//“O que vai restar do Líbano?”

“O que vai restar do Líbano?”

2015-05-25T18:14:52+00:00maio 25th, 2015|Notícias|

Com mais de 1,5 milhão de refugiados, o cardeal Rai se preocupa com o futuro de seu país: “… O perigo de que o Oriente Médio perca a presença cristã está aumentando. O Ocidente precisa se dar conta da gravidade da situação”.

O Patriarca Dom Bechara Rai está preocupado com o equilíbrio religioso do Líbano. Numa entrevista com a organização de caridade pastoral Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), concedida em sua residência oficial de Bkerke, no Líbano, o líder da Igreja Maronita, que faz parte da Igreja Católica, comentou: “Não existem problemas com relação àsrelações entre os cristãos e os muçulmanos vivendo juntos no Líbano. Todos os libaneses querem viver juntos. O nosso maior problema são os refugiados sírios. Eles já somam mais de 1,5 milhão de pessoas. É evidente que é nosso dever humanitário ajudar. E a Igreja está fazendo muita coisa. Entretanto, a maioria deles é de muçulmanos sunitas. Eles poderão ser explorados política e religiosamente pelos sunitas libaneses”, disse o cardeal. “Já tivemos de passar por uma situação destas com os refugiados palestinos. Foram eles que começaram a guerra civil dos anos 70 contra os libaneses. Naquela época, os libaneses sunitas se juntaram a eles. Isto poderá acontecer de novo agora. Quando tivemos no ano passado o primeiro confronto entre o exército libanês e os islamistas radicais do Estado Islâmico (EI), o exército foi atacado por sunitas sírios armados. A longo prazo, esta é uma bomba relógio. A guerra na Síria e no Iraque tem de acabar para que os refugiados possam retornar. O tempo não trabalha a nosso favor”.

Dar refúgio a um número tão grande de refugiados da Síria também tem consequências econômicas para o Líbano, relatou o cardeal. “Os sírios evidentemente tem de comer. Assim, eles trabalham por salários menores que o recebido pelos libaneses. Em consequência, libaneses estão perdendo seus empregos. Os sírios abrem lojas vendendo mais barato que as lojas libanesas. Por esta razão, um certo número de libaneses imigraram. Isso também traz sérias consequências econômicas e sociais. “O que vai restar do Líbano e da cultura libanesa a longo prazo, se estes um milhão e meio de sírios continuar vivendo em nosso país?”, perguntou o cardeal com ansiedade. “É claro que isso tem um efeito sobre os cristãos do Líbano. Os cristãos querem ter liberdade e uma vida boa. É por esta razão que eles estão vendendo tudo que tem e imigrado. O perigo de que o Oriente Médio perca a presença cristã está aumentando. O Ocidente precisa se dar conta da gravidade da situação”.

O cardeal fez um apelo para a Ajuda à Igreja que Sofre conscientizar os políticos do Ocidente sobre a situação dos cristãos do Oriente Médio. “Os políticos precisam compreender que a guerra na Síria precisa acabar. A comunidade internacional precisa parar de fomentar e apoiar a guerra. O comércio de armas precisa parar. Eles precisam por de lado o seu orgulho, sentar-se à mesa de negociações e encontrar uma solução política. Porém, o orgulho deles não permite que isto aconteça. É que interesses econômicos, como gás e petróleo, estão por traz deste orgulho”. O Cardeal Rai acredita que os grupos muçulmanos extremistas, como o Estado Islâmico, a al-Qaeda e o al-Nusra foram criados com a ajuda de países ocidentais e árabes. O objetivo era usá-los como instrumentos a fim de alavancar seus interesses políticos e econômicos. “Afinal de contas, esta gente caiu do céu? Entretanto, eles agora se transformaram numa ameaça contra o mundo inteiro”.

Segundo o cardeal Rai, uma solução política não pode mais ser evitada. “Porque o presidente Assad da Síria não caiu como o Mubarak no Egito, ou Ben Ali na Tunísia? É que toda a população daqueles países era contra eles. Mas este não é o caso na Síria. Lá, o povo é a favor do presidente. Eleições foram realizadas recentemente e Assad foi reeleito como presidente. Os países ocidentais não quiseram reconhecer estas eleições. Disseram que elas foram manipuladas. Eles não querem aceitar a democracia em nome da democracia, continuou o líder da maior comunidade cristã do Líbano. “Mas eles tem que conversar com o Assad. O diálogo entre o governo e a oposição é decisivo. Por exemplo, na França me disseram que a oposição não quer conversações com Assad. Mas então, com quem mais eles poderiam conversar para solucionar o conflito”?

O Cardeal Rai comentou que os muçulmanos do Oriente Médio precisam de Jesus Cristo e dos valores do Evangelho. “O que os muçulmanos do Oriente Médio estão ouvindo hoje em dia? Só sobre guerras, ódio, perseguição, assassinatos, refugiados e fundamentalismo. Mas eles precisam ouvir falar de paz, justiça, direitos humanos, respeito pela vida, fraternidade, liberdade e respeito de uns para com os outros. Eles precisam do antídoto que é o Evangelho de Jesus Cristo. Eles precisam ouvir uma outra linguagem. Por aqui, não tem ninguém falando sobre amor e paz. Mas eles só falam sobre guerra e ódio”. Neste contexto, o cardeal falou sobre o Ano Santo da Misericórdia que irá começar no outono, como um ‘gesto profético’ do Papa Francisco. “Não há misericórdia neste mundo. Mas o mundo precisa de misericórdia, hoje mais do que nunca. Nós rezamos para que os cristãos possam ser apóstolos e heróis da misericórdia”.

O Patriarca exprimiu seus agradecimentos para com os benfeitores da AIS por sua generosidade e ajuda: “Eu agradeço aos mais de 600.000 benfeitores de todo o mundo que nos ajudam com suas orações e ajuda material. Em nome de todos os cristãos do Oriente Médio, eu desejo expressar minha gratidão a eles. Eles representam a misericórdia de Deus. Eles dão testemunho da misericórdia nesta terra escolhida por Deus”.

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