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República Tcheca: valentes pioneiros

2013-06-04T14:57:05+00:00 junho 4th, 2013|Notícias|

Padres Carmelitas celebram o vigésimo aniversário de sua volta à Praga, após queda do comunismo. Pe. Anastásio Roggero, encarregado do santuário do Menino Jesus de Praga, recorda aqueles tempos.

Dentro do bonde 22, um homem observa um evento com os olhos esbugalhados de quem viu um fantasma. Uma procissão como não se vê todos os dias na cidade de Praga, capital da República Tcheca. Os sinos soam festivamente enquanto o Menino Jesus de Praga percorre as ruas deixando para trás igrejas, lojas, locais de massagem tailandesa, cafeterias, turistas (que tiram fotos) e muitos passantes surpresos. Um grande número de pessoas canta seguindo o Jezulátko – apelido carinhoso com o qual se conhece Menino Jesus no país. Orgulhosamente, o “pequeno rei” desfila sobre um andor decorado com flores e abençoa com a mão direita a cidade e o globo terrestre.

O fato deste testemunho público de fé ser possível hoje, na República Tcheca, não pode ser minimizado, já que foi uma das nações da Europa Central e do Leste onde a Igreja foi mais brutalmente perseguida pelos comunistas. Todos os fiéis sofriam represálias, numerosos sacerdotes e religiosos eram condenados a longas penas de prisão ou trabalhos forçados e conventos e mosteiros foram abolidos. Durante várias décadas, a imagem do Menino Jesus de Praga permaneceu sozinha e esquecida em seu altar lateral, enquanto cupins roíam os bancos e altares da igreja ao silêncio dos sinos: Deus estava oficialmente morto.

Porém em 1989, a história tomou um novo e surpreendente rumo. A queda do comunismo devolveu esperança à Igreja. Assim também o “Jezulátko” deixava de estar sozinho. Em 1993, o então Arcebispo de Praga, Cardeal Miroslav Vlk, propôs aos Padres Carmelitas italianos a instalarem-se na sua arquidiocese. Pe. Anastásio Roggero, de 74 anos, originário de Gênova e que celebra este ano seu 50º aniversário de ordenação, foi um dos pioneiros. O Cardeal confiou-lhe a igreja do santuário onde a imagem do Menino Jesus era guardada.

O começo não foi fácil, como recorda Pe. Anastásio: “A igreja se encontrava em um estado inimaginável e há tempos não se celebrava Missas. Na sacristia, a família que tinha as chaves da igreja pendurava sua roupa para secar. Havia por lá um piano velho que o organista deixou por não saber como desfazer-se dele. O chão e os armários estavam em um estado lamentável, e a cripta e outros espaços da igreja estavam repletos de escombros. Pe. Víctor e eu dormíamos em dois pequenos quartos junto do órgão; em um deles estava o motor do instrumento. A cozinha era minúscula e o refeitório era ao mesmo tempo escritório e recepção”.

De maneira parecida, o antigo mosteiro dos Franciscanos em Slány, a 20 quilômetros de Praga, que agora foi transformado no noviciado dos Carmelitas – devido à falta de espaço para novas vocações religiosas em Praga –, encontrava-se em um estado lastimável. Depois da expulsão dos religiosos em 1950, o mosteiro foi usado como prisão e local de escritórios, enquanto o jardim se converteu em lugar de tiro ao alvo, depois em um depósito de entulho, e até mesmo em um zoológico. Quando o mosteiro foi restituído, o Prior dos Carmelitas, Petr Glogar, junto a outros membros da congregação, se depararam com uma ruína. Sem se abaterem, arregaçaram as mangas e começaram a trabalhar. A Associação Pontifícia Ajuda à Igreja Que Sofre auxiliou na reconstrução do edifício e também financiou a compra de um carro para o trabalho pastoral dos Carmelitas. Enquanto isso, graças ao duro trabalho destes religiosos, o mosteiro se converteu novamente em um lindo lugar de paz, e a seu redor, formou-se uma ativa comunidade de fiéis com muitas famílias jovens. Além disso, o recinto alberga uma casa de retiro. Por esta razão, junto do Santuário do Menino Jesus, o lugar representa um importante centro religioso da Arquidiocese de Praga.

Os quatro Padres Carmelitas encarregados da igreja em Praga têm muito trabalho. Afinal, mais de um milhão de pessoas de todo o mundo visita anualmente o santuário para ver a imagem milagrosa do Menino Jesus. O peregrino mais famoso do santuário foi o Papa Bento XVI, que, em setembro de 2009, fez da igreja sua primeira parada durante a viagem na República Tcheca. Conforme assegura Pe. Anastásio, esta visita foi “muito alentadora” para os Carmelitas. Este religioso poliglota, que pode celebrar a Santa Missa em pelo menos dez idiomas diferentes e que atende a praticamente todos os peregrinos em sua língua materna, não só se limita a receber os peregrinos que chegam a Praga, mas também se ocupa de que a veneração do Menino Jesus se estenda por todo o mundo, enviando inúmeras réplicas da imagem a países africanos, asiáticos, latino-americanos e europeus, assim como aos Estados Unidos, para que surjam novos santuários em todos os continentes. Mongólia, Ilhas Maurício, República Centro-africana, China, Japão, Myanmar e Singapura são apenas alguns exemplos deste apostolado. Inclusive no Paquistão já existe um santuário do Menino Jesus de Praga e na Índia encontra-se um dos maiores santuários dedicados a esta devoção no mundo. Em Praga trabalham dois Padres Carmelitas indianos que também se encarregam de auxiliar e atender os numerosos peregrinos do santuário.

Assim, de Praga surgem bênçãos e graças para todo o mundo. Os Padres Carmelitas já estão há vinte anos na capital da República Tcheca, mas ainda há muito por fazer. A beleza da igreja de Nossa Senhora da Vitória não deve enganar-nos, pois mesmo depois de quase um quarto de século após o final do comunismo os desafios continuam imensos. Não obstante, a obra que os Padres realizaram desde sua chegada é praticamente sobre-humana. “Há vinte anos, presenciamos como cresce o número de fiéis que chegam de todos os continentes para rezar ao Menino Jesus e para dar-lhe graças, e que falam das súplicas atendidas”, partilha com alegria Pe. Anastásio.

Os sinos repicam e o Menino Jesus percorre as ruas de Praga. Stálin está morto. A história recente volta a confirmar o que a Santa Carmelita e filósofa Edith Stein escreveu sobre o Menino Jesus de Praga pouco antes de morrer no campo de concentração de Auschwitz: “É Ele quem sujeita as rédeas, embora os homens pensem que são eles os que o fazem”.

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