-guerra, apesar dos preços exorbitantes, na realidade não nos falta muita coisa. Mas será que nos lembramos que lá fora há milhares de “Marias” e “Josés” que se arrastam pela Europa? Que Cristo chora nos pobres, nos sem-abrigo e nos refugiados, nos que padecem de fome e sede, nos presos e nos doentes, e nos mais pequenos a quem Ele chamou dentre os Seus, e em cuja miséria ele esconde o seu rosto divino-humano?

O Natal vem outra vez e Cristo anseia por ser acolhido pelos Seus. Ele anda invisível pelas nossas estradas e por toda a Europa. Não se comportem vocês também como a multidão de predadores em Belém, como os estalajadeiros indiferentes, como os burgueses bem alimentados na sua autocracia corriqueira, mas abram as vossas portas e os vossos corações a cada necessidade que é a necessidade de Cristo.

A necessidade de Cristo? Na Alemanha centenas de cidades jazem em escombros e cinzas. Com frequência não resta quase nada para além dos bunkers que os alemães construíram por toda a parte para protegerem a população contra os ataques aéreos. Nestes bunkers vivem agora muitas centenas de milhares de pessoas. Aí reina um fedor medonho. Cada família, na medida em que se pode ainda considerar família, está encurralada em escassos metros quadrados de solo. Não há luz nem aquecimento, só o calor que vem do corpo do vizinho.

Durante a guerra e a ocupação aconteceram grandes injustiças, mas estes exilados continuam a ser nossos irmãos e irmãs. Cristo também quer viver neles com a Sua pureza, o Seu amor ao próximo e a Sua bondade. Os pastores vieram fazer as suas ofertas a Cristo num estábulo. Mas estas pessoas nem sequer têm um estábulo. Nos seus bunkers, Cristo não pode viver humanamente. Aí não há lugar para Ele. Esta é, quase três anos após o fim da guerra, a necessidade de Cristo!

O mundo em que vivemos é uma loucura. Um mundo que ao longo de séculos considera o egoísmo sem piedade como a mais alta sabedoria… e que se afunda sem cessar. Um mundo de predadores e de desordeiros. Um mundo onde as pessoas colocaram o próprio EU acima do amor, tanto nas coisas grandes como nas pequenas. De César a Napoleão, de Hitler a Stalin e aos estrategistas atômicos americanos foi sempre igual e provavelmente será sempre assim. César foi assassinado. Napoleão morreu no exílio. Hitler suicidou-se, Mussolini foi enforcado… Quem é o próximo? A violência e o egoísmo desenfreado conduzem necessariamente ao declínio. Nós sabemos. Nós próprios assistimos a isso e nós próprios suportamos as consequências. No entanto, como se fossemos cegos e malucos, prosseguimos sempre o mesmo caminho. O caminho do egoísmo nas coisas grandes como nas pequenas. Desde as Conferências de Yalta e de Potsdam dos “Cinco Grandes”, à pequena ganância do pequeno camponês, passando pelas covardes malícias dos nossos próprios pecados, este mundo é dominado por egoísmo.

A Sagrada Escritura contém uma frase trágica: “Ele veio ao Seus e os Seus não O receberam.” Não houve nenhum lugar para Ele na estalagem porque os “Seus” não tinham amor. Aqui reside a tenebrosa raiz da guerra e da destruição. E nós sabemos que Ele é o Príncipe da Paz. A paz pela qual todo o mundo anseia, da qual tanto necessitamos. Restauremos então o amor em nome de Deus, e Lhe abramos as portas e os corações. É que nós, seres humanos, formamos um todo. Todos juntos. Mesmo alemães e comunistas. Mesmo os pobres diabos congelados nos seus bunkers. Mesmo os refugiados e os expatriados. Temos que arranjar lugar uns para os outros e temos que nos amar uns aos outros. Não com palavras, mas com atos. Como São Martinho. Ele montava um cavalo quando um pobre homem lhe pediu uma esmola. Mas ele não tinha mais nada. Então, tomou o seu manto e rasgou-o, de forma a poder dar ao pobre uma metade. E este pobre homem era o próprio Cristo. Cada pobre, em qualquer sentido da palavra, também é Cristo. Assim, deem roupas e alimentos aos vossos irmãos na Alemanha e não exijam que eles vos devolvam a última libra de carvão. Deem aos sem-abrigo um dos quartos da vossa casa. Reservem um lugar à vossa mesa para os famintos. E deem a todos o vosso amor e caridade, o vosso perdão e um rosto amável.

São João escrevia aos cristãos: “Compreendemos o que é o amor, porque Jesus deu a sua vida por nós; portanto, nós também devemos dar a vida pelos irmãos. Se alguém possui os bens deste mundo e, vendo o seu irmão em necessidade, lhe fechar o coração, como pode o amor de Deus permanecer nele? Filhinhos, não amemos com palavras nem com a boca, mas com obras e com verdade.” (1Jo 3,16-18).

Enquanto não tivermos feito isto, a nossa porta e o nosso coração continuarão fechados a Cristo. Então não temos lugar para Ele! Todos os presépios, árvores de Natal, velas, enfeites e estrelas cintilantes não são capazes de reparar essa indiferença. Façamos então a reconciliação uns com os outros nos nossos corações, nos destroços do país inimigo. Esqueçamos as velhas desavenças. Estendamos as mãos uns aos outros com doçura e com bondade. Restauremos o amor. A pequena criança que chora no presépio é Emanuel, Deus conosco. E Deus é amor.

Werenfried van Straaten

*** Artigo original, Natal de 1947, escrito em holandês.